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'O Agente Secreto' no Oscar racha o Brasil nas redes sociais e recebe elogios e críticas em igual medida, mostra Buzzmonitor

Representante brasileiro na premiação do ano passado, 'Ainda Estou Aqui' seguiu caminho oposto e foi mais celebrado do que criticado

Quase metade das pessoas que publicaram ou interagiram com posts nas redes sociais a respeito do filme O Agente Secreto, que saiu derrotado do Oscar neste domingo (15/3), fizeram comentários negativos.

É o que diz uma pesquisa do Buzzmonitor, multinacional especializada na coleta e na avaliação de dados online, realizada a pedido da BBC News Brasil a partir de 98.492 menções ao longa-metragem feitas no domingo e nesta segunda-feira (16/3) até o meio-dia.

Segundo o Buzzmonitor, 45,7% das menções ao filme de Kleber Mendonça Filho foram negativas, 45,27% positivas e 9,08% neutras.

O ator Wagner Moura, protagonista do filme, teve uma rejeição menor: das 129.527 menções a seu nome nas plataformas digitais no mesmo período, 52,29% foram positivas, 36% negativas e 11,71% neutras.

A coleta leva em consideração publicações e interações feitas por contas públicas no Facebook, no X, no YouTube e na plataforma Reddit.

Kevin Winter/Getty Images for Critics Choice Association
Os principais motivos que levaram à rejeição do filme de Kleber Mendonça Filho e de Wagner Moura são de cunho político e estético

Diretor de análises do Buzzmonitor, Breno Soutto explica que a pesquisa não é feita apenas com base em palavras-chave associadas à positividade, negatividade ou neutralidade, mas por meio de um programa de inteligência artificial capaz de identificar aspectos contextuais como a ironia.

Isso é o que permite, aliás, uma análise não apenas quantitativa, mas também qualitativa da percepção do público.

O Buzzmonitor é usado no monitoramento de imagem de uma ampla gama de empresas, desde as do ramo do entretenimento, como a plataforma de streaming Globoplay, até lojas de varejo, a exemplo da Casas Bahia, e operadoras de telefonia, como a Claro.

Aspectos políticos e estéticos puxam a rejeição

Soutto afirma que os principais motivos que levaram à rejeição do longa-metragem e de seu ator protagonista são de cunho político e estético.

A história, que se passa em 1977, acompanha um professor universitário — papel de Moura — enquanto é perseguido por agentes ligados à ditadura militar no Recife.

Parte das críticas dizia respeito à abordagem política da obra, inclusive sobre como ela poderia impactar a imagem internacional do cinema brasileiro.

Mas houve também comentários de que o roteiro é confuso e desconexo. A não linearidade da narrativa é reconhecida pela crítica especializada, mas os críticos a veem como algo positivo, na verdade.

Esses usuários ainda consideraram o desfecho da história incompreensível, e disseram que havia cenas excessivamente longas e desnecessárias.

As premiações, por outro lado, apreciaram a obra. Embora ela tenha perdido as quatro estatuetas que disputava no Oscar, foi premiada em festivais como o de Cannes, o mais importante do mundo no calendário cinematográfico. Moura saiu com o prêmio de Melhor Ator, e Mendonça Filho, com o de Melhor Diretor.

As críticas nas redes sociais sobre Moura, por sua vez, diziam que sua atuação não era digna de um Oscar, em comparação com outros indicados à categoria de Melhor Ator na premiação.

Houve quem ainda dissesse que o ator tenha falado mais de política do que sobre seu filme durante as entrevistas e a campanha pelo prêmio, e alguns viram hipocrisia no fato de ele morar nos Estados Unidos enquanto critica o presidente americano Donald Trump.

Os usuários também compararam seu papel em O Agente Secreto ao da duologia Tropa de Elite, o truculento capitão Nascimento, do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais), que consideraram mais bem executado.

Entre quem fez coro aos festivais e aos críticos de cinema e avaliou o ator de forma positiva, elementos como sua proatividade política e sua versatilidade para interpretar papéis diferentes foram justamente os que mais geraram elogios.

'Ainda Estou Aqui' teve menos rejeição e foi mais popular

O representante brasileiro no Oscar do ano passado, Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, teve menos rejeição no mesmo período — entre o domingo da cerimônia do Oscar e a segunda-feira seguinte até o meio-dia.

O filme teve 87,32% de aprovação nos comentários, 6,51% de neutralidade e 6,17% de rejeição. A análise sobre sua protagonista, a atriz Fernanda Torres, também seguiu a mesma média: 87,55% de menções positivas, 6,85% negativas e 5,6% neutras.

Arturo Holmes/WireImage
Na temporada de prêmios anterior, Ainda Estou Aqui, de Walter Salles e protagonizado por Fernanda Torres, teve menos rejeição

Temas parecidos, reações opostas

Chama a atenção que ambos os longa-metragens tratam do mesmo assunto — perseguições durante a ditadura. No caso de Ainda Estou Aqui, o espectador acompanha a trajetória do deputado federal Rubens Paiva, que foi sequestrado e morto pelo regime.

"A linguagem de O Agente Secreto é um pouco mais truncada, o filme é um pouco mais hermético, com referências mais fechadas no Nordeste, e isso gerou críticas. As pessoas criticam muito o ritmo e o desfecho", diz Soutto, da Buzzmonitor, ao tentar explicar por que duas histórias em tese semelhantes tiveram reações tão diferentes.

"As outras críticas são de um cenário político de ano de eleição, mais polarizado. Ainda Estou Aqui e Fernanda Torres geraram mais memes, piadas, e este ano foi diferente: as pessoas falaram mais sobre o conteúdo", diz Soutto.

O executivo diz que, no caso de O Agente Secreto, o público simpatizou com a atriz Tânia Maria, que começou a atuar depois dos 70 anos e viveu no longa-metragem uma personagem simpática, engraçada e sincera. Mas essa simpatia não foi suficiente para impedir a negatividade de se alastrar sobre o ranking.

'Ainda Estou Aqui' foi mais popular

A diferença na abordagem do mesmo tema também teria levado a aposta brasileira ao Oscar do ano passado a ser mais popular do que a deste ano, segundo Soutto.

Enquanto Ainda Estou Aqui teve 178 mil menções nas redes sociais, O Agente Secreto teve 98.492 — uma queda de 44,7%. A queda em relação aos atores foi um pouco menor: Fernanda Torres foi mencionada 210 mil vezes, e Wagner Moura, 129.527, uma baixa de 38,3%.

O executivo da Buzzmonitor afirma que Ainda Estou Aqui foi mais "apropriado por outros setores da sociedade", desde peças de marketing de outras empresas até memes.

O fato de a premiação no ano passado ter acontecido durante o Carnaval também pode ter influenciado os resultados, ele acrescenta.

"Ele foi ressignificado de mais formas, então o que você teria de crítica acaba se diluindo. Tinham memes, por exemplo, de gente publicando no dia 31 de dezembro que 'ainda estou aqui trabalhando', então a mensagem política do filme ficou mais diluída."

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