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A série que relembra tragédia com césio em Goiânia e a reação dos sobreviventes

Vítimas divergem sobre a representação do acidente em obra da Netflix, e governador de Goiás diz que vai reajustar em 70% as pensões pagas a elas.

Emergência Radioativa, com estreia na Netflix nesta quarta-feira (18/3), já causou uma divisão entre os sobreviventes do acidente com césio-137 em Goiânia no qual a série se inspira.

O caso aconteceu em 1987, um ano após o desastre de Chernobyl, quando catadores abriram um aparelho de radioterapia abandonado em busca do chumbo que o revestia e acabaram espalhando material radioativo entre moradores, provocando o maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear.

Mesmo tendo visto apenas os comerciais, que circularam via WhatsApp, alguns sobreviventes dizem que a história não aconteceu da forma que é retratada nas telas e se sentem incomodados. Outros, por outro lado, não veem problema.

É o que afirma Sueli de Moraes, vice-presidente da Associação de Vítimas do Césio-137.

A divisão envolve desde a forma como o pó radioativo é representado — mais ou menos brilhante, por exemplo — até o desconforto de ver atores encarnando figuras, que, para a comunidade, existiram — ou ainda existem — de verdade.

"Conheço todas as vítimas e fui vítima também. Tem pessoas que não estão gostando, de certo porque não viram ainda. Chateou muita gente do grupo, que disse que não tinha nada a ver, que era mentira", diz ela. "Eu acho que não tem nada a ver."

O acidente deixou quatro mortos na ocasião, mas outras mortes foram registradas nos anos seguintes por causas difíceis de associar com certeza à radiação, embora haja indícios que apontem para essa relação — os créditos da própria série na Netflix mencionam 16 vítimas fatais. Os sobreviventes seguem monitorados.

Cnen
Ferro-velho em Goiânia de onde o césio-137 se espalhou

São Paulo virou Goiânia

Parte do incômodo se deve ao fato de que as filmagens ocorreram em cidades da Grande São Paulo, como Santo André e Osasco, o que gerou críticas do Conselho Municipal de Cultura de Goiânia.

Moraes acrescenta que, ao mesmo tempo, o clima nesta semana é de comemoração, diante da expectativa de um reajuste de 70% na pensão vitalícia paga às vítimas pelo governo de Goiás.

A proposta foi anunciada pelo governador Ronaldo Caiado (PSD), por meio de um projeto de lei enviado à Assembleia Legislativa de Goiás na segunda-feira (16/3).

O texto prevê que os moradores mais afetados pela radiação — conforme exames realizados à época do acidente — passem a receber R$ 3.242, ante os atuais R$ 1.908. Os demais receberiam R$ 1.621, em vez dos R$ 954 pagos hoje.

Ao todo, 603 pessoas recebem o benefício, e os valores estão congelados desde 2018. Deputados chegaram a apresentar propostas de reajuste, mas elas enfrentaram entraves políticos — uma delas, inclusive, foi vetada por Caiado sob a justificativa de falta de estudos sobre o impacto orçamentário.

O ator Johnny Massaro, que interpreta um físico na produção, diz que a busca foi pelo "lado humano e dramático do caso", mas acrescenta que é difícil não pensar sobre os impactos que ela pode ter na realidade.

"As feridas estão abertas, porque as vítimas que ainda sofrem as consequências. É uma história que pertence a elas, mas, ao mesmo tempo, pertence ao imaginário de toda a sociedade", ele diz. "As pessoas vão no momento de lazer, mas tem essa beleza quando o entretenimento encontra uma função social e política."

Netflix/Divulgação
O ator Johnny Massaro no papel do físico Márcio em cena de Emergência Radioativa

O que é ficção e o que é realidade

Os produtores de Emergência Radioativa, os irmãos Caio e Fabiano Gullane, dizem que, para resgatar o caso, recorreram a consultores da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), além de físicos, médicos e jornalistas que acompanharam a tragédia.

"A gente não conseguiu — e nem era a intenção — retratar toda a tecnicidade, mas damos diversos exemplos para mostrar que não era uma coisa simples", diz Caio.

Ao serem questionados sobre o que é verdade e o que é ficção na série, os Gullane dizem que pouco precisou ser alterado. As mudanças vieram da necessidade de construir uma narrativa em que cada ação leva a uma reação, com os acontecimentos organizados em estrutura mais linear do que na vida real.

Eles citam como exemplo os cintilômetros cênicos, os equipamentos usados para identificar a radiação. Os produtores foram até o Cnen gravar o ruído emitido na presença de material radioativo — um som agonizante, dizem, mas que precisava ser fiel à realidade.

Já ao representar as dezenas de cientistas que ajudaram no enfrentamento da contaminação, preferiram tomar certa liberdade e mostrar um núcleo bem menor de personagens. O principal deles é o físico nuclear Márcio, interpretado por Massaro.

Márcio nasceu em Goiânia, mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar e, por acaso, estava de volta à cidade natal para comemorar o aniversário do pai quando o acidente ocorreu — uma trajetória diferente da do físico Waldyr Muniz de Souza, que identificou a radiação ao ser acionado formalmente pelas autoridades.

Cnen
O local onde os resíduos contaminados do acidente com césio em Goiânia estão enterrados, na cidade de Abadia de Goiás

Ao longo dos cinco episódios, é Márcio que traduz conceitos técnicos da física para os moradores da cidade — que acabam ocupando, de certa forma, o mesmo lugar do espectador. Para isso, diz Johnny Massaro, houve uma longa preparação.

"Quando fui fazer o teste, não sabia que a história era verdadeira. Tem pessoas que estudaram o caso na escola, mas tem quem nunca ouviu falar dele", diz o ator, acrescentando que pôde ver "os toneis amarelos, radioativos, e as coisas que estavam na cidade, como placas de rua e objetos das vítimas".

A maior parte das seis toneladas de materiais contaminados foi enterrada em um depósito em Abadia de Goiás, a 25 quilômetros de Goiânia, onde devem permanecer por 300 anos.

Algumas amostras, porém, foram preservadas para pesquisa no Ipen e no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, ligado à Universidade de São Paulo (USP).

Não é a primeira vez que Massaro leva às telas histórias reais. No ano passado, ele protagonizou Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente, da HBO Max, sobre a crise da Aids no Brasil nos anos 1980.

Na série, interpretou um comissário de bordo que ajudava a contrabandear antirretrovirais dos Estados Unidos quando os medicamentos ainda não haviam sido aprovados no Brasil.

"Tudo o que a gente pode ouvir e ver compõe o que a gente vai levar para as telas. É claro que algumas coisas ficam no plano do consciente, você não está gravando e pensando na placa da rua com radiação que viu no laboratório, mas isso compõe tudo o que a gente entrega", diz o ator.

Personagens reais

A personagem Celeste, uma menina de seis anos que morre após ingerir o césio, é diretamente inspirada em Leide das Neves, e não na condensação de várias vítimas, como Márcio.

O mesmo vale para os catadores que encontraram o material e para o dono do ferro-velho que o comprou e acabou espalhando o pó pela cidade.

É verdade ainda que, como na série, houve protestos acalorados de moradores que não queriam que a menina fosse enterrada em Goiânia por temerem que seu corpo contaminasse o solo. Também são reais as disputas entre autoridades locais que, por motivos políticos, resistiam à ideia de que o material fosse enterrado em Goiás.

Os atores, no entanto, não tiveram contato com a mãe de Leide, Lourdes das Neves Ferreira, nem com outras vítimas — a maioria dos sobreviventes ainda vivem na região central de Goiânia ou no interior do estado.

Segundo os produtores, isso não foi necessário porque a equipe contou com pesquisadores que se basearam em entrevistas, reportagens, documentários e processos judiciais.

"É sempre um desafio escolher o que fica dentro e o que fica fora do roteiro, mas a gente procurou ser fiel na reconstituição dos fatos, tendo uma garantia de que, essencialmente, o que os especialistas falaram e o que aconteceu fosse contado. É um respeito pela memória das pessoas", diz Fabiano.

Netflix/Divulgação
Celeste, a personagem de Emergência Radioativa inspirada em criança que morreu após ingerir césio-137 em Goiânia, Leide das Neves

Um alerta

Apesar de Emergência Radioativa reordenar acontecimentos para conferir dramaticidade à narrativa — processo conhecido como ficcionalização —, há elementos que guardam proximidade com a realidade.

Eles dizem respeito, principalmente, à forma como a sociedade reage a emergências de saúde pública como essa, tendo a pandemia de Covid-19 que surgiu em 2020 como exemplo.

Não é difícil traçar os paralelos: médicos confinaram os contaminados em um estádio de futebol e depois os transferiram para um hospital onde, a princípio, não podiam nem sequer usar o banheiro, para evitar a contaminação da rede de esgoto.

Ainda foi necessário evacuar quarteirões inteiros, sacrificar animais de estimação e demolir casas, o que despertou a fúria dos goianos. As autoridades pediam tempo para responder às dúvidas da imprensa e da população, mas poucos estavam dispostos a esperar, tirando conclusões precipitadas.

Nada disso soa distante a qualquer um que tenha vivido a pandemia. "A abordagem da série tem foco no resgate histórico e no aprendizado que ficou para o Brasil e para o mundo", diz Caio, acrescentando que as medidas adotadas em Goiânia hoje são referência para o mundo todo.

"Talvez o componente mais importante da série seja mostrar pessoas que, embora pensassem diferente, tiveram que encontrar juntos uma solução para o problema. Sem isso, a tragédia poderia ter matado muito mais. Essas pessoas se respeitaram e encontraram um ponto de vista comum", diz Fabiano.

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