A China sabe melhor o que quer

A relação entre EUA e China é pragmática. Trump tentou ideologizar, a partir das tarifas e da pressão sobre a China, de tentar trazer investimentos e a produção de volta para o país, por meio das barreiras, mas para a maioria dos mercados isso não foi possível, porque as cadeias produtivas estão todas voltadas para a China. Com isso, ele gerou uma pressão inflacionária muito grande.

Veio a queda na popularidade e ele está sentindo a pressão: tem a eleição legislativa de meio de mandato, em novembro, e ele foi forçado a voltar atrás. Por isso, tem adotado novamente uma posição mais pragmática, que tem sido a tradição dos EUA desde que a China começou a ascender no cenário internacional. 

Essa vai ser uma coisa cada vez mais natural, até porque a China tem uma política que olha para o longo prazo e tem condições macroeconômicas, tem um tamanho que vai colocá-la na posição de maior potência econômica.

Isso não significa que a China vá tomar o lugar que os EUA vêm ocupando desde 1945, de reguladores da ordem internacional. A China diz, ao contrário, que não tem essa intenção e não vai tentar exportar o seu regime, a sua cultura, o seu modelo político-econômico, como fizeram os EUA, ao longo das últimas décadas.

Esse é um cenário em que o sistema internacional está vendo um declínio relativo dos EUA, mas ainda não está claro como vai ser esse novo mundo, essa nova ordem. Isso gera uma situação de instabilidade política, econômica: não se sabe para onde se está indo, apesar de estar claro que estamos em uma transição hegemônica.

Todas essas dúvidas fazem que que o Xi tenha uma clareza maior do que o Trump sobre o papel que os chineses querem jogar. Nos EUA, há muita dúvida sobre esse papel. 

Juliano Cortinhas, professor de relações internacionais da UnB

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