Eleições

'Irmão' de Bolsonaro e inspiração para a direita radical, Orbán perde eleição após 16 anos na Hungria

Em um discurso aos apoiadores, Órban reconheceu a derrota e disse: "O resultado da eleição é claro e doloroso".

Após 16 anos seguidos no poder, o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, reconheceu a derrota para Peter Magyar nas eleições neste domingo (12/4).

Em um discurso aos apoiadores, Órban disse: "O resultado da eleição é claro e doloroso".

Já Magyar disse que recebeu uma ligação de Orbán, na qual ele concedeu a derrota: "Viktor Orbán acabou de me ligar e nos parabenizou pela nossa vitória".

A contagem dos votos ainda está em andamento na Hungria, mas com cerca de 60% apurados até agora, Magyar está a caminho de conquistar uma maioria de dois terços no parlamento, uma vitória esmagadora.

No poder desde 2010, Órban contou com o apoio tanto do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quanto do líder da Rússia, Vladimir Putin.

Em meio à possibilidade de derrota de Orbán, Trump enviou, nesta semana, o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, à capital húngara, Budapeste, para participar de um comício em uma clara demonstração de apoio à candidatura do aliado.

"Eu amo a Hungria e amo Viktor. Eu digo a vocês que ele é um homem fantástico", disse Trump por telefone durante um comício da campanha. "Sou um grande fã de Viktor e estou com ele até o fim", completou Trump.

Há muito tempo, Órban era considerado uma pedra no sapato da União Europeia e um dos poucos líderes do bloco que não apoia a Ucrânia.

Para o crescente grupo de partidos nacionalistas da Europa, no poder ou prestes a chegar ao poder, Orbán é um modelo.

No Brasil, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) é um admirador declarado do modelo de Órban de governar. Durante uma visita a Budapeste em 2022, Bolsonaro o chamou de "irmão"

Quem é Peter Magyar

NurPhoto via Getty Images
Peter Magyar, uma figura mais metropolitana do que Viktor Orbán

Peter Magyar, de 45 anos, é um ex-membro do Fidesz, partido de Órban, que ingressou no partido como um estudante entusiasmado, casou-se com a ex-ministra da Justiça do Fidesz e trabalhou como diplomata húngaro em Bruxelas.

Em fevereiro de 2024, ele abandonou o partido e todos os seus cargos em empresas estatais de repente e concedeu uma entrevista que obteve dois milhões de visualizações em poucos dias, acusando o governo de covardia e corrupção. Ele então fundou o partido Tisza, nomeado em homenagem a um afluente do Danúbio.

De figura esguia, vestindo camisas e jaquetas impecáveis, Magyar parecia sofisticado e urbano demais para conquistar o eleitorado rural, mas provou ser um forte desafiante.

Orbán, de 62 anos, é um rapaz do interior que fala húngaro local, enquanto Magyar é um advogado formado em Budapeste.

Consciente de que seu status como membro da elite metropolitana pode torná-lo menos atraente para os eleitores rurais, Magyar percorreu o interior incansavelmente nos últimos dois anos, atraindo grandes multidões.

Ao contrário de Orbán, que discorre com entusiasmo sobre política global em seus discursos, Magyar se concentra em questões internas como saúde, educação, transporte e despovoamento rural.

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O presidente americano Donald Trump, à esquerda, e líder húngaro Viktor Orbán, à direita

Sua relação com a Rússia também é diferente. Ele prometeu que, se vencer, "estudaremos e, quando necessário, alteraremos os contratos existentes com a Rússia e diversificaremos nossos recursos energéticos". Ele também prometeu "restaurar o assento da Hungria nas mesas da União Europeia e da Otan".

Magyar diz que aprendeu rapidamente em suas seis viagens pelo país. Ele abandonou rapidamente suas anotações depois de ser criticado por soar artificial e começou a falar "de coração", disse à BBC no início do ano.

"Depois dos primeiros dias, li as críticas e aprendi a me aproximar das pessoas, a deixar que elas perguntem e respondê-las de forma e honesta, o que é raro na política húngara."

Enquanto Orbán geralmente visita uma cidade por dia na campanha, Magyar visita de três a seis, em um esforço para alcançar todos os 106 distritos eleitorais até o dia da votação.

Ele próprio não é estranho à controvérsia. Após entrar para a política, sua ex-esposa o descreveu como uma figura assustadora, propensa a acessos de raiva e violência doméstica.

Manifestantes anti-Tisza chegaram a exibir faixas estampadas com um sapato que ele supostamente teria atirado nela. As tentativas mais recentes do Fidesz para desacreditá-lo incluem convencer uma ex-namorada a gravar secretamente suas conversas e levá-lo a uma festa onde havia consumo de cocaína.

Magyar nega qualquer abuso doméstico e fala com carinho de sua ex-esposa em público. Ele negou ter usado drogas e, na semana passada, divulgou o resultado negativo de um exame toxicológico, desafiando políticos do Fidesz a fazer o mesmo.

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