CONFLITO NO ORIENTE MÉDIO

Preparativos para funeral de Khamenei no Irã e novos ataques de Israel: o que aconteceu até agora no 5º dia de conflito

Israel voltou a atacar Teerã e Beirute; no Reino Unido, Keir Starmer foi alvo de críticas de Donald Trump; e a economia global começa a sentir os efeitos do conflito.

A guerra de Israel e EUA contra o Irã está se espalhando pelo Oriente Médio após o assassinato do Líder Supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, por ataques israelenses e americanos contra a liderança e as forças armadas do país, iniciados no sábado (28/2).

Nesta quarta-feira (4/3), o conflito entrou no seu quinto dia, com desdobramentos em diversos países da região.

Confira abaixo o que aconteceu na região até agora.

Quais são os acontecimentos mais recentes?

Uma grande explosão foi relatada no leste de Teerã nesta quarta-feira (4/3), de acordo com a mídia estatal iraniana e um repórter da agência de notícias AFP na cidade. As Forças de Defesa de Israel (IDF) anunciaram que sua força aérea iniciou "ataques em larga escala" contra alvos do regime na capital do Irã.

No Líbano, as IDF emitiram um alerta urgente para que civis em partes do sul de Beirute evacuem a área, devido aos ataques contínuos a edifícios que, segundo elas, são ligados ao Hezbollah.

A mídia estatal iraniana informou que uma cerimônia fúnebre para o Líder Supremo, Aiatolá Ali Khamenei, será realizada nesta quarta-feira em Teerã.

Khamenei foi morto quando os ataques israelenses e americanos começaram no sábado. A cerimônia está prevista para começar às 15h30 no horário de Brasília e durará três dias antes do cortejo fúnebre, segundo a mídia estatal.

O jornal The New York Times reportou, citando autoridades iranianas, que o filho de Khamenei, Mojtaba Khamenei, surge como o principal candidato a se tornar o novo líder supremo – com a decisão podendo ser tomada já nesta quarta.

O Ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, anunciou que qualquer sucessor que continue "o plano de destruir Israel, ameaçar os Estados Unidos" e "oprimir o povo iraniano" será "um alvo inequívoco para eliminação".

Segundo grupo Human Rights Activists, mais de mil civis foram mortos no Irã.

Prédio da assembleia de aiatolás é atingido

Telegram/VahidONline

Na terça-feira, dois vídeos gravados na cidade de Qom, que fica 156 km a sudoeste de Teerã, mostram as consequências de um ataque ao prédio da secretaria da Assembleia de Peritos, órgão composto por 88 clérigos de alto escalão do Irã, que deverá escolher um novo Líder Supremo, após a morte de Khamenei.

As imagens, cuja gravação foi confirmada pela BBC Verify (serviço de checagem da BBC), mostram o prédio da secretaria quase completamente destruído. Um prédio próximo também sofreu grandes danos no ataque.

A agência de notícias semioficial iraniana Mehr informou que o prédio era antigo e não estava sendo usado para as sessões da assembleia.

A emissora estatal iraniana IRIB afirmou que "esses prédios haviam sido evacuados previamente" e que não houve relatos de vítimas.

Getty Images
Ataque de Israel provocou destruição em Beirute, no Líbano, nesta terça-feira

Os EUA afirmam ter atingido mais de 2 mil alvos no Irã desde o início de suas operações militares no país, no sábado, segundo uma atualização do Comando Central dos EUA (Centcom).

Os alvos atingidos incluem instalações de mísseis, navios da Marinha, submarinos e centros de controle, afirma o comunicado.

O Centcom acrescenta que os EUA utilizaram aeronaves – incluindo vários caças – além de sistemas de mísseis e navios para realizar os ataques.

Mortes no Irã se aproximam de 800, diz organização

O Crescente Vermelho do Irã afirmou na terça que cerca de 787 pessoas foram mortas no Irã desde que os EUA e Israel lançaram ataques contra o país no sábado.

O Ministério da Defesa dos Emirados Árabes afirma que suas defesas aéreas destruíram 172 mísseis e 755 drones desde que o Irã lançou seus ataques na região.

O presidente dos EUA, Donald Trump, publicou nesta terça-feira nas suas redes sociais:

"A defesa aérea, a Força Aérea, a Marinha e a liderança deles desapareceram", aparentemente referindo-se a autoridades iranianas

"Eles querem conversar. Eu disse: 'Tarde demais!'"

Escolta de petroleiros no Estreito de Ormuz

Mais tarde, em outra publicação, Trump afirmou que a Marinha dos Estados Unidos começará a escoltar petroleiros pelo Estreito de Ormuz, "se necessário".

A guerra entre os EUA e Israel com o Irã praticamente paralisou o tráfego marítimo que passa pela passagem, entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã.

Na segunda-feira, o Irã anunciou o fechamento do estreito e ameaçou incendiar navios que passasem por lá.

O Estreito de Ormuz é uma das rotas mais importantes do mundo para o fornecimento global de petróleo e gás, com quase 20 milhões de barris de petróleo passando por ela diariamente.

Críticas ao Reino Unido

No Reino Unido, uma entrevista de Trump ao jornal The Sun expôs divisões na relação entre os EUA e seu aliado britânico.

Trump criticou o premiê britânico, Keir Starmer, por não estar sendo "nada prestativo".

"Nunca pensei que veria isso vindo do Reino Unido", disse Trump ao jornal. "É muito triste ver que o relacionamento obviamente não é mais o que era."

Na segunda-feira, Starmer disse que o Reino Unido "não acredita em mudança de regime por meio de ataques aéreos".

Inicialmente, o Reino Unido não permitiu que os EUA usassem bases britânicas para atacar o Irã, mas depois abriu suas bases para ataques "defensivos" contra alvos iranianos.

O secretário do gabinete de Starmer, Darren Jones, disse nesta terça-feira à BBC que a relação EUA-Reino Unido "continua importante".

"Entendo que o presidente [Trump] não ficou satisfeito com o fato de não termos participado da primeira onda de ataques", disse ele.

No entanto, Jones afirma que o Reino Unido "só enviará forças armadas britânicas quando houver uma base legal para tal, um plano de ação claro e quando for do interesse do nosso país".

Ameaças de Trump à Espanha

Durante coletiva de imprensa nesta terça, Trump voltou a fazer críticas ao Reino Unido e acusou o país, junto com a Espanha, de serem "muito pouco cooperativos" desde que os EUA lançaram ataques contra o Irã.

A respeito da Espanha, o presidente americano disse que está particularmente insatisfeito e que "vai cortar todas as relações comerciais".

"A Espanha tem se comportado de forma terrível", disse Trump, em referência à recusa do governo de Pedro Sánchez em permitir que os Estados Unidos usem suas bases militares para atacar o Irã.

Madri afirmou que os ataques são uma "intervenção militar injustificada e perigosa" e que Trump deveria respeitar os "acordos bilaterais entre a União Europeia e os Estados Unidos".

Trump diz que 'tudo foi destruído' no Irã

Nesta terça-feira, o chanceler alemão, Friedrich Merz, está em Washington, em visita à Casa Branca. Trump falou à imprensa após o encontro.

O presidente dos EUA disse que o Irã agora não possui mais marinha, força aérea ou sistema de detecção aérea. "Praticamente tudo foi destruído", afirmou.

Ao justificar os ataques de EUA e Israel, o americano voltou a dizer que havia expectativa de que o Irã atacasse primeiro.

"Estávamos negociando com esses lunáticos, e na minha opinião eles atacariam primeiro", disse Trump. "Eu não queria que isso acontecesse."

Trump foi questionado sobre qual seria o pior cenário possível para o futuro do Irã, e respondeu que seria "alguém que seja tão ruim quanto o anterior" assumir o poder no país.

O republicano acrescentou que os EUA tinham algumas pessoas em mente para liderar o Irã após a morte de Khamenei, mas que elas também morreram.

"Em breve, não conheceremos mais ninguém", acrescentou.

Trump foi questionado se considera Reza Pahlavi, o filho exilado do último xá do Irã, uma opção viável para governar o país no futuro.

Em resposta, disse que, embora "algumas pessoas gostem dele", acredita que o melhor cenário seria que "alguém que já esteja por lá" assuma a liderança.

Por que os EUA e Israel atacaram o Irã?

Trump afirmou que o objetivo da operação é "garantir que o Irã não obtenha uma arma nuclear".

"Vamos destruir seus mísseis e arrasar sua indústria de mísseis. Ela será totalmente destruída novamente", disse Trump em um vídeo de oito minutos publicado no Truth Social na manhã de sábado (28/2).

O presidente americano também alertou as forças armadas iranianas para que deponham suas armas em troca de "imunidade completa" ou "enfrentem morte certa".

Em seguida, ele incitou o povo iraniano a se preparar para derrubar o regime: "Quando terminarmos, tomem o poder. Será de vocês. Esta será provavelmente a única chance de vocês por gerações."

A enorme operação militar — que os EUA apelidaram de Operação Fúria Épica — ocorre após semanas de ameaças de Trump de que ordenaria uma ação militar se o Irã não concordasse com um novo acordo sobre seu programa nuclear.

O Irã afirmou repetidamente que suas atividades nucleares são inteiramente pacíficas.

O Comando Central das Forças Armadas dos EUA disse que tinha como objetivo "desmantelar o aparato de segurança do regime iraniano, priorizando locais que representassem uma ameaça iminente". O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que Israel e os EUA lançaram a "operação para eliminar a ameaça existencial representada pelo regime terrorista no Irã".

BBC

Qual foi a resposta do Irã?

O Irã lançou mísseis balísticos e drones contra Israel, diversos países do Oriente Médio com ligações com os EUA, uma base militar britânica no Chipre e navios na costa iraniana.

A Guarda Revolucionária Islâmica afirmou ter atacado instalações governamentais e militares israelenses em Tel Aviv e em outros locais, enquanto nove pessoas morreram quando uma área residencial em Beit Shemesh foi atingida.

O Ministério da Defesa do Reino Unido confirmou que um drone atingiu a base britânica de Akrotiri, no Chipre. Ninguém ficou ferido ou morto no ataque, mas o Ministério da Defesa informou que algumas pessoas estavam sendo retiradas da base da Força Aérea Real (RAF, na sigla em inglês).

Catar, Bahrein, Jordânia, Emirados Árabes Unidos e Kuwait – todos com bases militares americanas – foram alvos de ataques, assim como Omã e Arábia Saudita.

Mais ataques foram ouvidos em todo o Golfo na segunda-feira, incluindo nas cidades de Dubai, Doha e Manama. Os militares iranianos disseram ter usado 15 mísseis de cruzeiro em ataques contra uma base aérea americana no Kuwait e embarcações no Oceano Índico.

Alvos civis, incluindo hotéis em Dubai, foram atingidos, assim como instalações militares.

BBC

Os Estados Unidos e seus aliados árabes emitiram uma declaração conjunta condenando os ataques do Irã contra os países do Golfo, afirmando que "atacar civis e países que não estão envolvidos em hostilidades é um comportamento imprudente e desestabilizador".

Na segunda-feira, três jatos americanos foram abatidos sobre o Kuwait, em um incidente que, segundo os militares dos EUA, parece ter sido fogo amigo. Os pilotos sobreviveram.

Durante o fim de semana, os militares dos EUA confirmaram a morte de três soldados e o ferimento de outros cinco. A CBS News, parceira da BBC nos EUA, informou que as mortes ocorreram durante operações lançadas do Kuwait.

Os militares dos EUA confirmaram uma quarta morte na segunda-feira, sem fornecer mais detalhes.

Uma nova frente no conflito se abriu na segunda-feira, quando o Hezbollah atacou Israel, levando as Forças de Defesa de Israel (IDF) a atacar alvos na capital Beirute e no sul do Líbano.

O grupo armado é aliado ao governo iraniano e afirmou que buscava vingar o assassinato de Khamenei.

Autoridades libanesas afirmam que dezenas de pessoas foram mortas ou feridas nos ataques até o momento, enquanto Israel pediu que os moradores de 50 aldeias evacuassem o país em antecipação a novas operações que podem durar "vários dias".

Como deve ser escolhido o sucessor de Khamenei?

BBC

A escolha formal de um novo Líder Supremo não ocorre por votação direta, mas sim por um órgão composto por 88 clérigos de alto escalão, conhecido como Assembleia de Peritos.

Eles são eleitos por votação direta a cada oito anos.

De acordo com a Constituição iraniana, esses clérigos devem escolher o novo Líder Supremo o mais rápido possível, mas isso pode se mostrar difícil por razões de segurança enquanto o país estiver sob ataque.

BBC

É seguro viajar para a região?

Milhares de voos foram cancelados na região, em uma das interrupções mais profundas nas viagens internacionais desde a pandemia de covid-19.

A Wizz Air suspendeu os voos até 7 de março em Israel, Dubai e Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, Amã, na Jordânia, e na Arábia Saudita até terça-feira.

A British Airways cancelou os voos para Tel Aviv e Bahrein até quarta-feira.

Em um comunicado, a Swiss International Air Lines afirmou: "A Swiss e as companhias aéreas do Grupo Lufthansa suspenderão os voos para Tel Aviv, Beirute [no Líbano], Amã, Erbil [no Iraque] e Teerã até 7 de março."

A autoridade de aviação do Kuwait informou que suspendeu todos os voos para o Irã até novo aviso, segundo a mídia estatal.

A Emirates suspendeu temporariamente suas operações que tinham Dubai como origem e destino. Lufthansa, Air India, Virgin Atlantic e Turkish Airlines também anunciaram cancelamentos.

Alguns países da região, incluindo Iraque e Jordânia, também fecharam seu espaço aéreo. Os Emirados Árabes Unidos disseram que fecharam "parcial e temporariamente" seu espaço aéreo como medida de precaução, informou a mídia estatal.

O Itamaraty publicou um comunicado em que não recomenda a viagem para o Irã, Israel, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Jordânia, Iraque, Líbano, Palestina e Síria.

* Com informações da BBC News e da BBC News Persa.

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