Uma importante exposição do Museu da Revolução da capital de Cuba, Havana, é dedicada às condições vividas no país antes da revolução tomar o poder, em 1959.
No interior do antigo e ornamentado palácio presidencial, fotografias e testemunhos orais detalham a pobreza extrema e a arraigada corrupção da ditadura do então homem forte do exército cubano, Fulgencio Batista (1901-1973).
A imagem mais impressionante é a de uma mulher em uma cabana de folhas de palmeira no chão de terra, cozinhando com lenha.
Imagens similares estão presentes nos museus estatais de toda a ilha, desde a Baía dos Porcos até Birán, o local de nascimento do pai da Revolução Cubana, Fidel Castro (1926-2016).
A conclusão é clara. Os revolucionários salvaram os cubanos da ignorância e da penúria da vida sob um líder de facto, apoiado por Washington, e os levaram para a dignidade, a educação e a verdadeira independência.
Mas, nos dias atuais, Lisandra Botey se identifica mais com a mulher empobrecida da fotografia do que com os revolucionários que libertaram seu país de Batista.
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"Agora, vivemos assim, exatamente assim", afirma Botey, dona de casa, em frente à sua casa em Havana, construída com madeira e pedaços de chapas metálicas.
"Toda manhã, precisamos ir à praia [em Havana] para buscar lenha", ela conta. "Depois, trazemos para casa para fazer o café da manhã porque, quando temos eletricidade, é durante o horário escolar."
A filha de Botey tem nove anos de idade. Ela saiu para a escola esta manhã sem nada no estômago, explica a mãe, com lágrimas nos olhos.
Seu marido, Brenei Hernández, é operário da construção civil quase sem trabalho. Ele conta que, muitas vezes, eles não sabem de onde virá a próxima refeição.
"Todos os dias é a mesma fome, a mesma miséria", lamenta ele, enquanto mexe uma panela de arroz branco. Pelo menos sua filha chegará da escola e encontrará algo quente para comer.
Com a economia cubana em queda livre desde a pandemia de covid-19, a precária casa de Hernández, em um subúrbio de Havana, não recebe gás há meses.
Ele e seus vizinhos já cozinhavam com lenha e carvão antes das tropas americanas derrubarem à força o aliado mais próximo de Cuba, o presidente venezuelano Nicolás Maduro, no dia 3 de janeiro deste ano.
Desde então, Washington parece ter tomado total controle da indústria petrolífera da Venezuela e foi suspenso o fornecimento de petróleo para a ilha comunista.
O embargo econômico americano a Cuba, vigente há décadas, se intensificou como nunca havia se visto antes.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou impor tarifas de importação a qualquer país que envie petróleo para a ilha.
Nenhum dos aliados tradicionais de Cuba — México, Rússia, China, Vietnã e Irã — se apresentou para preencher o vácuo deixado pela Venezuela.
Mas o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou, no final de fevereiro, que iria reduzir as restrições a um número limitado de vendas de petróleo, para "apoiar o povo cubano, com fins comerciais e humanitários".
Esta medida surge em meio a uma tensão cada vez maior entre Washington e Havana.
O governo de Cuba informou que seus guardas de fronteira mataram a tiros quatro pessoas que viajavam em uma lancha rápida americana no final de fevereiro.
As autoridades cubanas afirmaram que se tratava de cidadãos cubanos moradores nos Estados Unidos. E, segundo uma autoridade americana, os guardas mataram pelo menos um cidadão dos EUA e feriram outro, durante a interceptação.
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, declarou que seu país estava investigando o incidente, considerado "altamente incomum".
"As velhas estratégias de Washington em relação a Cuba já não se aplicam e quem ainda não compreendeu isso levará uma surpresa", segundo o economista cubano Ricardo Torres. "Trump está mudando as regras do jogo."
O presidente americano declarou que "Cuba está pronta para cair", intensificando as pressões sobre a ilha no seu momento mais vulnerável desde a Guerra Fria (1947-1991).
Comentaristas destacaram que um dos objetivos da destituição de Maduro por Washington era aprofundar a crise econômica cubana.
Aparentemente, o governo Trump espera debilitar a revolução (possivelmente, de forma terminal) e propiciar o colapso do socialismo estatal na ilha.
O cálculo por trás deste raciocínio é simples: o agravamento da crise interna poderia criar as condições para que a Revolução Cubana desmoronasse por dentro.
O que ainda é muito mais incerto é se essa estratégia irá forçar uma mudança de regime ou se o governo cubano, de tendência comunista, encontrará novas formas de sobreviver, como fez em crises anteriores.
Apagões e 'racionamento extremo'
Os efeitos da crise do combustível podem ser sentidos em toda a ilha.
Os apagões em Havana podem durar 15 horas por dia ou mais. Os hospitais estão às escuras e só atendem casos de emergência. As escolas costumam ficar fechadas.
O lixo se amontoa nas esquinas porque os caminhões não têm combustível para fazer a coleta. Cidadãos esquálidos e anciãos são frequentemente encontrados remexendo os resíduos.
Cuba tem orgulho da rede de segurança social construída para o seu povo desde 1959. Ela inclui assistência médica universal, erradicação do analfabetismo, redução da mortalidade infantil e aumento da prevenção de doenças.
Por isso, o panorama atual é desolador e está se agravando.
A prisão de Nicolás Maduro trouxe uma questão insistente: quanto tempo Cuba poderá aguentar sem a chegada de novos fornecimentos de combustível?
"Os estoques de petróleo talvez possam durar de seis a oito semanas", calcula Ricardo Torres. Mas ele admite que é difícil saber com precisão.
"Cuba não publica números sobre os estoques de combustíveis", alerta ele.
Torres acredita que seria possível implementar um "racionamento extremo", mas as restrições existentes já são draconianas. As pessoas têm um limite de 20 litros de combustível nos postos de gasolina, que devem ser pagos em dólares americanos.
Eles são obrigados a usar um aplicativo governamental chamado Ticket, mas a espera pode durar dias ou até semanas.
Os motoristas entram em uma fila virtual com mais de 10 mil pessoas à sua frente para conseguir meio tanque de gasolina. E, nestas circunstâncias, o preço do combustível no mercado informal disparou, como era de se esperar.
Apesar de tudo, Brenei Hernández não dirige sua ira contra Washington. Pelo contrário: ele culpa o Estado cubano.
"Gostaria que Trump assumisse o controle deste lugar. Assim, veremos se as coisas melhoram", afirma ele, com total honestidade.
"O que vou dizer a vocês? Não vou mentir."
Mudança de regime
Depois de passar anos ouvindo os cubanos repetirem slogans revolucionários banais quando perguntava sua opinião em frente às câmeras, é comovedor ouvir opiniões tão sinceras, expressas sem temor aparente sobre as repercussões.
O nível de desgosto e esgotamento entre os moradores é tão grande que o medo de represálias está começando a desaparecer.
"É demais", afirma Hernández. "Só comemos arroz branco."
"Tomara que eu consiga juntar dinheiro suficiente nos próximos dias para um pacote de salsichas, ou para três ou quatro ovos."
A preocupação de Lisandra Botey é que sua filha peça um bolo de aniversário este ano, o que está muito acima das suas possibilidades.
Este sofrimento talvez faça parte da estratégia do governo Trump para exercer "máxima pressão" sobre Cuba.
A metodologia pode ser nova, segundo Ricardo Torres, mas o objetivo de Washington em Cuba permanece o mesmo de sempre: a mudança de regime.
"Seja algo repentino ou uma solução negociada, no final, o que Trump quer é a mudança de regime em Cuba."
A questão para os cubanos é como Washington pretende conseguir essa mudança, destaca Torres. Eles observam mais sofrimentos à frente com o embargo petrolífero.
O governo de Cuba descreve repetidamente esta política como desumana, cruel e ilegal, à luz do direito internacional.
"Que direito tem uma potência mundial de negar o combustível e a capacidade de funcionamento a uma nação menor?", questionou o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel.
Tudo isso está muito distante do otimismo de uma década atrás, sobre a política de Washington em relação a Cuba.
Em 2014, após muitos anos de inimizade, o então presidente americano Barack Obama (2009-2017) optou por restabelecer relações diplomáticas com a ilha em um degelo histórico, mas de curta duração.
Os setores mais linha-dura do governo cubano alertaram que as propostas de Obama equivaliam ao mesmo objetivo de mudança de regime, apresentado de forma mais gentil.
Mas os cubanos comuns que vivenciaram aquele período sentem que o restabelecimento diplomático de Obama parece totalmente oposto ao enfoque atual de Donald Trump.
No mês de março, a visita de Obama a Havana completa 10 anos. Ele se tornou o primeiro presidente americano em exercício a pisar na ilha em quase um século.
Frente ao então presidente cubano, Raúl Castro (2008-2018), Obama fez um discurso extraordinário, que foi transmitido ao vivo pela TV estatal da ilha.
Ele afirmou ter visitado Cuba para "enterrar o último vestígio da Guerra Fria nas Américas" e "estender a mão da amizade ao povo cubano".
O homem que supervisionou o degelo diplomático foi o então embaixador dos Estados Unidos em Cuba, Jeffrey DeLaurentis. Perguntei a ele se, agora, a Revolução Cubana enfrenta uma ameaça existencial.
"Isso dependerá do que outros países poderão fazer", respondeu o ex-embaixador.
O apoio da Venezuela representava cerca de 35 mil barris diários de petróleo para Cuba.
Houve sinalizações gerais de que a Rússia poderia enviar petróleo para a ilha. O ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, esteve recentemente em Moscou para conversar com seu homólogo russo e com o presidente Vladimir Putin.
Mas, até agora, nenhum petroleiro russo atracou em portos cubanos.
Rodríguez também viajou para a China, Vietnã e Espanha, em busca de apoio para a ilha.
"A corrida para defender e ajudar Cuba certamente não foi tão entusiástica nem significativa como vimos no passado", destaca DeLaurentis. "Mas ainda existe a possibilidade de que outros países possam tomar alguma medida."
Em relação ao que Trump deseja especificamente de Cuba, o ex-chefe da diplomacia americana na ilha afirmou que o governo está "tentando tomar medidas coercitivas para levar o governo para a mesa de negociações ou fazê-lo capitular, sem necessariamente provocar o seu colapso."
"Esta me parece uma estratégia bastante arriscada, com muito potencial de gerar consequências indesejadas", destaca ele.
Estas consequências já são visíveis na crise humanitária que se agrava rapidamente e levou o México a enviar toneladas de ajuda de emergência a Cuba, entre produtos como leite em pó e artigos de higiene pessoal.
A crise é sentida diariamente pelas famílias que são obrigadas a cozinhar com lenha e pelos motoristas que precisam de gasolina com urgência.
Esteban Bello Rodríguez dirige vários almendrones, os automóveis clássicos americanos dos anos 1950, usados para transportar turistas pelos locais emblemáticos de Havana.
Seus negócios foram gravemente afetados pela escassez de combustível e pela queda do turismo.
"Aqui, existe um problema — o problema do combustível. Por isso, sem dúvida, os que estão em cima, dos dois lados, precisam se sentar e resolver", declarou ele, com franqueza.
"Só o que sei é que é preciso encontrar uma solução, pois isso está afetando todo o país, as pessoas de toda a nação. Todos nós."
O poder real
Do lado americano, a política em relação a Cuba está sendo liderada, em grande parte, pelo secretário de Estado Marco Rubio, que é cubano-americano, filho de exilados e ex-senador pela Flórida.
Trump afirma que Rubio está conversando com os mais altos níveis do governo cubano. E surgiram, nas últimas semanas, amplas especulações sobre quem poderia chefiar esta negociação por parte de Cuba.
O economista cubano Ricardo Torres defende que o único negociador com peso real na ilha é o ex-presidente e líder revolucionário Raúl Castro, mesmo com sua idade avançada (94 anos).
Para Torres, "os únicos com capacidade para estabelecer negociações significativas são as pessoas próximas a Raúl".
"O governo civil não tem nenhum poder real, incluindo o presidente Miguel Díaz-Canel. O verdadeiro poder em Cuba é Raúl e o círculo fechado que o rodeia."
No final de fevereiro, o portal Axios noticiou que seu neto, Raúl Rodríguez Castro (conhecido em Cuba como El Cangrejo, "O Caranguejo"), seria o ponto de contato do governo Trump dentro do círculo íntimo de Raúl Castro.
Ele é considerado um dos homens de maior confiança do seu avô, já que foi seu guarda-costas pessoal. Seu perfil é mais voltado aos negócios do que ideológico, embora não tenha experiência diplomática de alto nível.
Nenhuma das partes, especialmente a cubana, confirmou que Raúl Rodríguez Castro esteja em contato com Marco Rubio.
"No caso da Venezuela, o governo Trump foi muito pragmático", destaca Torres.
Aparentemente, Rubio está disposto a tratar com um governo interino em Caracas, chefiado pela presidente em exercício Delcy Rodríguez. E Washington parece estar tentando convencer o lobby conservador cubano-americano na Flórida sobre as vantagens de conversar com um regime igualmente separado do poder formal em Havana.
Mas, apesar da adesão pública à estratégia de "máxima pressão", os Estados Unidos parecem recear que uma mudança política total, da noite para o dia, seja na Venezuela ou em Cuba, possa causar desestabilização profunda e uma crise migratória e humanitária.
Diversos observadores destacaram que o tom de Rubio em relação à ilha foi sensivelmente mais suave nos seus recentes comentários durante a Conferência de Segurança de Munique, na Alemanha. Ele se concentrou nas reformas econômicas, não em uma transformação política profunda.
"De certa forma, soou quase como uma estranha variação de Obama 2.0, em termos de reformas econômicas e tudo o mais", opinou DeLaurentis.
"Para mim, isso indica que eles estão buscando uma figura similar a Delcy Rodríguez para negociar."
"Dez ou 20 anos atrás, a diáspora do sul da Flórida teria se oposto totalmente a este tipo de enfoque. Mas suponho que, agora, eles dariam ao presidente e ao secretário o benefício da dúvida, permitindo o desenvolvimento deste tipo de cenário."
Paralelamente, qualquer visitante que deseje ver a fotografia da mulher pré-revolucionária cozinhando com lenha precisará esperar. O museu está fechado para reforma há mais de um ano e, agora, não tem combustível para prosseguir com as obras.
Neste que já é o momento mais complexo da história moderna da ilha, ainda não está claro se só o Museu da Revolução será objeto de reformas este ano, ou se a própria Revolução Cubana como um todo.
