REINO UNIDO

Como prisão do ex-príncipe Andrew pode afetar a família real britânica

Após a prisão de Andrew, o rei Charles 3º afirmou que as autoridades "contam com nosso total e irrestrito apoio e cooperação"

Como esse episódio poderia resultar em algo que não fosse negativo para a família real e a monarquia britânica?

Andrew Mountbatten-Windsor, irmão do rei Charles 3º, foi preso na quinta-feira (19/2), na propriedade real de Sandringham, e então fotografado e submetido à coleta de impressões digitais. Ele foi solto após permanecer cerca de 11 horas sob custódia da polícia por suspeita de má conduta no exercício de cargo público, em uma investigação ligada ao caso do falecido criminoso sexual Jeffrey Epstein.

Antes de se mudar para Sandringham neste mês, Andrew era o homem que vivia, dede a morte da mãe da rainha Elizabeth 2ª, em 2002, no suntoso Royal Lodge, em meio ao luxo de 30 quartos no Windsor Great Park.

Há até poucas semanas, ele era o "príncipe" Andrew, título que parou de usar após ordem de seu irmão, o rei Charles 3º.

Há poucos meses, ele foi fotografado nos degraus da Catedral de Westminster, ao lado dos demais membros da família, no funeral da duquesa de Kent.

E, durante anos após sua saída do cargo de enviado especial para o comércio em 2011, ele usou o Palácio de Buckingham como pano de fundo para seu empreendimento de investimentos, o Pitch@Palace.

Ninguém invejaria a posição do rei Charles 3º neste momento; seus apoiadores apontam as ações que ele já tomou — retirando os títulos e a residência do irmão, além de prometer cooperação com quaisquer investigações.

Eles destacam o que descrevem como rapidez e determinação do rei.

E mencionam a declaração divulgada nas horas seguintes à prisão de Andrew Mountbatten-Windsor. Um comunicado que não fez uma única referência aos laços de sangue entre o rei e Andrew.

Em sua declaração, ele afirmou ter "profunda preocupação" com "Andrew Mountbatten-Windsor e suspeitas de má conduta em cargo público" e declarou que as autoridades "contam com nosso total e irrestrito apoio e cooperação".

Jonathan Dimbleby, biógrafo e amigo do rei, traçou uma distinção entre a família real e a monarquia na quinta-feira (19/2), no programa World at One, da BBC. "Não acho que isso prejudique a monarquia", disse ele sobre a prisão. "Acho que precisamos separar a ideia de família da instituição da monarquia."

"Acho que isso é muito importante. É muito fácil alinhar as duas coisas", acrescentou Dimbleby.

Alguns avaliam que a prisão dará à família real e ao Palácio algum fôlego e que o tratamento de Andrew Mountbatten-Windsor como apenas mais um suspeito reduzirá o dano causado.

Pode ser um pequeno alívio em um dia de notícias desastrosas. Mas isso não chega nem perto de deixar o copo meio cheio.

Durante décadas, o Palácio de Buckingham, a instituição que serve à família real sob sua direção, traçou uma linha entre o papel público dos membros da família e suas vidas privadas.

Reuters
Há pouca dúvida sobre o dilema enfrentado pelo rei ao equilibrar a lealdade familiar e seu dever para com a Coroa

À medida que Andrew se afastou da vida pública, o Palácio também deixou de representá-lo.

Mas a distinção — tão importante para o Palácio — não é percebida pela maioria das pessoas; o Palácio, a família real e a monarquia parecem uma coisa só.

Andrew pode não aparecer há algum tempo na varanda do Palácio de Buckingham. Mas, por mais de seis décadas, integrou o que seu pai, o príncipe Philip (1921–2021), costumava chamar de "negócios de família".

A ideia de que isso seja ou tenha sido um "assunto privado" não se sustenta. Mountbatten-Windsor é o ex-príncipe Andrew e permanece na linha de sucessão ao trono. O sangue real é a essência de uma monarquia hereditária.

Mesmo que ele fosse apenas um "cidadão comum", sua relação passada com a família real e com a instituição bastaria para arrastar a monarquia para a controvérsia.

Quem sabe o que poderá emergir da cooperação "total e irrestrita" com as investigações que o rei prometeu.

O Palácio destaca as medidas sem precedentes adotadas até agora pelo rei — a retirada dos títulos e da residência de Andrew, a oferta de assistência e a decisão de não buscar, de nenhuma forma, qualquer favorecimento junto às autoridades.

Não há dúvidas sobre o dilema enfrentado pelo rei ao equilibrar a lealdade familiar, uma situação herdada ao ascender ao trono, e seu dever para com a Coroa.

Mas a monarquia se baseia na continuidade; é a soma do que veio antes e, ao mesmo tempo, um organismo vivo que responde ao presente.

Os apoiadores do rei enfatizam o quanto ele já fez. Os críticos da instituição questionarão por que não agiram antes, por que não demonstraram maior disposição para apurar os fatos à medida que os relatos e as acusações se acumulavam e em que momento, e por qual razão, mudaram a forma como passaram a tratar o ex-príncipe.

O drama do dia perderá força, mas o estrago já está feito. A questão para o Palácio, a família real e a Coroa é: quanto ainda está por vir?

Detenção de Andrew em Norfolk

Imagens mostraram carros chegando à propriedade onde Andrew estava vivendo em Sandringham, no condado de Norfolk, por volta das 8h (horário local).

Segundo a polícia de Thames Valley, que conduz a operação, Andrew foi liberado "sob investigação" e que as buscas em Norfolk, onde o ex-príncipe mora, foram concluídas.

Andrew foi fotografado com o corpo reclinado na parte de trás de um veículo saindo de uma delegacia no Reino Unido por volta das 19h (horário local).

Anteriormente conhecido como Duque de York, Andrew é filho da rainha Elizabeth 2ª e irmão mais novo do rei Charles 3º, que afirmou em comunicado oficial ter recebido "com profunda preocupação a notícia" e que "a lei deve seguir seu curso".

Andrew é o primeiro membro sênior da família real na história moderna a ser preso.

O Palácio passou por momentos de tensão recentemente, com acusações de que estaria tentando proteger Andrew. A declaração do rei buscou encerrar esse assunto e separar a família real de qualquer desdobramento relacionado a Andrew.

A prisão, sob suspeita de má conduta em cargo público, refere-se ao período em que Andrew atuou como representante comercial do Reino Unido entre 2001 e 2011. Ela acontece após uma série de alegações, motivadas pela divulgação dos arquivos de Epstein, de que Andrew teria compartilhado documentos oficiais.

Entre eles estariam relatórios de visitas comerciais e uma informação confidencial sobre investimentos no Afeganistão enviados ao criminoso sexual Jeffrey Epstein, além de um documento do Tesouro britânico repassado para um contato pessoal.

Andrew Mountbatten-Windsor sempre negou qualquer irregularidade em suas relações com Epstein.

Mas a história dos vínculos de Andrew com Epstein vem sendo construída há décadas — assim como sua queda, que foi corroendo sua reputação aos poucos até se transformar em uma avalanche de desprestígio.

A associação com Epstein fez com que Andrew perdesse seu cargo de enviado comercial em 2011 e, após aquela desastrosa entrevista ao programa Newsnight, da BBC, em 2019, ele foi afastado de suas funções como membro ativo da família real.

E, em outubro do ano passado, quando e-mails revelaram que Andrew não havia cortado seus laços com Epstein como alegava, ele foi destituído de seus títulos de príncipe e duque e acabou sendo transferido de sua residência no Royal Lodge, em Windsor.

Reportagem adicional: Sean Coughlan

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