Oriente Médio em convulsão

Moradores de Beirute relatam 10 minutos de horror ao Correio

"A história nos fez céticos", diz médico de Beirute sobre ataques de Israel da quarta-feira. Forças israelenses lançaram 160 mísseis sobre 100 alvos em 10 minutos. Criadora de conteúdo diz que paz com Israel "jamais ocorrerá"

As memórias da tarde da última quarta-feira (8/4) ainda atormentam Jules Boutros, um médico libanês de 26 anos que vive em Beirute. "Foi um dos dias mais sombrios e difíceis para a comunidade médica de Beirute. Os pronto-socorros espalhados pela cidade foram levados ao limite, superlotados com o fluxo incessante de civis feridos. A tragédia da situação foi sublinhada pela vulnerabilidade das vítimas: as enfermarias estavam cheias de idosos, mulheres e crianças, com as equipes médicas forçadas à tarefa desoladora de suturar recém-nascidos e crianças pequenas", relatou ao Correio

Arquivo pessoal - O médico Jules Boutros, 26 anos: "Foi um dos dias mais sombrios e difíceis para a comunidade médica de Beirute"

De acordo com Boutros, apesar de os bancos de sangue estarem quase vazios, os profissionais de saúde de Beirute demonstraram uma determinação heroica. "Trabalhamos em meio à exaustão e a um profundo peso emocional. Foi um dia de dificuldades inimagináveis", disse.

O médico explicou que, mais de 24 horas depois do massacre de quarta-feira, a situação na capital ainda é "extremamente grave". "Estamos procurando por pessoas desaparecidas sob os escombros, os hospitais estão lotados de pacientes em estado crítico. Com mais de 300 mártires em todo o Líbano apenas nesta quarta-feira, o país está em profundo luto", contou.

Na quarta-feira, Israel lançou a Operação Escuridão Eterna e despejou mais de 160 mísseis contra 100 alvos, em Beirute. Apesar de a campanha militar ter sido realizada sob a justificativa de atacar operativos do movimento fundamentalista xiita Hezbollah, cidadãos de Beirute e analistas internacionais descartam que as regiões atingidas fossem bastiões da milícia, considerada um grupo terrorista por Israel. 

Anwar Amro/AFP - Fumaça se levanta de locais atacados, também na capital libanês

Boutros agarra-se ao ceticismo, quando questionado sobre as chances de paz com Israel. "A história nos fez céticos. O cessar-fogo do ano passado foi violado em dois dias. Do nosso ponto de vista, o Líbano não possui poder de barganha para uma negociação justa. Parece menos uma conversa diplomática e mais um apelo para que a violência cesse. Há pouca crença, aqui, de que Israel realmente queira a paz", observou. Ele considera o caminho até a paz algo "completamente incerto". "Embora se fale em negociações diretas e nossos representantes governamentais estejam pedindo conversas de paz, uma grande maioria do povo libanês é firmemente contra o engajamento direto. Há uma recusa profunda em buscar a 'paz' com uma entidade considerada responsável por tamanha morte e destruição."

Arquivo pessoal - A criadora de conteúdo Rawan Nassereddine, 30 anos, duvida da paz com Israel

"Os massacres de quarta-feira começaram por volta das 14h14 (8h14 pelo horário de Brasília). Eu estava no trabalho, na área de Sin El Fil, e escutei três explosões massivas. Todos do meu trabalho ficaram em pânico e começaram a checar como estavam os amigos e familiares", contou ao Correio Rawan Nassereddine, uma criadora de conteúdo e editora de vídeos de 30 anos, também de Beirute. Segundo ela, os massacres estão acontecendo em todo o Líbano. "Quanto à paz com Israel, isso não acontecerá, mesmo que eles matem todos nós. É a resistência, e não os enviados pelos Estados Unidos, que decide o que acontecerá no Líbano", avisou. 

 

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