O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta quinta-feira (23/4) a prorrogação por três semanas do cessar-fogo entre Israel e Líbano.
Em uma publicação nas redes sociais, Trump afirmou que a decisão ocorreu após reuniões entre autoridades dos dois países no Salão Oval da Casa Branca.
Segundo o presidente americano, a extensão do acordo faz parte dos esforços dos EUA para avançar em um entendimento de paz mais duradouro entre as partes.
"Os Estados Unidos vão trabalhar com o Líbano para ajudá-lo a se proteger do Hezbollah", disse mais tarde em conversa com jornalistas na Casa Branca.
Embora significativo, o cessar-fogo ainda representa uma tentativa de conter a retomada dos ataques que eclodiram após Trump, juntamente com seus aliados israelenses, iniciarem a guerra contra o Irã.
O presidente do Líbano, Joseph Aoun, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, são esperados em Washington nas próximas semanas, afirmou Trump.
A trégua entre os dois país entrou em vigor no dia 16 de abril e previa duração inicial de 10 dias. Com isso, o acordo expiraria no domingo.
Na última semana, contudo, Israel e Hezbollah trocaram ataques e acusaram um ao outro de violar o acordo de cessar-fogo.
Segundo o Líbano, um dos bombardeios israelenses matou uma jornalista que trabalhava para um jornal libânes.
Um dia após o acordo de cessar-fogo entrar em vigor, o ministro das Relações Exteriores do Irã anunciou a reabertura completa do Estreito de Ormuz.
A decisão foi comemorada por Trump, que, no entanto, anunciou que o bloqueio naval dos Estados Unidos aos portos do Irã e ao Estreito de Ormuz seguirá em vigor até que os dois países cheguem a um acordo de paz.
A decisão de Trump repercutiu negativamente no Irã, com críticas na imprensa estatal iraniana ao anúncio do chanceler do próprio país.
O republicano também afirmou que os EUA trabalharão com o Líbano para lidar com a "situação do Hezbollah" de maneira apropriada e que Israel não bombardeará mais o Líbano. "Eles estão PROIBIDOS de fazer isso pelos EUA. Chega!", escreveu, acrescentando que os EUA "tornarão o Líbano grande novamente", numa recriação de seu famoso slogan "tornar a América grande novamente".
O que diz o acordo?
Os termos do acordo que entrou em vigor na semana passada já previa uma possibilidade de prorrogação "por mútuo acordo" caso as negociações mostrem sinais de progresso.
De acordo com mais detalhes fornecidos pelo Departamento de Estado dos EUA:
- Israel mantém seu "direito de tomar todas as medidas necessárias em autodefesa, a qualquer momento, contra ataques planejados, iminentes ou em andamento";
- O Líbano deve tomar "medidas significativas" para impedir que o Hezbollah e todos os outros "grupos armados não estatais rebeldes" realizem ataques contra alvos israelenses;
- Os envolvidos reconhecem que as forças de segurança do Líbano têm responsabilidade exclusiva pela segurança do Líbano;
- Israel e o Líbano solicitaram que os EUA continuem a facilitar novas conversas diretas com o objetivo de "resolver todas as questões pendentes";
A declaração acrescentou que a trégua foi um "gesto de boa vontade" de Israel destinado a possibilitar "negociações de boa-fé para um acordo permanente de segurança e paz" entre as duas partes.
O que disseram os diferentes lados?
Os líderes de Israel e do Líbano saudaram a trégua, com Netanyahu classificando o entendimento como "uma oportunidade para firmar um acordo de paz histórico".
O primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, disse esperar que o acordo permita que aqueles que foram deslocados pelo conflito retornem às suas casas.
O Hezbollah também sinalizou disposição para participar do cessar-fogo, mas afirmou que ele deve incluir "uma suspensão completa dos ataques" em todo o Líbano e "nenhuma liberdade de movimento para as forças israelenses".
O grupo apoiado pelo Irã, embora profundamente enraizado no Líbano, não faz parte do aparato de segurança do governo libanês.
O Ministério das Relações Exteriores do Irã saudou o cessar-fogo, com o porta-voz Esmail Baghaei expressando sua "solidariedade" ao Líbano. Teerã insistiu que seu próprio cessar-fogo de duas semanas com os EUA deveria incluir o Líbano, enquanto os EUA e Israel afirmaram que não.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, elogiou o papel dos EUA na facilitação do cessar-fogo e instou todas as partes a "respeitarem plenamente" e "cumprirem o direito internacional em todos os momentos".
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, considerou o acordo um "alívio", afirmando que a Europa continuará a "exigir o pleno respeito à soberania e à integridade territorial do Líbano".
A chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, acrescentou que o cessar-fogo deve ser usado para "recuar da violência" e criar espaço para negociações visando "uma paz mais duradoura".
O que é a zona tampão de Israel?
Apesar do acordo, Netanyahu afirmou que as tropas israelenses manteriam uma "zona de segurança" de 10 km no sul do Líbano, dizendo: "Estamos lá e não vamos sair".
Segundo o premiê israelense, o controle sobre essa área deve ser mantido para "bloquear o perigo de invasão".
Israel entrou novamente no sul do Líbano após ataques do Hezbollah no início de março, criando uma zona de segurança que, segundo o país, era necessária para proteger as comunidades no norte de Israel.
Apesar de um acordo de cessar-fogo anterior entre Israel e o Hezbollah — que pôs fim a 13 meses de conflito — ataques transfronteiriços ainda eram quase diários.
Como o acordo foi negociado?
Israel e Líbano realizaram raras conversas diretas em Washington no início desta semana, com o objetivo de aliviar a guerra, que resultou em ataques aéreos mortais contra parte da capital libanesa, Beirute, e combates no sul do país.
Segundo o anúncio de Trump, o acordo foi alcançado após "excelentes conversas" com Aoun e Netanyahu. Mas o presidente americano não mencionou se o Hezbollah esteve diretamente envolvido nas negociações.
Mais tarde, ele instou o Hezbollah a "agir de forma adequada e correta durante este importante período" nas redes sociais.
Embora tenha saudado a trégua, Netanyahu também deixou claro que estava fazendo poucas concessões no terreno.
Ele disse que o Hezbollah insistiu em duas condições: a retirada das forças israelenses do Líbano e o princípio de um "pacto por cessar-fogo".
No entanto, parece que o anúncio do cessar-fogo pegou Israel de surpresa - supostamente até mesmo dentro do próprio gabinete de segurança do governo.
Segundo um veículo de notícias israelense amplamente respeitado, Netanyahu teria convocado uma reunião do gabinete de segurança com apenas cinco minutos de antecedência, pouco antes do anúncio do cessar-fogo.
Informações vazadas dessa reunião indicam que os ministros não tiveram a oportunidade de votar sobre o cessar-fogo.
O que isso tem a ver com a guerra no Irã?
Quando o cessar-fogo com o Irã foi anunciado, foram divulgadas mensagens contraditórias sobre o Líbano estar envolvido ou não na trégua.
Autoridades paquistanesas, que ajudaram a negociar o acordo, e autoridades iranianas disseram que sim, mas Israel disse que não.
A secretária de imprensa do presidente dos EUA, Donald Trump, Karoline Leavitt, também afirmou posteriormente que o Líbano não fazia parte do acordo.
Israel lançou ataques contra o Líbano em 2 de março em resposta a ataques lançados pelo Hezbollah. Isso ocorreu depois que os EUA e Israel lançaram ataques contra o Irã — provocando retaliação de Teerã contra aliados dos EUA no Golfo e contra grupos apoiados pelo Irã, incluindo o grupo militante libanês.
Israel e Hezbollah continuaram a trocar ataques desde então, apesar dos apelos do primeiro-ministro do Líbano para que ambos os lados parassem.
Mais de 2.100 pessoas foram mortas e outras 7.000 ficaram feridas nos ataques de Israel ao Líbano desde 2 de março, de acordo com o Ministério da Saúde do país, que não distingue as vítimas entre combatentes e civis. O número inclui pelo menos 260 mulheres e 172 crianças.
O Ministério da Saúde afirma que 91 profissionais de saúde foram mortos e outros 208 ficaram feridos na guerra, com mais de 120 ataques israelenses registrados contra ambulâncias e instalações médicas. Uma análise da BBC Verify constatou que mais de 1.400 edifícios no Líbano também foram destruídos.
Ataques do Hezbollah mataram dois civis em Israel no mesmo período, enquanto 13 soldados israelenses foram mortos em combate no Líbano, segundo autoridades israelenses.
Na quinta-feira (16/04), o exército israelense destruiu a última ponte que ligava o sul ao resto do país, isolando ainda mais a região e renovando os temores entre muitos libaneses de que isso possa levar a uma ocupação de longo prazo de algumas áreas.
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