Em 9 de abril de 2003, uma estátua do líder do Iraque, Saddam Hussein, foi derrubada no centro de Bagdá. A placa de metal na base da estátua foi arrancada e o pedestal de mármore foi atacado com uma marreta. Civis iraquianos inicialmente tentaram derrubá-la, escalando a estátua para colocar uma corda em seu pescoço, mas não conseguiram desmontá-la. Foi necessária a ajuda de tropas americanas usando um veículo blindado para finalmente derrubá-la.
Foi um momento que simbolizou a mudança de regime. As forças americanas e aliadas haviam lançado seu ataque ao Iraque apenas 20 dias antes, começando com uma intensa campanha de bombardeio e uma tentativa de derrubar o governo usando mísseis de cruzeiro que tinham como alvo o líder iraquiano.
Três semanas após a remoção da estátua, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, estava a bordo de um porta-aviões americano, ancorado na costa da Califórnia, atrás de uma faixa com os dizeres "Missão Cumprida". Só que a realidade era bem diferente.
A sombra da guerra do Iraque paira sobre o atual conflito com o Irã. Foi uma guerra que deixou profundas cicatrizes no Iraque, desencadeando uma série de eventos que saíram do controle de uma forma que ninguém previu. Deixou um rastro de morte e destruição: estima-se que 461 mil pessoas morreram no Iraque por causas relacionadas à guerra entre 2003 e 2011 e que o conflito custou aos EUA US$ 3 trilhões (R$ 15,7 trilhões).
A guerra remodelou o Oriente Médio e também teve um profundo efeito na confiança do público nos políticos dos países que iniciaram a guerra.
Hoje, os EUA embarcaram no que muitos consideram mais uma "guerra de escolha" na região, desta vez contra o Irã, vizinho do Iraque. Os ecos e paralelos entre os dois conflitos certamente existem, mas também há diferenças profundas que nos dizem muito sobre como o mundo mudou desde então e se uma repetição dos fracassos do Iraque pode ser evitada.
O motivo
Havia muitos motivos sobrepostos para Washington invadir o Iraque, alguns não reconhecidos publicamente na época. Mas, no cerne da questão, estava o desejo de mudança de regime.
Para alguns próximos ao presidente dos EUA, George W. Bush, havia um sentimento de assuntos inacabados da Guerra do Golfo de 1991, quando Saddam Hussein havia sido expulso do Kuwait, mas permanecido no poder.
Para o presidente Bush, isso pode ter sido ainda mais pessoal, já que seu pai, o presidente George H.W. Bush, havia liderado aquela campanha e Hussein havia planejado matá-lo depois.
Enquanto isso, alguns acreditavam que a mudança de regime era justificada por razões de direitos humanos. Eles queriam a derrubada de Hussein por causa da maneira como ele havia infligido terrível violência ao seu próprio povo — chegando a usar armas químicas contra civis curdos na década de 1980.
Tudo isso se encaixava na era do intervencionismo liberal que o Reino Unido apoiou desde a década de 1990 sob o governo do primeiro-ministro Tony Blair, intervindo nos Bálcãs para evitar derramamento de sangue no Kosovo. Os exilados iraquianos também queriam a chance de um novo futuro para seu país, sem o regime que odiavam.
Havia também aqueles "neoconservadores" que queriam remodelar o Oriente Médio, trazendo a democracia e removendo ditaduras hostis aos EUA. Primeiro Bagdá, depois Teerã, diziam alguns, um lembrete de quanto tempo o Irã está na agenda.
E, finalmente, após os ataques de 11 de setembro de 2001, que mataram 2.977 pessoas (sem contar os 19 sequestradores) depois que aviões foram lançados contra as Torres Gêmeas, o Pentágono e um campo na Pensilvânia, havia falcões em Washington que queriam restaurar o poder de dissuasão dos Estados Unidos e mostrar o que o país era capaz de fazer.
Os ataques da Al-Qaeda em 11 de setembro alteraram os cálculos em relação ao nível de destruição que poderia ser infligido aos Estados Unidos e seus aliados, e o Iraque logo passou a ocupar o topo da agenda, mesmo sem ter tido qualquer participação nos ataques. O sucesso na expulsão do Talebã do controle do Afeganistão no final de 2001, em resposta aos ataques ocorridos alguns meses antes, também aumentou a confiança de Washington em suas capacidades.
Mas, no fim das contas, a justificativa para a guerra girava em torno de outra coisa: as supostas capacidades do Iraque em produzir armas de destruição em massa, com planos para armas nucleares, químicas e biológicas, bem como capacidades de mísseis. Quando se tratava do público britânico e americano, enfatizar a ameaça representada por essas armas era a maneira mais fácil de obter apoio público para a ação militar. Internacionalmente, o descumprimento, por parte do Iraque, das resoluções da ONU sobre suas armas também fornecia um meio de buscar legitimidade.
As armas nunca foram o verdadeiro motivo, como Luis Rueda, chefe do Grupo de Operações do Iraque da CIA na época, me disse mais tarde. "Teríamos invadido o Iraque mesmo que Saddam Hussein tivesse um elástico e um clipe de papel. Teríamos dito: 'Ah, ele vai arrancar seu olho. Vamos eliminá-lo.'"
Por que o Irã foi atacado?
Os ataques atuais ao Irã também parecem surgir de uma complexa mistura de motivações — degradar suas forças armadas, impedir a aquisição de armas de destruição em massa, promover a mudança de regime para criar um Estado mais dócil e apoiar o povo contra um regime que lhes infligiu violência, foram todas justificativas citadas por membros do governo Trump.
De muitas maneiras, foram os ataques do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023 que iniciaram um processo de mudança de cálculos em Washington sobre o que poderia ser feito ao Irã, à medida que o cálculo de risco de Israel mudava e o país começava a mirar o Irã e seus aliados. Isso abriu caminho para que Washington também agisse.
Mas, desta vez, nos EUA, não houve nenhuma tentativa de resolver publicamente os desejos, por vezes contraditórios, de agir. Na verdade, o próprio presidente dos EUA, Donald Trump, pareceu oscilar entre eles, dependendo do dia em que estava falando e com quem estava falando.
Também não houve nenhuma tentativa de vender a guerra ao público americano — um processo que se desenrolou ao longo de meses com o Iraque. E também não houve nenhuma tentativa de buscar legitimidade internacional por meio da ONU. Em 2003, houve discussões intermináveis ??sobre quais Estados poderiam apoiar a ação.
Desta vez, a ONU e o direito internacional pareceram irrelevantes para os tomadores de decisão. Tudo isso revela um mundo diferente, um mundo em que a antiga ordem internacional está praticamente em colapso e em que um presidente volúvel não sente a necessidade de conciliar as diferentes motivações em jogo e apresentar uma justificativa coerente.
O papel do Reino Unido e outros aliados
Em 2003, os EUA entraram ns guerra ao lado de seus aliados, principalmente o Reino Unido. O primeiro-ministro Tony Blair esteve ao lado do presidente Bush durante o período que antecedeu a guerra, tendo inclusive lhe escrito uma famosa carta particular no verão de 2002, dizendo que estaria com o líder americano "aconteça o que acontecer". Sua crença — expressa novamente nos últimos dias em relação ao Irã — era de que o Reino Unido precisava maximizar sua influência sobre a política americana, mantendo-se próximo a ela.
"Quando eu era primeiro-ministro, não havia dúvida, nem sob o governo do presidente Clinton nem sob o do presidente Bush, sobre quem o presidente americano ligava primeiro. Era o primeiro-ministro britânico", me disse ele em uma entrevista para marcar o 20º aniversário da invasão.
Mas até mesmo alguns dos mais próximos a ele estavam receosos com o nível de comprometimento demonstrado por Blair. A carta "aconteça o que acontecer" "não foi uma boa ideia", afirmou mais tarde seu então secretário de Relações Exteriores, Jack Straw.
E os críticos questionaram quanta influência Blair conseguiu obter em troca naquela época. Ele persuadiu Washington a buscar a aprovação da ONU. Mas essa iniciativa foi hesitante por parte de Washington e acabou não tendo sucesso.
Quando lhe ofereceram a oportunidade de se retirar, Blair recusou, dizendo que acreditava na guerra. "É aqui que você precisa tomar essas decisões como primeiro-ministro na época", me disse ele em 2003. "Eles estavam me oferecendo a saída porque sentiam pena da situação politicamente difícil em que eu me encontrava."
E, de fato, o preço político para ele seria alto, especialmente quando as armas de destruição em massa sobre as quais ele havia argumentado se revelaram inexistentes. Isso o prejudicou e, de forma mais ampla, reduziu a disposição das pessoas em acreditar no que lhes era dito. "Isso minou a confiança na vida pública", refletiu o ex-secretário de Relações Exteriores, Jack Straw. "Não tenho dúvidas disso."
Lidar com o Iraque também consumiria os últimos anos da presidência de George W. Bush e mancharia seu legado, remodelando a política americana. O presidente Barack Obama assumiu o cargo com o claro desejo de não se envolver novamente em tais intervenções. E, surpreendentemente, Trump também.
Desta vez, os EUA trabalharam com Israel, e não com o Reino Unido ou outros aliados, para atacar o Irã. O primeiro-ministro Keir Starmer decidiu manter distância de Washington, recusando o uso de bases britânicas durante o ataque inicial, embora depois tenha mudado de ideia e permitido seu uso para fins "defensivos".
A mudança pode ser atribuída às memórias persistentes do Iraque para um Partido Trabalhista fragilizado, mas também reflete o cálculo sobre quanta influência Starmer realmente poderia ter sobre Trump.
Uma questão mais profunda é o quanto o Reino Unido e os EUA estão começando a se distanciar. Autoridades que trabalham na relação de segurança e inteligência afirmam que ela permanece estreita, mas também há uma sensação de que essa proximidade pode ser parcialmente baseada na inércia, à medida que os EUA adotam cada vez mais uma postura de segurança diferente, minando ativamente a antiga ordem internacional na qual o Reino Unido investiu fortemente.
Primeiros-ministros anteriores às vezes mantiveram distância das guerras de Washington — por exemplo, Harold Wilson em relação ao Vietnã — mas desta vez a situação parece diferente.
E agora?
O legado do Iraque é mais evidente na forma como os líderes em Washington têm se esforçado para enfatizar as diferenças entre o que aconteceu no passado e o conflito atual. O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, foi explícito ao afirmar que o Irã é diferente do Iraque e não se transformará em uma "guerra sem fim".
Um aspecto disso é que, desta vez, os EUA estão falando em mudança de regime, mas até agora não mobilizaram tropas terrestres para concretizá-la, como fizeram em 2003, quando cerca de 150 mil soldados foram enviados, o que levou a uma derrubada rápida e eficaz de Saddam Hussein (que escapou do ataque inicial, mas foi capturado posteriormente).
O desejo explícito de evitar o tipo de comprometimento de tropas visto no Iraque limita as opções — a mudança de regime apenas por via aérea é muito mais difícil sem se aliar a algum tipo de força insurgente em terra.
Tem havido conversas sobre armar os curdos para lutar contra o governo iraniano hoje. Eles desempenharam seu papel em 2003, mas apenas ao lado do exército muito maior de tropas dos EUA e seus aliados.
Após a vitória inicial em 2003, veio uma longa e arrastada ocupação, enquanto uma insurgência e uma guerra civil se instalavam. Os EUA não querem se envolver nessa situação novamente, mas o problema é que alguns de seus objetivos mais abrangentes podem ser difíceis de alcançar sem um comprometimento mais profundo — principalmente se realmente desejam uma mudança de regime, em vez de apenas enfraquecer as forças armadas do Irã ou ter uma mudança de líder dentro do mesmo regime (como aconteceu na Venezuela).
Um grande paralelo entre aquela época e agora, no entanto, parece ser a falta de planejamento para o que pode vir a seguir. Isso, por sua vez, se relaciona à confusão sobre qual é o objetivo real. No caso do Iraque em 2003, diferentes visões para o futuro nunca foram resolvidas. Não houve um planejamento eficaz para o período posterior ao término dos conflitos militares.
"O erro foi tentar criar um novo governo para os iraquianos", me disse John Bolton, ex-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, duas décadas depois. "Deveríamos ter dito aos iraquianos: 'Parabéns, formem seu próprio governo. Aqui está uma cópia dos Artigos Federalistas. Boa sorte'."
Isso estava em desacordo com aqueles que apoiavam a ideia de espalhar a democracia pelo Oriente Médio e queriam construí-la primeiro no Iraque.
O Iraque está agora em uma situação muito melhor do que estava imediatamente após a guerra, e muitos estão felizes em ver Saddam Hussein fora do poder. Mas a democracia não se espalhou pelo Oriente Médio no período posterior à guerra, como alguns afirmavam que aconteceria.
Em vez disso, um dos maiores vencedores da invasão seria o Irã, cujo principal adversário foi removido, permitindo que estendesse sua influência para o Iraque e além nos anos após a guerra. E isso aumentaria a ameaça terrorista na Europa e no Ocidente em geral. As guerras nem sempre têm os resultados que as pessoas esperam ou desejam.
Nenhum plano coerente
O Iraque e o Irã são países muito diferentes, mas será que existem lições a serem aprendidas com as experiências das invasões a cada um deles?
Até agora, há poucos indícios de um plano coerente sobre o que os EUA querem alcançar ou que tipo de futuro vislumbram para o Irã. Desta vez, a improvisação parece ser uma estratégia deliberada, pois deixa o presidente Trump com diferentes opções para o que ele pode declarar como vitória antes de seguir em frente, criando seu próprio momento de "Missão Cumprida".
Ele poderia simplesmente dizer que degradar a capacidade naval e de mísseis do Irã foi suficiente e que a mudança de regime sempre foi algo para o povo iraniano (embora ele tenha falado em desejá-la em alguns momentos).
Isso deixaria um regime iraniano fragilizado, porém amargurado, no poder, um resultado mais próximo da Guerra do Golfo de 1991, quando Saddam Hussein foi expulso do Kuwait, mas permaneceu no controle de Bagdá. O resultado foram anos de tensão, bombardeios ocasionais, temores de desenvolvimento de armas de destruição em massa e, eventualmente, outra guerra em 2003.
Uma lição do Iraque é que é mais fácil destruir um Estado em guerra do que construí-lo depois. E partes do Estado iraniano estão, sem dúvida, sendo desmanteladas. A guerra atual também está forçando os aliados dos Estados Unidos — como o Reino Unido, mas particularmente os países do Golfo, que têm sido alvo de ataques iranianos — a reconsiderarem o quão seguros realmente estão.
E as repercussões políticas internas para aqueles que embarcam em guerras, especialmente Trump, também podem ser imprevisíveis, à medida que as consequências econômicas se espalham de maneiras que ele não parecia esperar.
Uma possível conclusão é que a humildade pode ser útil ao embarcar em intervenções militares. As guerras são inerentemente imprevisíveis e seus resultados e legados podem repercutir por décadas.
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