A sucessão de anúncios contraditórios sobre o Estreito de Ormuz nas últimas 24 horas expõe um cenário de incerteza crescente no Golfo Pérsico, com impactos diretos sobre o comércio global de energia.
Segundo a mídia estatal iraniana, o Irã voltou a fechar a passagem estratégica neste sábado (12/4), por volta das 05h30 (horário de Brasília), em resposta à decisão dos Estados Unidos de manter o bloqueio naval aos portos iranianos.
A medida representa uma reviravolta em relação ao que havia sido anunciado poucas horas antes. Na sexta-feira, por volta das 10h (horário de Brasília), o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que o estreito permaneceria "completamente aberto" para navios comerciais durante o período de cessar-fogo.
Minutos depois, o presidente dos EUA, Donald Trump, agradeceu a declaração, mas deixou claro que o bloqueio americano continuaria "até que um acordo com o Irã esteja 100% concluído".
A troca de mensagens marcou o início de uma sequência de declarações desencontradas entre Washington e Teerã.
Horas mais tarde, por volta das 19h (horário de Brasília), o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, acusou Trump de fazer "sete afirmações falsas em uma hora" e indicou que, com a continuidade do bloqueio, o estreito não permaneceria aberto.
Na manhã de sábado, a situação voltou a mudar.
Por volta das 05h30 (horário de Brasília), as Forças Armadas iranianas anunciaram que retomariam o controle total da via marítima, afirmando que a passagem de embarcações passaria a depender de autorização do Irã. Em comunicado, autoridades iranianas classificaram o bloqueio americano como "pirataria" e "roubo marítimo".
Dados do site de monitoramento MarineTraffic indicam que alguns petroleiros chegaram a cruzar o estreito nas primeiras horas do dia. No entanto, após os novos anúncios, várias embarcações parecem ter alterado suas rotas. Um dos casos é o do petroleiro Minerva Evropi, de bandeira grega, que teria feito um retorno em direção ao porto de origem.
O Estreito de Ormuz é uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo, por onde passa uma parcela significativa do petróleo global. Qualquer interrupção no fluxo de navios na região tende a gerar volatilidade nos mercados internacionais.
A escalada ocorre em meio a negociações frágeis entre EUA e Irã. Trump afirmou recentemente que Teerã teria "concordado com tudo", incluindo a remoção de urânio enriquecido do país — alegação negada por autoridades iranianas.
Para a correspondente internacional da BBC, Lyse Doucet, o cenário atual é marcado por uma "avalanche de declarações contraditórias", refletindo negociações ainda longe de um consenso.
Apesar da retórica intensa, não há, até o momento, sinais de confronto direto na região. Um cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah no Líbano parece estar sendo mantido, o que pode ajudar a evitar uma escalada maior — embora incidentes isolados ainda tenham sido registrados.
No terreno, a situação interna do Irã também chama atenção.
Um apagão digital imposto pelo governo já dura 50 dias, segundo a organização NetBlocks, isolando o país da internet global. O acesso alternativo, via sistemas como o Starlink, tem custo elevado — cerca de US$ 6 por gigabyte — em um país onde o salário médio mensal gira entre US$ 200 e US$ 300. O uso dessas conexões pode levar a penas de até dois anos de prisão.
Ao mesmo tempo, o Irã começou a reabrir parcialmente seu espaço aéreo. A medida entrou em vigor às 04h30 (horário de Brasília), com a retomada gradual de voos internacionais em partes do território, após semanas de fechamento devido aos ataques envolvendo forças americanas e israelenses.
Para analistas, há sinais de algum avanço diplomático, como a possibilidade de um memorando de entendimento entre EUA e Irã para viabilizar novas negociações. Ainda assim, um acordo mais amplo — especialmente diante de décadas de hostilidade entre os dois países — permanece distante.
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