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Navios ligados ao Irã cruzam Estreito de Ormuz apesar do bloqueio dos EUA; China critica ação americana

Bloqueio entrou em vigor na segunda-feira (13/3), após fracasso das negociações de paz entre Washington e Teerã no Paquistão.

Pelo menos quatro navios ligados ao Irã cruzaram o Estreito de Ormuz nesta terça-feira (14/04), após o início do bloqueio imposto pelos Estados Unidos, de acordo com dados de rastreamento navais analisados ??pela BBC Verify.

Segundo o MarineTraffic, uma plataforma online que fornece informações quase em tempo real sobre o tráfego marítimo global, dois desses navios visitaram portos iranianos.

Donald Trump anunciou em suas redes sociais na segunda-feira (13/04) o início do "bloqueio de navios que entram ou saem de portos iranianos" pelos EUA. Segundo as forças americanas, o fechamento não valeria para embarcações que transitam pelo Estreito de Ormuz "com destino ou origem em portos não iranianos".

O bloqueio entrou em vigor um dia após o fracasso das negociações de paz entre Washington e Teerã no Paquistão.

A China condenou as ações americanas nesta terça. Segundo o Ministério das Relações Exteriores chinês, o bloqueio é "perigoso e irresponsável".

O porta-voz da pasta, Guo Jiakun, alertou ainda que o comportamento dos EUA apenas "exacerbará as tensões e prejudicará o já frágil acordo de cessar-fogo".

O porta-voz disse ainda de que os rumores de que a China estaria se preparando para entregar novos sistemas de defesa aérea ao Irã eram "completamente inventados".

As notícias levaram o presidente Donald Trump a ameaçar impor uma tarifa de 50% sobre os produtos chineses caso o país fornecesse assistência militar a Teerã.

"Se os EUA insistirem em usar isso como desculpa para impor tarifas adicionais à China, a China certamente tomará contramedidas firmes", disse Guo.

Navios ligados ao Irã cruzaram o estreito

De acordo com os dados de rastreamento navais analisados ??pela BBC Verify, o navio graneleiro Christianna teria cruzado o estreito ainda na segunda-feira, após o início do bloqueio, tendo feito escala em Bandar Iman Khomeini, no Irã.

As informações do MarineTraffic ainda apontam que o Rich Starry, sancionado pelos EUA por comércio relacionado ao Irã, teria navegado para leste a partir de Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos, através do estreito durante a noite.

Já o petroleiro Murlikishan, também sob sanções dos EUA por comércio relacionado ao Irã, teria partido de Lanshan, na China, e seguido para oeste através do estreito durante a noite. Segundo o MarineTraffic, sua última posição relatada foi a leste da ilha iraniana de Qeshm.

Outro petroleiro, o Elpis, teria passado pelo estreito rumo a leste durante a noite, vindo do porto iraniano de Bushehr, conforme mostra o rastreamento. Ele também está sob sanções dos EUA e seu destino é desconhecido.

É possível que esses navios estejam transmitindo infoirmações falsas sobre sua posição geográfica – prática conhecida em inglês como "spoofing" – para disfarçar suas localizações.

O início do bloqueio

Ao anunciar o início do bloqueio na segunda, Trump disse que se algum navios ligado ao Irã se aproximasse do bloqueio criado pelas forças americanas, seria "imediatamente ELIMINADO, usando o mesmo sistema de destruição que usamos contra os traficantes de drogas em barcos no mar".

Ele fez menção aos ataques letais que vem realizando contra supostos barcos de narcotráfico no Mar do Caribe e no Oceano Pacífico desde setembro.

Mais tarde, em um pronunciamento na Casa Branca, Trump afirmou que o Irã deseja "muito" um acordo e que foi contatado durante a manhã "pelas pessoas apropriadas" em busca de um consenso.

De acordo com uma nota enviada pelo Comando Central dos EUA (Centcom) aos marinheiros e divulgada pela agência de notícias Reuters, o bloqueio abrangeria "toda a costa iraniana".

Ele afetaria navios de qualquer bandeira no Golfo de Omã e no Mar Arábico, a leste do Estreito de Ormuz.

O Centcom alertou ainda que embarcações "que entrarem ou saírem da área bloqueada sem autorização estarão sujeitas a interceptação, desvio e captura".

Na nota enviada, o Comando Central afirmou também que remessas humanitárias, como alimentos e suprimentos médicos, serão permitidas, sujeitas a inspeção.

Em resposta, a Guarda Revolucionária Islâmica afirmou que embarcações militares que se aproximarem do estreito serão "tratadas com severidade".

Os mercados reagiram com nervosismo aos novos acontecimentos do conflito no Oriente Médio. O preço do petróleo voltou a subir com força na segunda, com o barril do tipo Brent ultrapassando os US$ 100 — alta de mais de 7% — refletindo temores sobre o impacto do bloqueio no fornecimento global de energia.

No fim de semana, as tentativas de negociações de paz entre Irã e EUA fracassaram, mas o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, afirmou que os esforços para resolver o conflito continuam.

"O cessar-fogo ainda está em vigor e, neste momento, todos os esforços estão sendo feitos para resolver as questões pendentes", disse Sharif, segundo tradução da agência de notícias AFP.

REUTERS/Kevin Lamarque
Os "navios de ataque" iranianos serão "eliminados" caso se aproximem do bloqueio naval dos EUA, afirmou Trump

Desde o início da guerra, o Irã faz um bloqueio seletivo de uma das vias marítimas mais importantes do mundo; só permite a passagem de navios de países que Teerã considera amistosos ou por embarcações que se acredita terem pago um pedágio, estimado em cerca de US$ 2 milhões (R$ 10 milhões).

"Ninguém que pague um pedágio ilegal terá passagem segura no alto-mar", disse Trump, acrescentando que "qualquer iraniano que atirar contra nós, ou contra embarcações pacíficas, será explodido até o inferno".

Mais tarde, o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) afirmou que o bloqueio será apenas para navios que entram e saem de portos iranianos e que não bloqueará embarcações no Estreito de Hormuz se elas estiverem a caminho "de e para portos não iranianos".

Pelo menos 60 embarcações passaram pelo estreito — uma média de 10 por dia — entre o momento em que cessar-fogo foi anunciado na terça-feira (7/4) e o início do bloqueio nesta segunda.

Trata-se de um aumento significativo em relação ao período anterior ao cessar-fogo, mas ainda é apenas uma fração do volume pré-guerra, quando cerca de 138 navios atravessavam o estreito diariamente, segundo o Joint Maritime Information Centre.

Após as declarações de Trump, as Forças Navais do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC) afirmaram que quaisquer embarcações militares que se aproximem do Estreito de Ormuz serão consideradas como estando em violação do cessar-fogo e serão "tratadas severamente".

Em um comunicado publicado por veículos iranianos, as Forças Navais acrescentam que, "ao contrário das falsas alegações de alguns funcionários inimigos", o Estreito de Ormuz está "aberto para a passagem inocente [trânsito livre] de embarcações não militares, sob controle e gestão inteligentes, em conformidade com regulamentos específicos" do Irã.

BBC

Ambição nuclear do Irã minou acordo, diz Trump

Na segunda-feira, Trump também comentou as negociações conduzidas por seu vice, J.D. Vance, em Islamabad, capital do Paquistão.

O presidente disse nas redes sociais que "a reunião foi boa, a maioria dos pontos foi acordada, mas o único ponto que realmente importava, nuclear, não foi".

Segundo Trump, após "quase 20 horas" de negociações, "há apenas uma coisa que importa — o Irã não está disposto a abrir mão de suas ambições nucleares".

Donald Trump também afirmou que o Irã retornará à mesa de negociações e "nos dará tudo o que queremos".

Em uma entrevista ao Sunday Morning Futures, programa da Fox News, Trump declarou que os negociadores dos EUA conseguiram "praticamente todos os pontos de que precisávamos", exceto o nuclear.

Ele afirmou ainda que o Irã não "deixou a mesa de negociações". "Prevejo que eles voltem e nos deem tudo o que queremos", declarou.

Já durante a noite, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, acusou o governo iraniano de praticar um "ato de terrorismo econômico" ao bloquear o tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz.

Em entrevista à Fox News, Vance afirmou que, se os iranianos "praticarem terrorismo econômico", os EUA acatarão o princípio de que "nenhum navio iraniano sairá do país".

Vance também comentou sobre as negociações com o Irã no fim de semana, dizendo que houve muito progresso. "A bola está com o Irã", disse ele.

EUA não conquistaram confiança, diz Irã

O presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, que liderou a delegação de Teerã nas conversas no Paquistão, afirmou no domingo (12/4) que agora é o momento de os EUA "decidirem se podem conquistar nossa confiança ou não".

Em uma publicação no X, Ghalibaf diz que enfatizou antes das negociações que o Irã tinha "boa-fé e vontade", mas, devido às experiências de duas guerras anteriores, não tinha "nenhuma confiança no lado oposto".

Ele afirma que a delegação iraniana "apresentou iniciativas voltadas para o futuro, mas o lado oposto acabou não conseguindo conquistar a confiança da delegação iraniana nesta rodada de negociações".

Ele prossegue: "Não cessaremos por um momento sequer nossos esforços para consolidar as conquistas dos quarenta dias da defesa nacional do Irã".

Ele acrescentou que as negociações foram "intensas" e agradeceu ao Paquistão por facilitá-las.

Respondendo a comentários do presidente dos EUA, Donald Trump, Ghalibaf disse em um comunicado no último domingo que "essas ameaças não têm efeito sobre os iranianos" e que o Irã não irá "se render sob ameaças".

O que é o Estreito de Ormuz

No centro desta guerra, o Estreito de Ormuz é uma das rotas de energia mais importantes do mundo, que conecta os produtores do Oriente Médio aos principais mercados da Ásia-Pacifico, da Europa e América do Norte.

Desde que o Irã anunciou seu fechamento, no dia 2 de março, logo após os primeiros ataques de Israel e dos Estados Unidos, a rota se tornou um dos epicentros da atual guerra no Oriente Médio.

Até então, cerca de 20% de todo o petróleo consumido no planeta passava por ali. Esse petróleo não vem apenas do Irã, mas também de países do Golfo, como Iraque, Kuwait, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

Quase 90% desse volume segue para a Ásia. A China, sozinha, recebe cerca de 38%, seguida por Índia, Coreia do Sul e Japão.

Além disso, o estreito é uma rota essencial para o gás natural liquefeito, usado como combustível na indústria, no transporte e no aquecimento de residências em vários países.

Por ali também passam fertilizantes utilizados na agricultura em todo o mundo, inclusive no Brasil.

No sentido contrário, é pelo Estreito de Ormuz que entram alimentos, medicamentos e outros produtos essenciais para o Oriente Médio.

Antes do conflito, cerca de 130 embarcações passavam pelo Estreito de Ormuz todos os dias. Hoje, esse fluxo caiu para cinco ou seis navios — uma redução de cerca de 95%.

Qualquer instabilidade no Estreito de Ormuz tem impacto quase imediato no restante do mundo, afetando preços, cadeias de abastecimento e economias inteiras.

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