Nos últimos dias, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou ter tido "boas" e "produtivas" conversas com o Irã, sugerindo que a porta para a diplomacia havia sido aberta.
Segundo ele, as tratativas poderiam levar a "uma resolução completa e total de nossas hostilidades no Oriente Médio".
Mas o Irã negou quase imediatamente que as negociações tivessem começado — e até agora, há apenas sinais de pequenas janelas para um diálogo sendo abertas.
Uma dessas janelas é a mesma que foi quebrada durante as rodadas anteriores de diplomacia, em fevereiro e junho do ano passado, pelos ataques israelenses apoiados pelos EUA contra o Irã, que destruíram a pouca confiança que existia entre os dois lados.
Há relatos de diálogo entre os dois principais negociadores em discussões anteriores — o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, e o enviado dos EUA, Steve Witkoff. Mas essas conversas são descritas como muito preliminares.
E Teerã agora vê o caminho de Witkoff como um mero subterfúgio de Washington.
"As declarações do presidente dos EUA fazem parte dos esforços para reduzir os preços da energia e ganhar tempo para a implementação de seus planos militares", foi a resposta do Ministério das Relações Exteriores do Irã.
É um sentimento compartilhado também por outros observadores, que veem Trump sob crescente pressão para baixar os preços do petróleo, impulsionar as ações e projetar progresso no fim desse perigoso confronto que causa choque econômico em todo o mundo, inclusive nos EUA.
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O presidente americano busca o tipo de oportunidade que se abriu na Venezuela, com uma versão iraniana da nova presidente interina Delcy Rodríguez – uma líder poderosa, porém pragmática, que ele pode tentar dobrar à sua vontade.
Nos primeiros dias desta guerra, ele descreveu a Venezuela como "o cenário perfeito" para o Irã.
Isso revelou uma incompreensão das diferenças fundamentais entre a Venezuela e o sistema multifacetado do Irã, aprimorado e consolidado ao longo de quase cinco décadas para garantir sua sobrevivência, marginalizando reformistas e reprimindo a dissidência.
Mas Trump agora diz que os EUA estão lidando com uma "pessoa importante" na República Islâmica.
O indivíduo não identificado que vem sendo amplamente citado, após as primeiras reportagens na mídia israelense, seria Mohammad-Bagher Ghalibaf.
Ele desempenhou papéis de liderança na máquina política do Irã, incluindo como chefe de polícia, comandante da força aérea da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), bem como presidente do Parlamento.
Ele fracassou quatro vezes em suas candidaturas presidenciais e descreveu os iranianos que foram às ruas em todo o país em fevereiro, pedindo mudanças, como "inimigos e terroristas".
Mas no mundo de Trump, Ghalibaf é um homem forte que possivelmente poderia unir as divisões entre os setores de segurança e político do Irã.
Fontes dizem que houve esforços indiretos para tentar abrir um diálogo com Ghalibaf, mas ainda não há nenhum sinal oficial ou público de que tenham obtido sucesso.
Para o Irã, esse caminho ainda é extremamente arriscado, já que Israel vem assassinando um alto funcionário após o outro, incluindo Ali Larijani, o chefe de segurança linha-dura que conhecia o sistema por dentro e por fora. Ele era visto como um possível intermediário caso negociações sérias fossem iniciadas.
Ghalibaf também está entrincheirado entre os elementos mais radicais, que agora dominam a tomada de decisões. Desde o assassinato de Larijani, ele passou a ser observado com interesse como alguém que poderia um dia fechar um acordo.
"Ele é o último homem de pé que é visto como mais flexível ideologicamente", disse uma fonte com conhecimento dos vários esforços de mediação.
Mas não está claro se houve algum progresso nesse sentido.
"Nenhum dos lados se reuniria nesse nível até que os EUA e o Irã estejam perto de um avanço político, e muitas negociações são necessárias antes mesmo de chegarem a esse estágio", diz Ellie Geranmayeh, pesquisadora do Conselho Europeu de Relações Exteriores.
Até agora, Ghalibaf se tornou um "agressor-chefe", atacando as declarações de Trump nas redes sociais.
"Nosso povo exige a punição completa e humilhante dos agressores", disparou Ghalibaf em uma postagem no X na segunda-feira (23/3). "Nenhuma negociação com os EUA ocorreu."
Com os dois lados distantes e em guerra, e com autoridades importantes como Ghalibaf focadas em sua própria sobrevivência, bem como na do sistema, uma reunião seria um passo ousado.
Por enquanto, a maior parte da diplomacia se resume a conversas telefônicas. Propostas, com vários pontos, estão sendo debatidas por mediadores que correm para encontrar uma saída para esse atoleiro cada vez mais profundo.
Novos países estão se envolvendo nessa crise secular, incluindo Paquistão, Egito e Turquia, que não estiveram na linha de frente da guerra. Seus líderes cultivaram laços pessoais estreitos com Trump e participaram ativamente de um fórum ampliado de nações árabes-islâmicas.
Nesta quarta-feira (25/3), oficiais paquistaneses afirmaram à agência de notícias Associated Press que o Irã recebeu um plano de 15 pontos dos EUA para um cessar-fogo.
Segundo os oficiais, a proposta abrange, de forma geral, pontos como alívio das sanções, cooperação nuclear civil, reversão do programa nuclear iraniano, monitoramento pela Agência Internacional de Energia Atômica, limites para mísseis e acesso para navegação pelo Estreito de Ormuz
Mas o ministro da Economia de Israel, Nir Barkat, declarou à BBC que é improvável que o Irã concorde com o plano de 15 pontos, descrevendo-o como "bonito no papel", mas que precisava de garantias para ser implementado.
O regime iraniano "não vai mudar", afirmou Barkat, dizendo os principais objetivos de Israel para a guerra eram deixar o Irã "sem armas nucleares, sem mísseis e sem aliados".
Omã, o mediador tradicional mais confiável para Teerã, também afirma estar envolvido nos esforços para reduzir a tensão e reabrir o vital Estreito de Ormuz.
Mas a maioria dos líderes árabes do Golfo, furiosos com o que descreveram como ataques "imprudentes" do Irã à infraestrutura de seus países, está mais focada em reavaliar esse relacionamento. "Levará décadas para reparar essa ruptura", me disse um funcionário de alto escalão de um dos países do Golfo.
O Paquistão, cujos líderes militares e políticos se aproximaram de Trump, ofereceu uma maneira de recuar da perigosa situação após a ameaça de atacar a infraestrutura energética do Irã, oferecendo-se para sediar conversas de alto nível já neste fim de semana.
Um detalhe interessante foi a recente declaração do novo Líder Supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, na qual ele destacou o Paquistão como um país amado por seu pai, o antigo líder assassinado nas primeiras horas desta guerra.
Mas ainda não há confirmação de nenhum tipo de reunião.
"Não há conversas neste momento", disse Ali Vaez, da organização não-governamental International Crisis Group, referindo-se às mensagens trocadas entre Washington e Teerã como esforços "para impulsionar as negociações de cessar-fogo".
"Mas duvido que estejam perto de criar um terreno comum suficiente para uma reunião séria ou negociações substanciais", alertou ele.
E, à medida que esta guerra se arrasta, o Irã deixa claro que quer cobrar um preço alto. O país publicou uma lista de exigências impossíveis de serem aceitas por Washington, que vão desde o fechamento das bases americanas na região até reparações e garantias firmes contra qualquer agressão futura.
As exigências também se tornaram mais rígidas do outro lado. Os Estados árabes do Golfo agora insistem que os mísseis balísticos do Irã precisam entrar na discussão, assim como o controle sobre o Estreito de Ormuz, que foi transformado em arma pelo Irã nesta guerra.
E há ainda o profundo abismo de entendimento e confiança que leva muitos a serem céticos.
"Trump provavelmente acredita que esta guerra lhe deu maior poder de barganha para fazer o Irã aceitar suas condições, e o Irã sente que não apenas fortaleceu sua posição, mas também possui mais cartas na manga para negociar no Estreito de Ormuz", diz Mohammad Ali Shabani, editor do site Amwaj.media, focado em notícias sobre Irã, Iraque e os países da Península Arábica.
Em sua postagem anunciando as negociações, Trump disse que estava adiando sua ameaça de atacar as usinas de energia do Irã por cinco dias - o que significa que todos os olhos estão voltados para seu novo prazo - sexta-feira (27/03), quando os mercados fecham.
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