COLÔMBIA

Quem são os candidatos favoritos à Presidência da Colômbia e quais são os desafios que o vencedor terá para governar

Eleições legislativas colombianas de 8 de março definiram a composição do Congresso para a legislatura 2026-2030 e os candidatos para a eleição presidencial de 31 de maio no país.

A Colômbia começa a definir sua corrida à Presidência.

No último domingo (8/3), o país realizou eleições legislativas e interpartidárias. Elas definiram a composição do Congresso colombiano para os próximos quatro anos e a lista de aspirantes à sucessão do presidente Gustavo Petro, nas eleições de 31 de maio.

O Congresso colombiano é bicameral e será composto de 103 senadores (Câmara Alta) e 183 deputados (Câmara Baixa) no próximo período legislativo.

Três consultas partidárias, mais ou menos divididas entre opções de esquerda, centro e direita, também elegeram seus candidatos à Presidência. Estas consultas são similares às eleições primárias realizadas em outros países e servem para que os ganhadores possam avaliar suas possibilidades na eleição.

Cientistas políticos entrevistados pela BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) esclarecem que os resultados de domingo passado não indicam claramente quem será o próximo presidente do país.

Começa agora uma reta final que pode se estender até um eventual segundo turno, no dia 21 de junho. Mas existem três conclusões fundamentais que podem ser extraídas da jornada eleitoral.

A primeira é a consolidação do Pacto Histórico, o partido de esquerda de Gustavo Petro, como a maior força legislativa do país.

A segunda é que o próximo presidente enfrentará o contrapeso de um Congresso fragmentado, sem maioria absoluta. A situação é similar à atual, que levou Petro a ter muitas das suas reformas frustradas.

E a última conclusão é que, embora haja mais de 10 candidatos presidenciais, três deles parecem se apresentar como claros favoritos.

Quem são os favoritos à Presidência da Colômbia?

Diversas pesquisas indicam que os favoritos são, nesta ordem, o senador de esquerda Iván Cepeda, do partido Pacto Histórico (PH), e o advogado de direita Abelardo de la Espriella.

Nenhum dos dois participou das consultas de domingo passado. Eles irão direto para o primeiro turno, no dia 31 de maio.

Cepeda tem 63 anos e representa a continuidade do projeto do presidente Gustavo Petro.

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Cepeda baseia sua campanha em prosseguir no caminho de Petro, o primeiro presidente de esquerda da história moderna da Colômbia

Além da sua longa carreira como senador, Cepeda é conhecido pela sua participação nas negociações de paz com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), sua defesa dos direitos humanos e sua implicação como vítima e testemunha no julgamento do ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010) por manipulação de testemunhas.

Cepeda defende o diálogo para pôr fim ao conflito armado, além de medidas como aumento do salário mínimo, redução de prêmios e benefícios para os congressistas e uma reforma agrária. Em termos de distribuição de propriedade de terras, a Colômbia é um dos países mais desiguais do mundo.

Seu pai, Manuel Cepeda (1930-1994), era membro do Partido Comunista da Colômbia. Ele foi assassinado por agentes do Estado, em cumplicidade com paramilitares.

Com seu movimento Defensores da Pátria, o advogado e empresário De la Espriella, de 47 anos, surgiu na política com um discurso linha-dura de direita.

Ele vem sendo frequentemente questionado por ter sido advogado de Alex Saab, o controverso empresário colombiano acusado pelos Estados Unidos de ser um dos testas de ferro do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, em uma trama de corrupção.

Em entrevista ao jornal colombiano El Tiempo, o candidato declarou que havia deixado de trabalhar com Saab há seis anos e que sua relação profissional havia se originado antes que fossem conhecidas as acusações ao empresário.

De la Espriella concentra seu discurso na segurança e na luta contra a corrupção. Ele defende a livre iniciativa, Deus e a família como núcleo central da sociedade.

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Abelardo de la Espriella, 'o tigre', aposta em um discurso patriótico e linha-dura para chegar à Presidência da Colômbia

Durante a campanha, Abelardo de la Espriella defendeu que a Colômbia vive um momento existencial e acusou o governo Petro de querer se perpetuar no poder.

O candidato é admirador declarado de líderes conservadores como o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, Donald Trump nos Estados Unidos e da primeira-ministra italiana Georgia Meloni. Ele afirma que seu movimento não trata de ideologia ou espectro político, mas sim de "extrema coerência".

Nas últimas pesquisas, Cepeda atingiu 30% a 37% das intenções de votos, o que ainda está longe dos 51% necessários para a vitória no primeiro turno.

Já De la Espriella vem oscilando entre 16,7% e 31,9%, nas diversas sondagens.

As pesquisas situaram os demais candidatos em segundo plano, mas as consultas interpartidárias do domingo passado trouxeram uma clara vencedora que se somará com força aos dois favoritos na reta final.

A candidata fortalecida (e os demais)

Seu nome é Paloma Valencia, candidata do partido conservador Centro Democrático (CD), do ex-presidente colombiano Álvaro Uribe (2002-2010).

Com 48 anos, a senadora e advogada obteve o maior apoio de todas as consultas, com mais de 3,2 milhões de votos.

Na chamada Grande Consulta pela Colômbia, Valencia superou figuras como o economista Juan Daniel Oviedo; o ex-ministro da Defesa Juan Carlos Pinzón; a jornalista Vicky Dávila; e Juan Manuel Galán, um dos filhos de Luis Carlos Galán (1943-1989), o candidato assassinado em um crime atribuído ao Cartel de Medellín, em conluio com agentes do Estado.

"Valencia sai na primeira fila para disputar a vaga no segundo turno com De la Espriella", segundo o advogado Carlos Cortés, da Universidade de Los Andes, na Colômbia. Ele detém grau de mestrado em meios e gestão de comunicação pela London School of Economics.

"Foi uma jogada de mestre do uribismo, que se moveu um pouco para o centro", opina ele.

A candidatura do CD foi uma das mais disputadas e midiáticas dos últimos meses, especialmente após o assassinato do então pré-candidato uribista Miguel Uribe Turbay (1986-2025).

A participação dos eleitores nesta consulta foi considerável, totalizando mais de 5,8 milhões de votos — quatro vezes mais que as outras duas prévias. Analistas consideram que este é um sinal da força política do uribismo e da centro-direita nestas eleições.

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A uribista Paloma Valencia foi a grande vencedora da noite de domingo (8/3), contabilizando mais de 3,2 milhões de votos dos setores da centro-direita colombiana

O ex-senador e ex-embaixador da Colômbia no Reino Unido, Roy Barreras, venceu por estreita margem o ex-prefeito de Medellín, Daniel Quintero, na votação da Frente pela Vida, de esquerda. Ele será a alternativa a Cepeda na conquista do eleitorado mais progressista.

Barreras não era descartado como opção pelos setores políticos devido ao seu perfil, considerado mais moderado e com maior capacidade de manter alianças e apoios do que Cepeda.

Mas a votação de domingo (8/3) demonstrou um apoio reduzido à sua candidatura. Ele foi o menos votado das três consultas, com pouco mais de 250 mil votos, de um total aproximado de 590 mil.

Em termos comparativos, Cepeda recebeu mais de 1,5 milhão de votos na consulta do Pacto Histórico, no final de outubro.

Este resultado é considerado um reconhecimento à candidatura do PH e de Cepeda frente a Barreras. "Foi um sucesso para eles", segundo Cortés.

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O ex-senador Roy Barreras dificilmente conseguirá disputar o voto da esquerda com Cepeda no primeiro turno, segundo cientistas políticos

Por fim, a ex-prefeita de Bogotá, Claudia López, de 55 anos, venceu o professor Leonardo Huerta na disputa centrista Consulta das Soluções.

López disputará o centro político com Sergio Fajardo, ex-prefeito de Medellín e ex-governador de Antioquia. Ele tem 69 anos e é candidato à Presidência pela terceira vez.

Como Cepeda e De la Espriella, Fajardo segue diretamente ao primeiro turno, sem consulta prévia.

Também pretendem concorrer os ex-ministros Juan Fernando Cristo, Luis Gilberto Murillo, Daniel Palacios e Mauricio Lizcano; a senadora Clara López; o empresário Santiago Botero, a advogada Sondra Macollins e o ex-procurador Carlos Felipe Córdoba.

Estes nomes aparecem longe dos primeiros colocados nas pesquisas. E, após os resultados das prévias, Cortés observa claramente que Cepeda, Valencia e De la Espriella parecem ser os candidatos mais viáveis.

O cientista político Yann Basset, da Universidade del Rosario, na Colômbia, é da mesma opinião. Para ele, "Valencia venceu a consulta com sucesso e, agora, resta saber se ela consegue superar De la Espriella" no setor da direita.

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Sergio Fajardo e Claudia López disputarão o voto do centro, mas especialistas preveem poucas possibilidades de sucesso

Poder limitado

Com 21 milhões de eleitores, as eleições legislativas colombianas de 8 de março tiveram a maior participação desde 1990.

O Pacto Histórico repetiu e reforçou sua posição como a força mais votada pela segunda eleição legislativa consecutiva. O partido recebeu 23% dos votos para o Senado, mas, novamente, não terá maioria absoluta.

Em segundo lugar, vem o Centro Democrático, que conquistou quase 16% dos votos e melhorou seu desempenho de 2022 na Câmara Alta.

Projeções do portal colombiano La Silla Vacía, com base nas apurações, indicam que o PH terminará com 26 cadeiras e o CD com 17.

Outras forças de destaque foram a Aliança Verde, com 11 senadores, e os tradicionais Liberais e Conservadores, com 13 e 11 cadeiras, respectivamente.

Cientistas políticos consultados pela BBC News Mundo observam que os resultados deixaram o Congresso colombiano fragmentado, similar ao atual e sem bancadas absolutas. Isso sugere que o poder do próximo presidente será limitado.

"Quem vencer, não importa quem seja, irá enfrentar um Congresso polarizado, com difícil governabilidade", analisa o cientista político Alejandro Chala, da Universidade Nacional da Colômbia e pesquisador da Fundação Pares.

Dos três candidatos que se apresentam como favoritos, Cepeda e Valencia teriam a maior representação direta no Congresso colombiano, mas as negociações com outros partidos serão fundamentais para qualquer possível governo.

A oposição no Parlamento foi a principal pedra no sapato do atual presidente, Gustavo Petro. Ele prometeu reformas ambiciosas e tropeçou várias vezes na falta de consenso do Legislativo.

Durante seu mandato, Petro conseguiu a aprovação da reforma tributária, trabalhista e das aposentadorias. Estas duas últimas só foram possíveis após extensos debates, tensões e negociações constantes entre o governo e as bancadas no Congresso.

Aparentemente, esta dinâmica irá se manter na política colombiana nos próximos quatro anos.

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