O almirante de Esquadra Alexandre Rabello de Faria é, como boa parte dos membros da Marinha, um especialista em navegação.
Desde 2024, no entanto, ele vem tendo que navegar as conturbadas águas da burocracia brasileira e da conjuntura internacional para conduzir a maior ambição militar da história brasileira: a construção do primeiro submarino nuclear do Brasil.
Rabello, como é conhecido entre os colegas, é o chefe da Diretoria-Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha (DGDNTM) desde 2024. Ele tenta colocar de pé, ou no mar, um projeto que vai completar 47 anos em 2026 e que já consumiu, junto com a construção de outros quatro submarinos convencionais, aproximadamente R$ 40 bilhões desde 2008.
No front doméstico, a principal batalha é por orçamento. Em março deste ano, veio à tona um pedido feito de R$ 1 bilhão feito pela Marinha para evitar a paralisação do programa.
Atrasos e redução de repasses fizeram, segundo Rabello disse à BBC News Brasil, com que o projeto tivesse sua data de conclusão alterada diversas vezes, saindo de 2024 para 2037.
"Não vejo risco de (o projeto) ser paralisado, mas, se o nível de investimento for mantido, o ritmo do projeto aponta para mais tempo de execução. É contra isso que temos batalhado", afirma o almirante em entrevista exclusiva à BBC News Brasil.
Atualmente, o projeto do submarino nuclear brasileiro ainda não chegou perto do mar.
Neste momento, técnicos civis e militares se concentram na montagem do Laboratório de Geração Nucleoelétrica (Lagene), na cidade de Iperó, no interior de São Paulo.
É lá que, segundo os planos da Marinha, será montado em terra um protótipo do reator e do sistema de propulsão. Neste protótipo, os técnicos vão fazer testes para verificar a eficiência do reator e se ele consegue operar em condições de segurança.
Há alguns anos, o Brasil detém quase toda a tecnologia necessária para o projeto. O país detém jazidas de urânio, a tecnologia de enriquecimento e de transformação do minério em combustível nuclear e vem desenvolvendo um projeto nacional de reator.
Tudo isso, no entanto, ainda não foi materializado no submarino.
Após a fase de testes em terra, a próxima etapa é construir um novo reator e um novo sistema de propulsão e acoplá-lo ao casco na Base Naval de Itaguaí, no Rio de Janeiro, para mais testes antes de ser finalmente entregue.
O submarino nuclear brasileiro é semelhante aos convencionais, mas sua propulsão é gerada por um reator nuclear acoplado aos seus motores.
Ele seria estratégicamente importante, segundo os militares, para proteger os mais de 8 mil quilômetros de costa do Brasil. O submarino nuclear tem capacidade de se deslocar com velocidade muito maior do que os submarinos convencionais.
O projeto brasileiro prevê que ele seja armado apenas com torpedos convencionais e não com mísseis nucleares, já que o Brasil é signatário do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP).
No front internacional, a batalha é para avançar as negociações do Brasil com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
A agência supervisiona o cumprimento do TNP e realiza inspeções de programas nucleares dos países signatários do tratado, como o Brasil.
Para que o projeto brasileiro não seja considerado fora das regras da agência, o Brasil precisa chegar a um consenso com a AIEA sobre como ela fará as inspeções necessárias para se certificar de que o submarino nuclear brasileiro ou as suas instalações não seja usadas para a proliferação de armas ou tecnologia que resulte na produção de armas nucleares.
Em entrevista concedida à Folha de S. Paulo em 2024, o diretor-geral da agência, Rafael Grossi, defendeu que o Brasil se submeta a um regime rígido de fiscalização. Do lado brasileiro, o temor é que essas fiscalizações possam revelar detalhes sensíveis do projeto brasileiro.
Uma saída defendida por integrantes da AIEA seria o Brasil aderir a um protocolo adicional de inspeção. O almirante Rabello, no entanto, diz ser contra.
"Eu acho que aquilo que compromete a defesa do Brasil não pode ser negociado ou aceito pelo país", diz.
Ainda não há prazo para que as negociações com a AIEA sejam concluídas.
Rabello avalia ainda que as mudanças na conjuntura internacional marcadas por conflitos como a guerra na Ucrânia e no Irã fazem com que aumente a relevância do submarino nuclear para o Brasil.
"O mar é a nossa fronteira mais vulnerável. Dispor de um elemento que traga alguma forma de dissuasão, como é o caso do submarino nuclear, traz ao projeto uma relevância maior num mundo cada vez mais instável", diz.
Na entrevista, Rabello também analisa a mudança na política norte-americana em relação à América Latina.
Em dezembro de 2025, os EUA lançaram sua nova política de segurança nacional. O documento aponta que o país fará esforços para retomar sua influência sobre o hemisfério ocidental, onde está a América Latina.
Ao mesmo tempo, o país deslocou parte da sua frota militar para a costa da Venezuela e, em janeiro, realizou uma ação militar no país e deteve o ex-presidente Nicolás Maduro.
Rabello diz considerar os Estados Unidos um "parceiro", mas diz reconhecer que a mudança na postura do país o preocupa.
"Do ponto de vista da Marinha, os Estados Unidos sempre foram nossos parceiros. Mas, evidentemente, isso traz preocupações políticas. Há uma tentativa de nova divisão do mundo em partes obrigando os países a aderir a uma parte ou a outra".
Nesse contexto de tensão internacional, o Brasil não poderia desistir do projeto.
"Se a gente entender a defesa do Brasil como algo importante para a segurança de todos nós, o Brasil não pode abrir mão dessa tecnologia e desse ativo militar".
Confira abaixo os principais trechos da entrevista.
BBC News Brasil - A construção de um submarino nuclear tem sido um dos projetos mais antigos e caros da história militar brasileira. Por que o Brasil insiste nessa meta?
Almirante Rabello - Em todos os momentos em que o Brasil foi ameaçado, essa ameaça veio do mar e por isso que eu entendo que é no mar que o Brasil precisa ser forte. Nós temos uma dimensão marítima e uma projeção oceânica que demandam uma resposta de defesa à altura desse desafio. Essa insistência no submarino nuclear se deve à necessidade de proteger o Brasil.
Digamos que a gente esteja sediado no Sul ou no Sudeste do Brasil e detectamos uma ameaça que vem do mar no Norte ou no Nordeste do país. Um submarino diesel-elétrico talvez levasse uns 15 dias para chegar nessa região. Um submarino nuclear levaria três ou quatro. A mobilidade e a capacidade de se deslocar com discrição são o diferencial desse tipo de equipamento.
BBC News Brasil – E quão longe o Brasil está de ter o seu primeiro submarino nuclear?
Rabello - Essa história começa a ter efetividade em 2008, quando nós assinamos contratos de um acordo estratégico com a França. Na época, foram previstas três entregas principais.
A primeira é a infraestrutura para construir submarinos. Isso já está entregue com nosso estaleiro em Itaguaí. A segunda eram quatro submarinos convencionais. Três já foram entregues e um quarto está em processo de teste. A terceira entrega é o submarino nuclear juntamente com sua infraestrutura de construção e manutenção.
Para isso, precisamos primeiro testar nosso reator e sua propulsão em um protótipo e testá-lo exaustivamente antes embarcá-lo no casco do submarino. Nossa meta é colocar o reator para funcionar nos próximos cinco anos e iniciar a construção do casco em 2027. A previsão é lançar o submarino em 2037.
BBC News Brasil – O senhor fala em 2037, mas a previsão inicial desse projeto era que ele fosse concluído em 2024. Depois, passou para 2033 e agora fala-se em 2037. O que causou todo esse atraso?
Rabello – No começo do projeto, a demanda por orçamento foi atendida, mas desde então o Brasil oscilou na disponibilidade de recursos e toda falta de orçamento resulta em atraso nas entregas. Vamos ter que administrar nossas necessidades de acordo com as possibilidades de orçamento do governo, mas acho que estamos num rumo seguro.
BBC News Brasil - No início deste ano, a Marinha fez um pedido de R$ 1 bilhão em orçamento para evitar interrupções no projeto. O programa corre risco de ser paralisado?
Rabello - Não vejo risco de ser paralisado, mas, se o nível de investimento for mantido, o ritmo do projeto aponta para mais anos ou mais tempo de execução. É contra isso que temos batalhado. Se tivermos um aporte orçamentário mais regular, a gente consegue respeitar a execução do programa.
BBC News Brasil – Mas, mantendo o ritmo de investimento, há risco de que ele não fique pronto em 2037?
Rabello – Essa é uma possibilidade. Na medida em que você precisa de X e recebe X menos alguma coisa, você terá que ajustar. Não havendo o aporte orçamentário que a gente necessita, eu acho que é inevitável estender a execução do projeto.
BBC News Brasil - Num livro de memórias, o ex-presidente francês Nicholas Sarkozy escreveu que assinou o contrato para a construção dos submarinos com o Brasil mesmo diante da contrariedade dos Estados Unidos. Os Estados Unidos fizeram ou fazem algo para prejudicar este projeto.
Rabello - Eu sinceramente não sei exatamente o que eles fazem ou o que eles poderiam fazer. A autonomia estratégica é fundamental para qualquer país, sobretudo num país importante como o Brasil. A gente tem que insistir nessa questão da autonomia, mas, em matéria de Defesa, nós somos parceiros dos Estados Unidos de longa data. Nossas marinhas operam em exercícios comuns. Nosso programa é um uso pacífico da energia nuclear.
BBC News Brasil – Há estudos recentes que apontam como grandes potências tentaram, de alguma forma, prejudicar o programa nuclear brasileiro. O senhor vê a ação de potências contra esse projeto?
Rabello - Essa tecnologia precisa ser bastante protegida. Respeitando tudo com o que o Brasil já se comprometeu em termos de proliferação nuclear, isso exige da Marinha uma proteção de conhecimento muito grande. Esse conhecimento é buscado, talvez, nem tanto por Estados, mas por atores não estatais.
BBC News Brasil - O senhor acabou não respondendo…
Rabello - Eu não vejo uma atuação incisiva ou de oposição, mas entendo que o Brasil desenvolve uma tecnologia sensível e que precisa ser acompanhada internacionalmente. O Brasil é um dos únicos países que disponibilizou suas instalações militares para inspeções da AIEA. O nosso compromisso é justamente preservar o conhecimento sensível para evitar a proliferação de conhecimento sensível para usos indevidos da tecnologia nuclear.
BBC News Brasil – Vocês já detectaram ameaças de atores estatais ou não estatais para ter acesso aos segredos desse projeto?
Rabello – Nós detectamos, sim, tentativas de intrusão em sistemas digitais, mas não estavam relacionadas a Estados. Essas ameaças cibernéticas ocorrem, mas não as relacionamos a Estados.
BBC News Brasil – Então já foram detectadas tentativas de invasão cibernética do programa?
Rabello – Sim. Já identificamos. Nem todas são tão intrusivas assim. A maioria delas são tentativas de intrusão semelhantes às que acontecem no sistema financeiro ou em outros setores da sociedade.
BBC News Brasil - Quando foi a última vez em que isso aconteceu? A quem vocês conseguiram atribuir essas ações? Houve comprometimento das informações?
Rabello – Nunca tivemos comprometimento das informações sensíveis do programa. Nós também não vamos atrás para rastrear (quem tentou invadir os sistemas). Nós simplesmente verificamos a qualidade das nossas portas e nunca tivemos comprometimento de informações sensíveis.
BBC News Brasil – Em 2022, foi noticiado que o Brasil pediu auxílio da Rússia para a certificação do combustível nuclear. Os russos ajudam o projeto brasileiro?
Rabello – A certificação de combustível nuclear e qualquer outro empreendimento nuclear é uma etapa em que se faz a certificação de segurança. Se a gente faz, por exemplo, uma peça ou um combustível ou sistema, temos que testar e provar que ele opera em condições seguras, mesmo em condições de algum mau funcionamento inesperado. É isso que temos feito. Nenhum país nos ajuda nessa questão.
BBC News Brasil - Mas os russos forneceram alguma tecnologia, algum produto para esse projeto, só para entender?
Rabello - Não, os russos não forneceram tecnologia nem material para a Marinha.
BBC News Brasil - O diretor-geral da AIEA, o argentino Rafael Grossi, disse que o Brasil teria que negociar ou aceitar inspeções mais rígidas no seu programa nuclear para que o projeto do submarino nuclear tivesse o aval da agência. Como está essa negociação agora?
Rabello – Quando nós aderimos ao Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, ficou acertado que as questões envolvendo a propulsão nuclear demandariam um procedimento complementar em função das sensibilidades das informações relativas ao reator para propulsão de submarino.
As negociações estão indo bem. Elas envolvem inspeções da AIEA nas nossas instalações de pesquisa e industriais e também no Complexo Naval de Itaguaí. Como nós estamos ainda em fase de projeto, nem todos esses procedimentos estão estabelecidos, mas eu posso dizer que os inspetores da agência têm acesso e já tiveram acesso instalações que temos em Iperó (no interior de São Paulo).
BBC News Brasil - Uma das coisas que se comenta sobre as exigências da AIEA é a possibilidade de os inspetores terem acesso ao submarino propriamente dito, seja antes ou depois de uma missão e a necessidade de o Brasil aderir a protocolos adicionais de inspeções. Essas duas exigências são justas?
Rabello - Eu acho que isso é uma questão da política externa brasileira, mas eu, pessoalmente, acho que não é o caso de o Brasil assinar (protocolos adicionais). Em relação às inspeções, diferentemente de uma instalação em terra, em que você conhece a potência nuclear envolvida, a potência nuclear envolvida num submarino é um dado sensível que precisa ser protegido. É com essas questões que estamos tratando com a agência.
Nosso compromisso de salvaguardas (inspeções) com a agência atômica é com relação à proliferação. Essas questões que envolvem conhecimento de dados técnicos da embarcação, que não estão relacionados com a questão da não-proliferação de armas ou tecnologia nuclear, são assuntos que tratamos com a agência e buscamos consenso.
A análise de casos envolvendo embarcações militares movidas a propulsão nuclear é muito e novo e o debate tende se a prolongar.
BBC News Brasil - Mas o Brasil, na sua avaliação, deveria ceder a uma eventual demanda dessa natureza ou não?
Rabello - Eu acho que não é o caso de ceder, mas, como temos um compromisso para a não-proliferação nuclear, é mandatório que a gente chegue a um consenso. No caso do submarino, é uma questão de negociar até onde a gente pode mostrar, e até onde a gente consegue provar que o Brasil é estritamente observador do compromisso que assumiu de não-proliferação.
BBC News Brasil – O que é inegociável para o Brasil nessas conversas?
Rabello - Eu acho que aquilo que compromete a defesa do Brasil não pode ser negociado ou aceito pelo país.
BBC News Brasil – Atualmente, temos uma guerra no Irã, além da guerra na Ucrânia. O que esses conflitos mostram sobre o projeto do submarino nuclear? Esse cenário torna o submarino mais ou menos necessário?
Rabello – O cenário instável do ponto de vista geopolítico e de posturas diferentes daquelas que nós víamos relativamente há pouco tempo atrás nos preocupa.
O Brasil é um país rico em recursos e esses recursos interessam ao mundo. Desde a água que possuímos em abundância até as terras raras de que dispomos em grande quantidade e nossa capacidade de defesa está bastante restrita.
O mar é a nossa fronteira mais vulnerável, então, dispor de um elemento que traga alguma forma de dissuasão, como é o caso do submarino nuclear, traz ao projeto uma relevância maior num mundo cada vez mais instável, em que os países pensam em se proteger individualmente ou em conjunto. Nossa capacidade de defesa no mar precisa ser aumentada.
BBC News Brasil – O Brasil tem mais de 8 mil quilômetros de costa. Quantos submarinos nucleares seriam suficientes para proteger essa extensão? O senhor defende que o Brasil tenha mais de um submarino nuclear?
Rabello – O número que eu defendo é três. Do ponto de vista estratégico, esse número permitiria que nós sempre tivéssemos pelo menos um submarino nuclear em operação (enquanto outros poderiam estar em manutenção ou atracados).
BBC News Brasil – Esse número já foi repassado ao presidente Lula? Ele já sinalizou algo sobre esse número?
Rabello – Esse número ainda não está consolidado nos documentos estratégicos da Marinha. O que temos, agora, é o projeto do nosso primeiro submarino nuclear. Mas a tecnologia que nós conquistamos e a que estamos para conquistar não pode ser interrompida. Entendo que ela precisa ser continuada e a continuação se dará com a construção de mais submarinos e com a manutenção deles.
Internamente, nós nos preocupamos em consolidar não só a tecnologia, mas todo o aparato industrial e toda a cadeia de suprimentos desenvolvida para a construção e para a obtenção deste submarino.
BBC News Brasil – No final do ano, os Estados Unidos lançaram a sua nova política de segurança nacional e o documento aponta que o país quer reforçar sua influência no hemisfério ocidental, que engloba a América Latina. O quanto isso ameaça países como o Brasil?
Rabello - Do ponto de vista da Marinha, os Estados Unidos sempre foram nossos parceiros. Mas, evidentemente, isso traz preocupações políticas. Há uma tentativa de nova divisão do mundo em partes obrigando os países a aderir a uma parte ou a outra. Isto é um assunto que diz respeito à política externa.
Até onde eu acompanho nossa política externa, e eu apoio, essa é uma posição difícil para o Brasil administrar porque o Brasil é um país grande e precisa e vários parceiros no mundo.
BBC News Brasil – Essa nova postura reforça a necessidade do Brasil se reequipar militarmente?
Rabello - Eu não diria que o Brasil precisaria se reequipar em decorrência dessa nova postura dos Estados Unidos. Eu vejo os Estados Unidos como um parceiro secular do Brasil.
O que me preocupa são os grandes investimentos em defesa que a gente observa mundialmente. Historicamente, esses grandes investimentos em defesa resultam em algum movimento belicoso que não é bom para o mundo. E o Brasil precisa assegurar uma capacidade pelo menos mínima de proteção.
Não faz sentido pensarmos em orçamentos absurdamente vultosos para defesa do Brasil considerando outras necessidades do país, mas precisamos, sim, ter uma capacidade mínima de dissuasão.
BBC News Brasil – Há algumas semanas, o presidente Lula disse que o Brasil estaria vulnerável a ações militares estrangeiras. O senhor concorda? Quão vulnerável o Brasil está?
Rabello - Do ponto de vista marítimo, nós não dispomos de um sistema consolidado de vigilância marítima. Nossa fronteira marítima é muito permeável. É possível chegar muito próximo à costa do Brasil sem que a gente tenha conhecimento. Entendo que nossa vulnerabilidade exista e ela envolve um esforço de reequipamento da força.
BBC News Brasil – Em janeiro, os Estados Unidos ingressaram na Venezuela e detiveram o então presidente Nicolás Maduro. Há relatos de que o presidente Lula ficou bastante preocupado com essa vulnerabilidade na Venezuela. O Brasil teria condições de evitar uma ação militar como essa?
Rabello – Em se tratando do poderio militar dos Estados Unidos, acho que ninguém conseguiria se contrapor satisfatoriamente a isso. A força naval que eles mobilizaram para essa ação foi impressionante.
Do ponto de vista marítimo e naval, o Brasil não tem condições de se sobrepor e nem se prepara para enfrentar potências com essa capacidade. Como o Brasil é um país não beligerante, ele pode ter essa flexibilidade no dimensionamento do seu poder militar. Poucas marinhas do mundo teriam condições de se contrapor a esse tipo de força.
BBC News Brasil - Nas últimas semanas, apuramos que houve conversas no governo para descentralizar o projeto do submarino nuclear. O que está, efetivamente, acontecendo?
Rabello - O programa nuclear da Marinha tem uma finalidade dual muito clara. Estamos trabalhando numa solução energética de fonte nuclear e essa tecnologia tem sido desenvolvida ao longo dos últimos 50 anos de forma praticamente exclusiva pela Marinha e pelo setor de defesa. Mas as entregas desse programa podem beneficiar um amplo espectro da sociedade.
Entendo que, se a gente canalizar os investimentos nesse projeto puramente no Ministério da Defesa, corremos o risco de não termos o orçamento previsto para trilhar o programa como planejamos. Temos defendido que outros ministérios participem do projeto do ponto de vista orçamentário, dentro das capacidades que eles dispõem.
BBC News Brasil – Essas conversas têm envolvido quais ministérios?
Rabello - Nós entendemos que os ministérios que mais teriam interesse nesse programa são o Ministério de Minas e Energia (MME) e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Outros ministérios também teriam ganhos.
BBC News Brasil – Nesse contexto de instabilidade internacional, mas considerando as necessidades do país em outras áreas, o submarino nuclear é um projeto do qual o Brasil poderia abrir mão?
Rabello – Se a gente entender a defesa do Brasil como algo importante para a segurança de todos nós, o Brasil não pode abrir mão dessa tecnologia e desse ativo militar. Na Marinha, tratamos isso como uma essencialidade estratégica. Não conhecemos nenhum meio de dissuasão tão capaz quanto o submarino nuclear para um país como o Brasil.
BBC News Brasil – O senhor teme que o avanço desse projeto possa despertar a pressão de grandes potências?
Rabello - Eu não vejo isso como motivo de temor. Pelo contrário. O Brasil não é um país beligerante. É um país aberto, que se relaciona com todos. O país é um aliado natural de todos aqueles que têm na paz um objetivo fundamental.
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