AMÉRICA LATINA

Brasileiros são latinos ou não — e por que isso é tão polêmico?

Em meio à polêmica nas redes e à celebração da latinidade por Bad Bunny no Super Bowl, conheça a origem do termo "latino-americano" e por que apenas 4% dos brasileiros se definem como latinos.

"Português é falado em só um país da América Latina. Olha esses brasileiros tentando ser parte do time KKKKKKK."

A postagem feita por uma pessoa que diz ser americana filha de mãe mexicana na rede social X trouxe de volta uma polêmica frequente nas redes sociais: os brasileiros são latinos ou não?

Em uma semana marcada pela celebração da latinidade, com o show do porto-riquenho Bad Bunny no intervalo do Super Bowl no domingo (8/2), poucos dias após ganhar três Grammys, entre eles o de Álbum do Ano, o post recebeu quase 6 mil republicações comentadas, em sua maioria de brasileiros e de hermanos latino-americanos, defendendo o lugar dos brasileiros nesse clube.

Reprodução X
O argentino Nahuel Lanzón foi um dos hermanos a defender a honra latina do Brasil: 'PERA AÍ! Ninguém vai criticar o Brasil mais do que eu. Fora gringos da América Latina'

Apesar da reação ao comentário da americana, a ideia de que brasileiros são latinos está longe de ser um consenso — mesmo entre os próprios brasileiros.

"O Brasil é um país único, ninguém se parece com a gente", disse um usuário, ao comentar .

Outro afirmou: "Ser latino nos coloca em um pacote. Ser brasileiro nos torna únicos! E pra mim isso basta".

Uma pesquisa do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) confirma essa falta de identidade latina da maioria dos brasileiros.

Segundo o levantamento, de 2023, quando questionados sobre sua identidade, apenas 4% dos brasileiros se definem como latino-americanos, ante 83% que se dizem brasileiros e 10% que se definem como "cidadãos do mundo".

Edições anteriores da pesquisa, de 2014 e 2018, mostraram resultados similares.

"Essa é uma questão estrutural, que não se altera", diz Feliciano de Sá Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP) e um dos responsáveis pelo estudo.

"É um pouco a ideia de que nós somos autossuficientes na nossa brasilidade. Não é que nós rejeitemos a noção de América Latina, simplesmente não a temos de forma profunda, como têm nossos vizinhos."

Mas o que explica essa diferença na identidade latina de brasileiros e dos nossos vizinhos falantes de espanhol?

Qual o papel da França e dos Estados Unidos nisso?

E por que o termo "latino" é cercado de polêmica?

A origem do nome América Latina

Existem diferentes versões sobre quem foi o pioneiro a usar o termo América Latina.

"Alguns autores atribuem-no ao chileno Francisco Bilbao, que o mencionou pela primeira vez numa conferência em Paris em 1856", destaca Alejandra Claros Borda, secretária-geral do Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF), em artigo sobre o tema.

Outros estudos indicam que, no mesmo ano, o colombiano José María Torres Caicedo utilizou o termo em seu poema As Duas Américas. Nele, Torres Caicedo defende a independência e a unidade dos países latino-americanos contra a intervenção dos Estados Unidos.

Mas o conceito de América Latina tornou-se popular de fato em 1861, quando o imperador francês Napoleão 3º tentou criar uma esfera de influência francesa no continente americano, baseada numa suposta afinidade cultural entre os povos de origem latina, observa Claros Borda.

Museo Nacional de Historia
Sob o comando de Napoleão 3º, os franceses invadiram o México em 1862 — episódio está na origem do nome 'América Latina', no século 19

"A ideologia panlatina, que já existia na França desde os anos 1830, ganhando força no governo de Napoleão 3º [o chamado Segundo Império Francês, de 1852 a 1870], objetivava subjugar as nações hispano-americanas ao poderio francês e, ao mesmo tempo, visava diminuir a área de atuação da política imperialista dos EUA", destacam os pesquisadores Rafael Leporace Farret e Simone Rodrigues Pinto, em artigo sobre o tema.

"Seu ponto central era a aproximação cultural entre a França e as nascentes repúblicas de língua espanhola, a partir de uma união 'latina' intercontinental, mas que obviamente teria a França como liderança."

Sob o comando de Napoleão 3º, os franceses invadiram o México em 1862. Mas a ideia de um "panlatinismo" liderado pela França foi rejeitada pelos países latino-americanos, que se opuseram à intervenção francesa e apoiaram a resistência mexicana liderada por Benito Juárez — primeiro indígena a ser presidente do México (por cinco períodos, entre 1858 e 1872).

Apesar dessa origem turbulenta, o termo América Latina foi resgatado no século 20 e ganhou força com a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) — uma das cinco comissões regionais da ONU, criada em 1948 para fomentar o desenvolvimento econômico e social na região.

"A noção de latino-americanidade só entra mais forte no Brasil nos anos 1960, com a esquerda intelectual que, por conta das ditaduras, vai fazer uma cooperação intelectual e no movimento de emancipação contra o imperialismo americano", observa Guimarães.

Cepal
O termo América Latina ganhou força com a criação da ONU e da Cepal

É nessa época que surgem alguns dos grandes hits da MPB celebrando a latinidade, como Soy loco por ti, América, gravada por Caetano Veloso em 1968; Sangue Latino, dos Secos e Molhados (1973); Apenas um Rapaz Latino-Americano, de Belchior (1976) e Canción Por La Unidad de Latino América, de Milton Nascimento e Chico Buarque (1979).

"Com toda a discussão em torno das escolas de economia da Cepal, essa narrativa latino-americana chega para nós com mais ênfase. Mas ela vem de cima para baixo, das elites para o povo, e nunca entra no âmago da nossa identidade", avalia Guimarães.

Ser latino nos EUA

Enquanto nos países da América Latina e Caribe o termo latino-americano foi ressignificado a partir dos anos 1960, com uma ideia de união regional contra o imperialismo americano em meio às ditaduras, nos EUA, o termo "latino" tem outra história.

Por lá, latino é uma categoria étnico-racial, usada pelo Censo para classificar "indivíduos de origem ou cultura mexicana, porto-riquenha, salvadorenha, cubana, dominicana, guatemalteca e de outros países da América Central, América do Sul ou de origem/cultura espanhola", segundo a definição atualmente em vigor.

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Porto-riquenho, Bad Bunny é considerado hispânico ou latino pelas estatísticas oficiais americanas — mas brasileiros ficam de fora da categoria

Com esta definição, que limita a classificação latino (ou hispânico) a pessoas de países "de cultura ou origem espanhola", brasileiros não são considerados latinos pelas estatísticas oficiais americanas.

Isso tem origem em uma lei, aprovada em 1976 pelo Congresso americano, que determinou a coleta de dados no país sobre "americanos de origem ou descendência espanhola".

Para implementar essa lei, em 1977, o Escritório de Administração e Orçamento dos EUA publicou os padrões para a coleta de dados étnicos e raciais no país, depois revisados em 1997 e 2024.

Na classificação de 1977, a categoria se chamava "hispânico". Vinte anos depois, em 1997, foi alterada para "hispânico ou latino" — mudança que visava aumentar a taxa de resposta, ao incluir o termo "latino", mais usado no Oeste do país, enquanto "hispânico" era mais usado no Leste, embora a abrangência do termo continuasse limitada às pessoas de países "de cultura ou origem espanhola".

Já a revisão de 2024 manteve o nome da categoria como "hispânico ou latino" e a abrangência inalterada, o que segue excluindo brasileiros da definição.

O que mudou — e deve passar a vigorar a partir do Censo americano de 2030 — é que antes "hispânico ou latino" era considerado uma etnia nas estatísticas oficiais americanas, o que significava que os hispânicos ou latinos podiam ser de qualquer raça (como brancos ou negros).

Pew Research Center
A partir de 2030, o Censo americano vai combinar raça e etnicidade e incluir 'hispânico ou latino' e 'Oriente Médio ou Norte da África' ao lado de categorias como branco, preto e asiático, o que é alvo de críticas

Nessa classificação, etnia dizia respeito à identidade cultural e linguística, enquanto raça dizia respeito a características físicas, herdadas entre gerações. Assim, era possível ser latino branco ou latino negro, por exemplo.

Já a partir de 2030, o Censo americano vai combinar questões de raça e etnicidade — novamente com a intenção de melhorar as taxas de resposta —, uma mudança que tem sido criticada por promover um apagamento da população americana afro-latina, segundo ativistas que fazem parte da campanha "Latino não é raça".

Assim, os brasileiros nos EUA seguem em uma espécie de "limbo estatístico", porque não são considerados hispânicos ou latinos, mas também não são vistos como brancos ou negros, no sentido que esses termos têm naquele país.

No Censo americano, os brasileiros são classificados dentro do grupo "Some Other Race (SOR)" ou "alguma outra raça".

Em 2021, antes das grandes deportações promovidas pelo governo de Donald Trump, os brasileiros nos Estados Unidos (569 mil, segundo dado oficial, mas um contingente que é provavelmente maior se levados em conta aqueles em situação migratória irregular) representavam menos de 1% da população hispânica (61,1 milhões).

Por que o termo 'latino' é polêmico

Mas as polêmicas em torno do termo "latino" vêm de muito antes.

Seus críticos destacam que nem todas as pessoas que vivem na América Latina se identificam desta forma — pessoas indígenas, por exemplo, frequentemente se identificam primeiramente como parte de seu povo e não com seu país ou região.

Além disso, afirmam que não se trata de fato de uma identidade cultural ou regional, mas de uma ideologia similar à da mestiçagem, que, como esta, apagaria a história e identidade dos diferentes grupos que compõem a região, como povos originários e afrodescendentes.

Mesmo entre os hispânicos nos EUA, uma pesquisa do instituto Pew Research Center mostrou que 52% preferem se descrever por seu país de origem, contra 30% que preferem o termo latino, e 17% se descrevem primeiramente como americanos.

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A cantora Jennifer Lopez virou meme em 2011 ao cometer um deslize gramatical em espanhol, ao receber um prêmio no American Music Awards, gerando um debate nas redes sociais sobre quem é ou não latino

Por que brasileiros não se veem como latinos

Já no Brasil, a fraca identificação com a latinidade tem origem na diferença entre o processo emancipatório brasileiro e da América hispânica, avalia Feliciano Guimarães.

"Essa é uma invenção francesa e americana, que é adotada pelos mexicanos no século 19, o que tem a ver com a independência dos países hispânicos", diz o professor do IRI-USP.

"Mas, como nossa independência foi diferente da dos hispânicos — nós nos tornamos independentes em uma relação simbiótica com Portugal, após sermos capital de Portugal [de 1808 a 1821, durante as invasões napoleônicas] —, fomos na origem um país independente diferente."

J. W. Rodrigues
'Declaramos a independência, mas permaneceu o vínculo com Portugal', destaca diretor do Memorial da América Latina

João Carlos Corrêa, diretor cultural do Memorial da América Latina em São Paulo, avalia que essa diferença fez os brasileiros se verem mais próximos da Europa do que de seus vizinhos hispânicos.

"Declaramos a independência, mas permaneceu esse vínculo com Portugal, então, para o brasileiro, foi muito mais cômodo dizer que 'nós somos um país-continente, independente e com raízes europeias'", diz Corrêa.

"Já no caso dos países de colonização espanhola, o rompimento se deu por meio de muita luta e sangue, o que evoca uma questão de soberania maior: 'Nós conquistamos, nós conseguimos, nós não dependemos e somos um outro povo, o povo latino-americano'."

É somente a partir da República que o Brasil começa a falar em solidariedade americana, lembra Guimarães.

Então começam as Conferências Pan-Americanas, e o país passa a ter uma relação de amizade com seus vizinhos, após séculos de rivalidade com os hispânicos, marcados por guerras que deram ao Brasil sua extensão territorial atual.

Domínio público
As Conferências Pan-Americanas foram grandes fóruns de discussão entre países do continente americano

Especialista em América do Sul, Guimarães destaca, no entanto, que a relação do Brasil com seus vizinhos é historicamente ambígua.

"Na mesma medida em que não somos 100% firmes nessa noção de latino-americanidade, também não mantemos com eles [os países vizinhos] relações políticas e econômicas que são 100% firmes. Elas são sempre estratégicas", diz o professor.

Segundo ele, um exemplo disso foi quando, no final dos anos 1990, o Itamaraty abandonou o uso sistemático da ideia de América Latina e adotou no lugar América do Sul, partindo da noção de que a América Latina era muito ampla e o Brasil não tinha influência na América Central, México e Caribe.

"A América Latina é um chapéu que o Brasil usa conforme a conveniência. Que a gente troca por América do Sul quando convém. Ou troca por uma expansão europeia nas Américas, quando faz um relacionamento Brasil-Europa, ou por Sul Global quando falamos com a China", exemplifica Guimarães.

Mas afinal, brasileiros são ou não latinos?

Dito tudo isso, qual é a resposta para a dúvida que sempre volta nas redes sociais?

"Eu respondo assim: os brasileiros não se sentem profundamente latino-americanos, mas fazem parte da comunidade latino-americana", diz o autor do estudo que mostra que apenas 4% dos brasileiros se definem como latinos.

"A minha interpretação é que, se você fizer uma segunda pergunta para todo mundo que respondeu ao questionário, seja o brasileiro de baixa escolaridade ou o de alta escolaridade, 'você é um latino-americano?', eles vão responder que sim, mas isso não significa que essa identidade é central", diz Guimarães.

"No fundo, somos principalmente uma coisa: brasileiros. Para nós, é muito mais decisivo que a Fernanda Torres e o Wagner Moura sejam indicados ao Oscar e ganhem, do que qualquer reconhecimento do Bad Bunny, quando ele fala 'Brasil' ao lado de Argentina, Chile, etc."

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'Para nós, é muito mais decisivo que a Fernanda Torres e o Wagner Moura sejam indicados ao Oscar, do que qualquer reconhecimento do Bad Bunny', diz professor

João Carlos Corrêa, do Memorial da América Latina, avalia que o Brasil perde ao não se reconhecer plenamente como latino.

"A gente exporta cultura, consome cultura latino-americana, mas se coloca de fora desse mercado", diz Corrêa.

Em um artigo sobre o tema, ele foi ainda mais enfático: "Reconhecer-se latino transcende geografia ou folclore. É abraçar um projeto político inacabado de libertação coletiva."

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