Pessoas que se apresentam como especialistas em sono infantil oferecem conselhos que podem colocar bebês em risco de sérias lesões e até de morte, segundo profissionais de assistência médica entrevistadas em uma investigação realizada pela BBC no Reino Unido.
A BBC News filmou secretamente uma dessas pessoas, aconselhando nossa repórter a colocar um recém-nascido para dormir de bruços. Já se comprovou que esta prática aumenta significativamente o risco de síndrome da morte súbita do lactente (SMSL).
O serviço de saúde pública do Reino Unido (NHS) aconselha a "sempre colocar o seu bebê de costas para dormir" no seu próprio espaço de sono, como um berço, durante seus primeiros 12 meses de vida, para reduzir o risco de SMSL. O colchão deve ser firme, plano e à prova d'água.
Outra pessoa que se apresenta como especialista recomendou colocar toalhas no berço do bebê. Esta é outra prática que, segundo a organização beneficente The Lullaby Trust, também aumenta o risco de SMSL e "morte acidental".
As profissionais de assistência médica que assistiram à nossa filmagem escondida declararam que alguns momentos as deixaram "apavoradas" ou "com náuseas".
A consultoria sobre o sono infantil é uma indústria não regulamentada em crescimento, segundo elas. Esta atividade é impulsionada pela falta de apoio pré-natal disponível para os novos pais.
E, embora reconheçam que muitos indivíduos fornecem conselhos de sono seguros e valiosos, elas alertam que também existe um "lado sombrio".
Os "especialistas em sono" dos bebês são populares nas redes sociais. Membros da nossa equipe de investigação também tiveram sua própria experiência pessoal a este respeito.
Dezenas de pais encaminharam suas preocupações à BBC. Muitos deles mencionaram duas pessoas de quem haviam recebido "consultoria" paga: Alison Scott-Wright e Lisa Clegg.
Ambas contam com muitos seguidores no Instagram, recomendações por parte de celebridades e livros publicados.
O conselho oferecido por Scott-Wright em uma das consultas foi "realmente cruel", contou à BBC uma das mães de um recém-nascido.
Outra mãe conversou com Clegg sobre seus dois filhos, que nasceram com vários anos de diferença. Ela conta que lamenta ter colocado seus "bebês jovens em perigo" ao seguir seu conselho de colocar diversos tecidos e outros objetos soltos no berço das crianças.
Scott-Wright declarou à BBC que seu apoio e aconselhamento "ajudaram inúmeros bebês, crianças, pais e famílias". Ela afirma que leva em consideração "a segurança dos bebês e o bem-estar das famílias com extrema seriedade".
Clegg afirmou que "aconselhou com sucesso milhares de pais" sobre o sono e suas rotinas, e que nenhum dos conselhos foi "perigoso, nem colocou os bebês em risco".
Uma repórter disfarçada marcou consultas online com as duas mulheres. Ela se apresentou como mãe de um recém-nascido com nove semanas de idade, que acordava frequentemente à noite.
Esta idade está dentro da faixa de um a seis meses, quando ocorre a maior parte dos casos de SMSL, a morte súbita e sem explicação durante o sono de um bebê saudável com até 12 meses de idade.
Em 2022 (o último ano com estatísticas completas), houve 197 mortes sem explicação de crianças com menos de um ano de idade na Inglaterra e no País de Gales, 16 na Escócia e duas na Irlanda do Norte.
No Brasil, a Plataforma Integrada de Vigilância em Saúde (Ivis) registrou 117 casos de SMSL em 2025.
Como não há regulamentação no Reino Unido, qualquer pessoa pode se identificar como especialista em sono.
Scott-Wright e Clegg também se descrevem como "enfermeiras da maternidade", uma função que envolve trabalho prático com bebês e também não é regulamentada.
O secretário de Saúde do Reino Unido, Wes Streeting, declarou que o governo pretende eliminar esta brecha em todo o país, impedindo os indivíduos de usarem o termo "enfermeiro" para se autodescreverem, a menos que sejam adequadamente qualificados.
A medida se segue ao inquérito que investigou a morte do neto do técnico de futebol Steve Bruce, Madison Bruce Smith, de quatro meses. O legista concluiu que o bebê morreu "dormindo no seu berço, por ter sido colocado em uma posição insegura para dormir" por uma pessoa que se identificou como enfermeira da maternidade.
Streeting declarou à BBC que a "desinformação perigosa, apresentada como conselho de um especialista, coloca a vida dos bebês em risco — e isso precisa parar".
A família Bruce Smith exige maior regulamentação e "formação obrigatória" para todos os indivíduos que forneçam assistência de sono remunerada para crianças e bebês.
"Nenhum pai deve precisar questionar se aquela pessoa a quem confiou o cuidado do seu bebê é realmente qualificada", declararam eles à BBC.
'Estávamos desesperados'
Quando o primeiro bebê de Emily tinha quatro meses de idade, ele começou a acordar à noite de hora em hora, deixando a mãe "bastante esgotada".
Depois de pesquisar por aconselhamento de sono no Instagram, um nome apareceu repetidas vezes: o de Alison Scott-Wright, também conhecida como a "Fada do Sonho Mágico".
Scott-Wright tem milhares de seguidores no Instagram. Ela apareceu no programa de TV This Morning, da rede britânica ITV, e publicou um livro pela editora Penguin Random House.
Aparentemente, sua obra foi endossada por pais celebridades, incluindo a atriz britânica Giovanna Fletcher, produtora de um podcast sobre criação de filhos.
Em declaração, a ITV afirmou que Scott-Wright apareceu uma vez como convidada do This Morning, em 2024, como especialista no sono de bebês e crianças. A Penguin Random House e Fletcher não responderam ao pedido de comentários enviado pela BBC.
Emily pagou mais de 500 libras (cerca de R$ 3,3 mil) por uma consulta por vídeo. Ela conta que Scott-Wright disse que seu filho sofria de forte refluxo e dores constantes.
Scott-Wright sugeriu colocá-lo para dormir de bruços, segundo Emily, e medicá-lo para o refluxo. Mas ela não viu o bebê durante a consulta.
"Pareceu assustador que alguém tivesse fornecido o diagnóstico médico do meu filho e me aconselhado a tomar ações contrárias às orientações padrão", relata ela.
Emily também conta que Scott-Wright a aconselhou a parar de amamentar e passar a usar leite em pó, o que ela não estava disposta a fazer. E, em nenhum momento, Scott-Wright a orientou a consultar um profissional médico, segundo a mãe.
Scott-Wright declarou à BBC que "nunca afirmou ser médica" e que seu papel junto às famílias é "complementar ao aconselhamento médico de profissionais de assistência médica qualificados, não substituto".
Emily não seguiu nenhum dos conselhos de Scott-Wright, mas alguns pais contaram à reportagem terem seguido seus conselhos contrários às orientações do NHS, quando estavam "desesperados" e "vulneráveis".
Filmagem às escondidas
A BBC pagou uma consulta por vídeo com Scott-Wright. O cenário apresentado foi baseado nas experiências reais da nossa repórter, com sua própria filha, dois anos atrás.
Sem se identificar como repórter, ela descreveu o caso de uma bebê saudável, amamentada no peito, com bom ganho de peso, mas que tinha dificuldade para dormir.
O sono foi a única preocupação levantada, mas Scott-Wright disse à nossa repórter que poderia haver um "problema digestivo". Ela sugeriu diversos diagnósticos, incluindo alergia à proteína do leite de vaca, língua presa, refluxo e laringomalácia, uma anomalia congênita da laringe.
Ela também aconselhou que "seria prudente" considerar a retirada dos laticínios da alimentação da bebê, sem orientá-la a buscar avaliação médica em primeiro lugar. Em nenhum momento, Scott-Wright viu um bebê.
Durante a consulta, Scott-Wright disse à nossa repórter que havia sido parteira, mas não tinha mais licença para exercer a profissão. E acrescentou que "não há qualificação para que alguém pudesse fazer o que eu faço".
Mostramos nossa filmagem às escondidas para duas profissionais de assistência médica: a parteira do NHS e consultora de lactação certificada pelo conselho internacional do setor Olivia Hinge e a pediatra do NHS Lillie Parker.
Ambas declararam que nenhum dos diagnósticos sugeridos por Scott-Wright coincide com os sintomas descritos pela nossa repórter. Elas também observaram diversos casos em que Scott-Wright apresentou afirmações médicas imprecisas.
"Ela decide oferecer conselhos de saúde para os quais não tem qualificação", segundo Hinge.
Cerca de meia hora após a nossa ligação, Scott-Wright mencionou a ideia de colocar a recém-nascida para dormir de bruços, o que foi descrito por ela como um "divisor de águas".
"Não posso dizer para você fazer isso, mas todos os bebês com quem trabalho dormem de bruços", afirmou Scott-Wright. "Nunca os coloco para dormir de costas, não concordo com isso."
A descoberta mais consistente sobre a SMSL em todo o mundo, ao longo de décadas de pesquisa, é que dormir de bruços "aumenta significativamente a possibilidade de morte súbita e inesperada do bebê nos primeiros meses de vida", segundo a acadêmica especializada em sono infantil Helen Ball, diretora do Centro do Sono e da Infância de Durham, no Reino Unido.
A campanha do governo britânico Back to Sleep, orientando os pais a colocarem as crianças para dormir de costas, foi lançada em 1991 pelo The Lullaby Trust e pela apresentadora de TV britânica Anne Diamond, que havia perdido seu filho para a SMSL naquele mesmo ano.
Até então, mais de 1 mil bebês morriam inesperadamente todos os anos na Inglaterra e no País de Gales, sem causa reconhecida. Este número caiu em 81% nos primeiros 25 anos da campanha e continua a diminuir.
A Escócia e a Irlanda do Norte observaram reduções similares. Os dois países registram seus dados de forma diferente do País de Gales e da Inglaterra.
Ainda assim, a BBC gravou Scott-Wright dizendo que dormir de costas seria "uma das maiores farsas da criação de filhos dos dias modernos".
A pediatra do NHS Lillie Parker declarou que "isso é fundamentalmente sua afirmação mais perigosa".
"Não estamos falando, aqui, de danos leves... Estamos falando de um bebê morrer no berço."
Durante a consulta, Scott-Wright repetiu diversas vezes "não posso dizer para você fazer isso", ao mencionar a ideia de dormir de bruços. Mas Parker afirma que isso não elimina os riscos da sua mensagem.
"Ela reitera repetidamente que não pode oferecer este conselho, mas diz, de forma muito enérgica, que este é o conselho que está fornecendo."
Durante a ligação, Scott-Wright admitiu que a ideia da bebê dormir de bruços poderia encher nossa repórter de "medo", mas chegou a sugerir que ela colocasse um sensor de respiração embaixo do colchão.
"Com isso, não importa em qual posição ela durma", afirmou ela.
O Lullaby Trust informou que não há evidência de que esses monitores reduzam os casos de SMSL e que "não se pode confiar neles para fazer com que fique mais seguro dormir de bruços".
Apresentar esta ideia a um pai ou mãe é "muito perigoso", segundo Parker.
Os monitores funcionam como alarmes para sinalizar se um bebê parou de respirar, explica ela. Ou seja, eles "realmente só detectam o cenário no pior caso". E, neste ponto, o pai ou a mãe já está "em uma posição muito assustadora".
A BBC entrou em contato com Scott-Wright após a nossa filmagem às escondidas.
Ela contou que a maioria das famílias que buscavam seu aconselhamento já haviam visitado o NHS e se consultado com profissionais de saúde particulares, mas não receberam "orientação ou resolução suficiente" em relação aos seus bebês.
Ela também afirma que seu papel seria de apoiar os pais a enfrentar estes desafios "ao lado da assistência médica, não no lugar dela".
Scott-Wright não respondeu às nossas questões sobre a ideia de colocar os bebês para dormir de bruços.
Cenas 'chocantes'
A investigação da BBC também descobriu conselhos potencialmente prejudiciais de Lisa Clegg, conhecida dos seus quase 100 mil seguidores no Instagram como a "Especialista em Bebês Felizes".
Nossa repórter apresentou o mesmo cenário discutido com Scott-Wright. Clegg cobrou 200 libras (R$ 1,3 mil) por uma ligação telefônica inicial de 50 minutos e um mês de apoio contínuo por e-mail e mensagens de texto.
Ela não incentivou a repórter a colocar sua bebê para dormir de bruços e admitiu que não detém qualificações médicas. Mas ela recomendou outras práticas que contrariam as orientações do NHS para o sono seguro dos bebês.
Clegg sugeriu colocar um pano e toalhas enroladas no berço da recém-nascida, aconselhando que os tecidos devem ser mantidos "bem distantes" do rosto da bebê.
Uma toalha "enrolada" de cada lado da cintura da recém-nascida, "sob os seus braços" durante o sono, faria a bebê "se sentir como se ainda estivesse sendo apertada" nos braços da mãe, segundo Clegg.
Ela mencionaria novamente as toalhas mais adiante, dizendo que elas "também a mantêm na mesma posição, para que a bebê não consiga rolar".
Diversos pais compartilharam com a BBC fotos que, segundo eles, foram enviadas por Clegg como orientação sobre a forma de fazer isso. As imagens mostravam bebês com toalhas e diversos tecidos em volta do rosto e da cabeça das crianças.
Pedimos a Clegg exemplos visuais durante nossa ligação e ela enviou posteriormente fotos mostrando dois bebês no berço, com objetos soltos à sua volta, incluindo perto dos seus rostos.
Um dos bebês estava dormindo de lado, calçado por dois rolos de tecido com outro embaixo da cabeça. Foi "assim que um pai fez", segundo Clegg.
A outra foto parecia mostrar um bebê minúsculo de costas, rodeado por cinco pedaços de tecido.
Helen Ball também analisou nossas gravações. Ela atua como consultora do The Lullaby Trust.
Ball e as profissionais de assistência médica nos disseram que as fotografias mostravam cenas inseguras e "chocantes", com grandes riscos de asfixia e superaquecimento.
"É muito perigoso manter objetos soltos, como toalhas enroladas", explica ela.
"Os bebês podem agarrá-las facilmente e se cobrir com elas... o que é um risco para a respiração e pode causar superaquecimento."
Clegg respondeu à BBC que não conhece nenhuma família que "levante questionamentos" sobre ela, por oferecer aconselhamentos "inseguros". E que os pais a procuram devido à "falta de apoio" do NHS.
Ela destaca que "existem orientações para os pais... é isso o que elas são. Todos têm a liberdade de escolher quais partes irão seguir e quais irão preferir ignorar ou fazer algo diferente."
A falta de qualificação ou treinamento necessário para que alguém se identifique como "especialista do sono" ou "enfermeira da maternidade" é algo profundamente preocupante, segundo todos os profissionais de assistência médica consultados pela BBC. Isso sem falar na inexistência de regulamentação a respeito.
Para a CEO (diretora-executiva) da Lullaby Trust, Jenny Ward, o aumento da regulamentação garantiria o respeito a "práticas seguras, consistentes e baseadas em evidências". E destaca que qualquer aconselhamento que contrarie as orientações deve ser "tratado com extrema cautela".
Já o filho de Emily, agora, tem nove meses e está "se desenvolvendo bem".
"Tenho um menino muito feliz e interessado, que faz tudo o que um bebê deve fazer."
Com colaboração de Natalie Truswell.
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