Um soldado das forças especiais dos Estados Unidos envolvido na operação militar que capturou Nicolás Maduro foi preso após supostamente apostar na saída do ex-presidente venezuelano antes de a informação se tornar pública.
O Departamento de Justiça dos EUA (DOJ, na sigla em inglês) denunciou Gannon Ken Van Dyke por supostamente fazer apostas na Polymarket — plataforma de apostas baseada em criptomoedas — usando informações sigilosas.
"Isso é claramente uso de informação privilegiada e é ilegal segundo a legislação federal", disseram autoridades do DOJ.
Van Dyke, militar da ativa do Exército americano que serve em Fort Bragg, na Carolina do Norte, nos EUA, ganhou mais de US$ 409 mil (cerca de R$ 2 milhões) com suas apostas.
As forças americanas capturaram Maduro e sua esposa, Cilia Flores, em seu complexo em Caracas, capital da Venezuela, durante uma operação noturna no dia 3 de janeiro, e os levaram a Nova York para responder a acusações relacionadas a armas e drogas. Eles negam essas acusações.
Van Dyke teria apostado no momento e no desfecho da operação, conhecida como Operação Absolute Resolve (Operação Determinação Absoluta), "tudo para lucrar", informou o DOJ em comunicado divulgado na quinta-feira (23/4).
Segundo o DOJ, por volta de 26 de dezembro de 2025, Van Dyke criou uma conta na plataforma Polymarket e começou a apostar em mercados relacionados a Maduro e à Venezuela. Ele é acusado de apostar mais de US$ 33 mil (cerca de R$ 165 mil) enquanto tinha acesso a informações sigilosas e não públicas sobre a operação.
Em comunicado publicado nas redes sociais na quinta-feira (23/4), a Polymarket afirmou: "Quando identificamos um usuário negociando com base em informações governamentais classificadas, encaminhamos o caso ao Departamento de Justiça e cooperamos com a investigação."
A empresa acrescentou: "Não há espaço para uso de informação privilegiada na Polymarket. A prisão de hoje é a prova de que o sistema funciona."
Van Dyke responde por uso indevido de informações governamentais confidenciais para ganho pessoal, apropriação de informações não públicas do governo, fraude com commodities, fraude eletrônica e realização de transação financeira ilegal, segundo denúncia tornada pública na quinta-feira.
"Nossos homens e mulheres em serviço têm acesso a informações classificadas para cumprir suas missões da forma mais segura e eficaz possível, e estão proibidos de usar essas informações altamente sensíveis para ganho financeiro pessoal", afirmou o procurador-geral interino dos EUA Todd Blanche.
"O acesso generalizado a mercados de previsão é um fenômeno relativamente novo, mas as leis federais que protegem informações de segurança nacional se aplicam integralmente", acrescentou Blanche.
O procurador dos EUA Jay Clayton, do Distrito Sul de Nova York, onde o caso tramita, acrescentou que esses mercados de previsão "não devem servir para o uso de informações confidenciais ou sigilosas obtidas de forma indevida para lucro pessoal".
Autoridades do DOJ afirmaram que, como militar, Van Dyke assinou acordos de confidencialidade nos quais se comprometia a "nunca divulgar, publicar ou revelar, por escrito, verbalmente, por conduta ou de qualquer outra forma [...] qualquer informação classificada ou sensível" relacionada a operações militares.
Promotores federais alegam que, entre 8 de dezembro de 2025 e pelo menos 6 de janeiro de 2026, Van Dyke participou do planejamento e da execução da Operação Absolute Resolve e teve acesso a informações sensíveis, confidenciais e classificadas sobre a operação.
A Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos EUA (CFTC, na sigla em inglês), agência federal independente, informou que também apresentou uma ação contra Van Dyke, acusando-o de uso de informação privilegiada.
Questionado sobre o caso durante um evento sem relação com o caso na quinta-feira, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que não tinha conhecimento, mas que iria analisá-lo.
Ao ser questionado sobre preocupações de que mercados de previsão possam levar ao uso de informação privilegiada, Trump disse que "não está satisfeito com nada disso".
"O mundo inteiro, infelizmente, virou um pouco um cassino. Basta ver o que está acontecendo em todo o mundo, na Europa e em todos os lugares, eles estão fazendo essas apostas", disse. "Nunca fui muito a favor disso."
Alertas da Casa Branca e regulação
Funcionários da Casa Branca, sede do governo americano, foram alertados no mês passado para não usar informações privilegiadas em apostas em "mercados de previsões".
O alerta foi feito por email enviado em 24 de março, um dia depois de o presidente americano, Donald Trump, anunciar uma pausa de cinco dias em sua ameaça de atacar usinas e infraestrutura de energia do Irã.
O email enviado aos funcionários da Casa Branca faz referência a reportagens jornalísticas sobre o uso de informações que não vieram a público para apostar em plataformas como Kalshi e Polymarket.
Davis Ingle, porta-voz da Casa Branca, disse à BBC que "qualquer insinuação sem provas de que funcionários do governo estejam envolvidos em tal atividade é jornalismo infundado e irresponsável".
Ingle afirmou também que todos os funcionários federais dos EUA estão sujeitos às diretrizes de ética do governo, que proíbem o uso de informações privilegiadas para ganho financeiro. "O único interesse especial que sempre guiará o presidente Trump é o bem-estar do povo americano."
A BBC entrou em contato com a Kalshi e a Polymarket para comentar o assunto, mas ainda não recebeu resposta.
A popularidade de mercados de previsões, que movimentaram mais de US$ 44 bilhões (cerca de R$ 225 bilhões) no ano passado, tem crescido bastante.
As previsões podem estar relacionadas a praticamente tudo. Em geral, estão ligadas a esportes, mas também podem envolver apostas, por exemplo, em decisões do Banco Central sobre a taxa de juros ou o resultado de eleições.
Essas empresas estão mudando o mercado de apostas nos EUA, onde até 2018 era proibido realizar apostas esportivas. Apostas em eleições eram proibidas até 2024.
Apostas no mercado de previsões sobre conflitos alimentaram também o debate sobre como esse setor da indústria deve ser regulamentado.
Essas empresas não estão enquadradas nos EUA como negócios de apostas e jogos de azar. Diferentemente das bets (firmas de apostas tradicionais), em que as probabilidades são definidas pela própria empresa, as plataformas de mercados de previsão funcionam mais como uma bolsa de valores, permitindo que os usuários apostem uns contra os outros no resultado de eventos futuros por meio de algo chamado de "contratos de eventos". Esses eventos sempre têm como resultado um cenário de "sim" ou "não".
Esse modelo permitiu que essas empresas ficassem sob supervisão dos reguladores financeiros nacionais da CFTC.
A comissão regula a negociação de derivativos, que incluem mercados de previsões.
Em março, líderes do Partido Democrata (de oposição ao governo Trump, do Partido Republicano) apresentaram um projeto de lei para banir completamente o mercado de previsões de negociar apostas relacionadas a guerras ou ações militares.
Em teoria, essas apostas já infringem as regras financeiras dos EUA, que proíbem a negociação de contratos relacionados a guerra, terrorismo, assassinato, jogos de azar ou outras atividades ilegais. As apostas realizadas no âmbito das empresas desse mercado de previsões poderiam ser consideradas contratos desse tipo, perante a lei, argumentam os críticos.
"Corrupção e exploração estão prosperando neste momento por brechas nos mercados de previsões", afirmou o senador americano Andy Kim (Democrata por Nova Jersey). "Essa manipulação permite que poucos ganhem muito, às custas dos trabalhadores americanos."
Críticos dos mercados de previsões afirmam que essas plataformas realizam, na verdade, operações de apostas esportivas e jogos de azar — e que estariam tentando se "disfarçar" como "bolsas de negociações" para evitar regras e impostos mais rigorosos enfrentados pelas bets, que são regulamentadas pelos Estados.
A divergência sobre quem deve fiscalizar os aplicativos gerou dezenas de batalhas judiciais nos EUA, à medida que os Estados começam a reivindicar seu direito de regulamentar essas empresas, em vez de deixar a supervisão a cargo da CFTC.
No Brasil, há relatos de que brasileiros conseguem usar essas plataformas usando remessas internacionais com criptomoedas ou cartões internacionais.
Segundo o jornal Folha de S.Paulo, as plataformas de apostas tradicionais — as bets brasileiras — que pagaram por outorgas de R$ 30 milhões para operar no Brasil, vêm solicitando, em reuniões com o governo, que a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda bloqueie a operação de plataformas como a Kalshi.
Reportagem adicional de Daniel Gallas, Natalie Sherman e Osmond Chia
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