"Edward", um menino queniano de nove anos, sempre soube que o seu pai trabalhava para as Forças Armadas britânicas. A cor de pele do garoto, mais clara do que a de seus colegas, provocou anos de bullying. Seu pai desapareceu antes de Edward (nome fictício) nascer, deixando sua mãe em situação de extrema pobreza, além de ser alvo de ostracismo por parte de familiares.
Agora seu pai, que trabalhou como prestador de serviços em uma base do Exército britânico no Quênia, e outros 19 que serviram ali como soldados foram identificados, por meio de um processo inovador envolvendo testes de DNA e decisões judiciais, como pais de crianças nascidas perto da base.
Em 12 casos, a paternidade já foi reconhecida judicialmente pela mais alta instância da Corte de Família do Reino Unido, segundo investigação do Serviço Mundial da BBC.
O processo oferece respostas a crianças que não sabiam sua origem nem, em alguns casos, quem eram os seus pais, ou que haviam sido levadas a acreditar que eles estavam mortos.
Todas enfrentaram dificuldades financeiras e buscavam entender sua origem. Na maioria dos 12 casos já confirmados, os envolvidos agora podem se registrar para obter a cidadania britânica. Menores de 18 anos ou em educação continuada terão direito a pensão alimentícia.
James Netto, advogado no Reino Unido, e Kelvin Kubai, que atua no contato direto com clientes no Quênia, afirmam que há quase 100 casos documentados de crianças nascidas nas proximidades da Unidade de Treinamento do Exército Britânico no Quênia (Batuk, na sigla em inglês), que são filhas de soldados britânicos. Segundo Netto, o número real pode ser ainda maior.
Criada em 1964, a Batuk recebe mais de 5 mil militares britânicos por ano e tem sido alvo de controvérsias ao longo das décadas em que opera em Nanyuki, cidade comercial localizada a 185 km ao norte de Nairóbi, capital do Quênia.
Uma investigação parlamentar do Quênia, que durou dois anos e foi publicada em dezembro passado, acusou soldados britânicos de atuarem sob uma "cultura de impunidade" na base, o que teria levado a abusos sexuais, duas acusações de assassinato, violações de direitos, danos ambientais e ao abandono e negligência de crianças da região.
O Ministério da Defesa do Reino Unido respondeu que "lamenta profundamente os problemas e desafios que surgiram em relação à presença de defesa do Reino Unido no Quênia" e que continua "a tomar medidas, sempre que possível, para enfrentá-los".
James Netto tomou conhecimento do caso de crianças em busca de seus pais em Nanyuki em 2024. Ele se uniu à professora de genética Denise Syndercombe Court e ambos chegaram ao Quênia "munidos de uma mala cheia de kits de DNA".
Depois, compararam as amostras de DNA com perfis genéticos disponíveis em bancos comerciais de genealogia para identificar os pais militares britânicos ausentes de pessoas com idades entre três e 70 anos.
"Nada parecido já havia sido feito nos tribunais do Reino Unido, com testes de DNA nessa escala", afirma Netto. Ele acrescenta que sua equipe dispõe de um grande volume de dados genéticos para comparação das amostras. Até o ano passado, havia quase 30 milhões de perfis no Ancestry.com, o maior site comercial de DNA, que Syndercombe Court passou a usar como principal fonte.
Netto diz que eles não sabiam quantas pistas conseguiriam e ficaram surpresos com os bons resultados. "Encontramos parentes distantes, parentes relativamente próximos, até chegar à identificação precisa, com os pais sendo nomeados e identificados."
A descoberta pode mudar a vida de Edward e de sua mãe, Nasibo, já que ele agora terá direito a apoio financeiro do pai.
"Eu costumava pensar que eles eram cavalheiros", afirma Nasibo, referindo-se aos militares britânicos. Ela acreditava que o pai de Edward a amava de verdade e cuidava dela. A reportagem teve acesso a uma carta que a mãe do soldado escreveu a Nasibo, antes da gravidez, agradecendo por fazer seu filho tão feliz.
Quando Nasibo contou que estava grávida, ela afirma que ele ficou animado. Segundo Nasibo, ele sugeriu que, se o bebê fosse um menino, deveria receber o nome de seu irmão, e voltou de uma viagem ao Reino Unido trazendo um anel de noivado.
Mas quando estava com quatro meses de gestação, Nasibo afirma que ele disse que precisava retornar ao Reino Unido por causa de uma emergência e interrompeu todo o contato.
"Eles o apelidaram de 'colonizador britânico'", relatou. O Reino Unido governou o Quênia de 1895 a 1963.
Netto conseguiu localizar o pai de Edward depois que a Justiça determinou que o Ministério da Defesa, o Departamento de Trabalho e Pensões e a Receita Federal britânica compartilhassem o nome e o endereço do homem. Ele pediu a Netto que não repassasse seus dados de contato a Nasibo nem ao filho, mas o advogado iniciou um processo judicial para obrigá-lo a pagar pensão alimentícia.
Outra queniana, Yvonne, de 18 anos, sabia ainda menos sobre o pai do que Edward. Ela havia sido informada de que ele servira nas Forças Armadas britânicas, mas não tinha sequer o nome e cresceu acreditando que ele estava morto. Sua mãe morreu quando ela ainda era bebê, e soldados da Batuk teriam dito aos avós que o pai havia morrido.
O projeto jurídico revelou, por meio de uma correspondência com um primo da mãe do homem, cujo DNA havia sido enviado ao Ancestry.com que, na verdade, o pai está vivo e morava no Reino Unido.
Depois de violar cinco ordens da Justiça, ele finalmente compareceu no dia da audiência do caso. Pediu um teste de DNA para confirmar se era o pai de Yvonne, e o resultado, uma semana depois, comprovou que de fato era.
Ele não deseja manter contato com Yvonne no momento. Mas a prima de sua mãe afirma que está ansiosa para conhecê-la.
Mas nem todos os pais identificados relutaram em se envolver.
Phill, ex-soldado britânico que esteve em Nanyuki em 2004, afirma que tem gostado de manter contato a filha Cathy, hoje com 20 anos. Ele havia pedido a mãe de Cathy, Maggie, em casamento e passou bastante tempo com a filha nos primeiros meses de vida. Mas, ao ser transferido para outra missão, diz que teve o telefone roubado e perdeu os contatos.
Maggie achou mais fácil dizer a Cathy que o pai estava morto. Mas, ao crescer, Cathy descobriu que ele estava vivo e tentou entrar em contato com ele pelo Facebook, mas ele afirma que bloqueava as contas que não reconhecia.
Naquele momento, ele diz, já havia deixado o Exército e, durante parte do período, esteve em situação de rua e enfrentando problemas de saúde mental. "A transição para a vida civil não foi fácil", afirma.
Cathy também enfrentava dificuldades na época, que culminaram em uma tentativa de suicídio. "Ao crescer, senti que realmente precisava de uma figura paterna, porque há coisas que minha mãe não conseguia entender por causa de raça e tudo mais. Isso me fazia sentir muito sozinha."
"Há uma parte de você que você não conhece. É como se fosse um completo mistério", disse Cathy.
Com a paternidade confirmada recentemente pela Justiça do Reino Unido, Phill diz que está feliz por ter sido encontrado, descrevendo a situação como uma "surpresa muito feliz".
Ele diz que mantém contato com Cathy e que já vem dando algum suporte financeiro a ela e a Maggie.
"Eu disse à Cathy: não importa o que eu faça, nunca poderei compensar o tempo que perdi com ela. Mas tudo o que posso fazer é dar o meu melhor."
Cathy agora espera visitar o Reino Unido.
Segundo Netto, até onde ele sabe, Phill é o único pai de seus clientes que envia dinheiro para a filha.
A reportagem perguntou ao advogado queniano Kelvin Kubai, que criou a organização beneficente Connecting Roots Kenya, para oferecer apoio financeiro a filhos de soldados britânicos, se ele considerava que deveria haver uma proibição geral desse tipo de relacionamento, diante do número de crianças nascidas fora do casamento. Ele discordou de forma enfática.
"Isso [seria] de natureza muito racista, porque você estaria pedindo que soldados predominantemente brancos evitassem mulheres negras [apenas] porque poderiam lhes trazer problemas. A única solução viável [é] garantir que esses homens sejam responsabilizados quando tiverem filhos durante o período de treinamento no Quênia."
Segundo Netto e Kubai, o trabalho segue em andamento, com novos casos previstos para serem apresentados à Justiça nos próximos meses.
Antes da publicação da reportagem, o Ministério da Defesa do Reino Unido disse à BBC: "Quando não há acusação criminal de atividade ilegal contra militares britânicos e nenhuma preocupação específica foi levantada pela polícia local, o ministério não investiga. Algumas das alegações de paternidade podem estar relacionadas a relações consensuais, que não são contrárias à política do ministério."
O brigadeiro Simon Ridgway, comandante do Grupo de Treinamento Coletivo responsável pela formação do Exército britânico, acrescentou que pessoas afetadas por questões de paternidade devem procurar o serviço nacional de proteção à criança do Quênia. "Eles então entram em contato com o Reino Unido, e nós oferecemos o apoio necessário para responder a perguntas e lidar com as alegações à medida que surgem."
Depois da publicação da reportagem (originalmente em inglês) da BBC, o Ministério da Defesa do Reino Unido divulgou uma nova nota afirmando estar "profundamente preocupado com as alegações sobre crianças deixadas sem o devido apoio".
"Qualquer militar que tenha falhado em suas responsabilidades deve responder por seus atos", reforçou a nota. "A exploração sexual ou o abandono das obrigações parentais são inaceitáveis."
A investigação parlamentar queniana divulgada em dezembro recomendou que o governo em Nairóbi estabeleça novos mecanismos "para responsabilizar soldados da Batuk pelo pagamento de pensão a crianças nascidas de relações consensuais, incluindo testes de DNA e apoio psicossocial aos filhos de militares da Batuk".
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