Um estudo acompanhou a evolução de registros de câncer na Inglaterra ao longo de 18 anos, de 2001 a 2019, e observou a alta da prevalência de 11 tipos de tumores entre adultos de 20 a 49 anos.
A pesquisa, publicada em abril no periódico científico BMJ Oncology, buscou entender se esse aumento acompanhava mudanças em fatores de risco já conhecidos, como obesidade, tabagismo, álcool, dieta e sedentarismo, ou se apontava para outras explicações ainda em aberto.
Ao cruzar dados nacionais de registros de câncer com tendências desses fatores, os pesquisadores concluíram que o aumento do IMC (índice de massa corporal) ajuda a explicar uma parcela relevante do avanço.
Já os demais fatores analisados não apresentaram uma relação direta consistente com a tendência de alta — indicando que parte do fenômeno ainda não encontra explicação clara nos riscos conhecidos anteriormente.
Embora o estudo tenha analisado dados da população da Inglaterra, ele ajuda a iluminar uma questão também presente no Brasil: quais as causas do aumento de casos de câncer em jovens adultos no país?
O médico Raphael Brandão, chefe da área de oncologia da Rede São Camilo de São Paulo, afirma que o estudo quantifica algo que, na prática da oncologia clínica, já vinha sendo percebido: o perfil de quem frequenta a sala de espera mudou.
"Temos visto pacientes cada vez mais jovens, mas por muito tempo isso foi tratado como exceção, casos isolados."
Embora os casos ainda sejam considerados raros, Brandão aponta que o artigo mostra que se trata de uma tendência consistente, observada em 11 tipos de tumor, com aumento de incidência entre 1% e 3% ao ano em adultos com menos de 50 anos.
Isso traz uma implicação ainda a ser assimilada, o fato de que os protocolos de rastreamento foram desenhados com foco em populações mais velhas. No Brasil, por exemplo, o rastreamento de câncer colorretal no SUS começa aos 50 anos.
Carlos Gil Ferreira, CEO e diretor médico da Oncoclínicas, explica que, por isso, a oncologia tem se debruçado mais sobre a 'população AYA', sigla em inglês para Adolescents and Young Adults.
"Trata-se de um grupo que ficava numa zona de sobreposição entre a pediatria e a oncologia de adultos e que passou a receber atenção específica na última década. O estudo do BMJ Oncology trabalha com a faixa entre 20 e 49 anos, o que é bastante abrangente, mas relevante para fins epidemiológicos".
Segundo ele, o que o estudo traz de mais importante é colocar dados robustos sobre uma percepção que já existe na prática clínica: "Estamos vendo mais câncer em pessoas mais jovens, especialmente em alguns tipos específicos. A base utilizada é a do National Health System (NHS) do Reino Unido, uma das mais bem estruturadas do mundo, o que confere peso ao achado."
Ferreira aponta, contudo, que é fundamental deixar claro que se trata de um estudo observacional.
"Ele levanta hipóteses, não prova causalidade. Não afirma que obesidade e sobrepeso causam câncer; identifica uma associação. Isso não diminui seu impacto. Pelo contrário: ele confirma que a oncologia precisa ampliar o olhar. O câncer não é mais uma doença restrita à terceira idade."
Os achados, na avaliação do especialista, têm implicações profundas em políticas de rastreamento, na forma como os médicos se comunicam com pacientes mais jovens e nas análises de custo-efetividade dos sistemas de saúde.
"Quando tratamos um paciente mais jovem, o tempo de vida potencialmente ganho é muito maior, o que muda a equação de qualquer investimento em prevenção ou diagnóstico precoce."
O estudo reflete a realidade do Brasil?
No país, onde obesidade, desigualdade no acesso ao rastreamento e hábitos de risco também preocupam especialistas, a leitura desses resultados pede cautela — mas também abre espaço para uma pergunta inevitável: até que ponto a alta entre jovens no Brasil segue a mesma lógica observada lá fora?
"O Brasil não tem um sistema de registro de câncer tão capilarizado quanto o NHS inglês, o que limita comparações diretas. Essa lacuna, aliás, é ela própria um problema de saúde pública que afeta diferentes países e que precisa ser enfrentado. Sem dados nacionais robustos e sistematizados, fica difícil formular políticas específicas para esse tipo de tendência", afirma o oncologista Carlos Gil Ferreira.
Ainda assim, Ferreira descreve que o Instituto Nacional do Câncer (INCA) também vem sinalizando uma tendência de crescimento em pessoas abaixo de 50 anos no Brasil, inclusive para o tipo colorretal.
Não há, porém, um recorte nacional consolidado por faixa etária e tipo de câncer. O relatório Estimativa 2026: Incidência de Câncer no Brasil, publicado pelo instituto, indicam que o país deve registrar cerca de 704 mil novos casos de câncer por ano no triênio 2023–2025 — número que deve chegar a cerca de 781 mil casos anuais entre 2026 e 2028.
O relatório também chama atenção especial para os cânceres de cólon e reto, que aparecem entre os mais incidentes tanto em homens quanto em mulheres no Brasil, reforçando a necessidade de ampliar ações de prevenção, rastreamento e diagnóstico precoce.
Embora o documento não traga um recorte específico para adultos abaixo de 50 anos, ele dedica uma seção exclusiva a crianças e adolescentes de 0 a 19 anos. O INCA estima cerca de 7,5 mil novos casos de câncer infantojuvenil por ano no Brasil em 2026, com detalhamento por sexo, Estado e região — um sinal de que a vigilância epidemiológica por faixa etária vem ganhando mais espaço na oncologia brasileira.
Outro ponto destacado pelo INCA é que parte do aumento observado em alguns tumores pode estar relacionada à ampliação do diagnóstico precoce e do rastreamento.
O relatório cita especificamente o câncer de mama em mulheres abaixo de 50 anos, apontando que o maior uso de ultrassonografia e mamografia pode contribuir para identificar casos que antes passavam despercebidos.
A conclusão de Carlos Gil Ferreira é que, embora não seja possível extrapolar diretamente os dados ingleses para a realidade brasileira, os sinais que temos apontam na mesma direção.
"É uma convergência que merece atenção e, sobretudo, mais investimento em registros nacionais que nos permitam dimensionar o problema com precisão."
O que o estudo descobriu - e o que não responde
O estudo identificou 11 tipos de câncer com aumento em adultos jovens e ligação conhecida com fatores comportamentais, incluindo câncer colorretal, de mama, endométrio, fígado, rim, pâncreas, oral, tireoide, mieloma múltiplo, vesícula e ovário, com diferenças entre os sexos.
Em quase todos esses tumores, o aumento também apareceu em adultos mais velhos, o que sugere que parte do fenômeno não é exclusivo das gerações mais novas.
A exceção mais marcante foi o câncer colorretal, que cresceu entre jovens, mas não seguiu a mesma lógica nos mais velhos. Já o câncer de ovário também fugiu do padrão, com queda entre mulheres mais velhas enquanto subia entre as mais jovens.
A maior parte dos fatores comportamentais analisados ficou estável ou melhorou ao longo do tempo. Tabagismo caiu, consumo de álcool em geral não piorou, sedentarismo recuou em vários grupos e o consumo de carne vermelha e processada diminuiu; a obesidade, por outro lado, foi o único fator com alta consistente.
Isso significa que o aumento do câncer em adultos jovens não acompanha, de forma geral, uma piora simultânea dos principais hábitos de risco. Por isso, os autores concluem que esses fatores, com exceção da obesidade, provavelmente não bastam para explicar a tendência observada.
Por que a obesidade é fator importante
A obesidade aparece como o principal fator comportamental capaz de ajudar a explicar parte do aumento de câncer em adultos jovens, e isso também conversa com a realidade brasileira. No país, o avanço do excesso de peso entre jovens se soma a uma mudança profunda na alimentação, marcada pelo crescimento do consumo de ultraprocessados e pelo sedentarismo.
No Brasil, cerca de 60% da população vive com sobrepeso, segundo dados do Vigitel, sistema de vigilância por inquérito telefônico do Ministério da Saúde, divulgados em janeiro de 2026 com base no IMC.
Na Inglaterra, onde o estudo foi conduzido, o dado mais recente da Health Survey for England (HSE) — levantamento anual oficial que monitora as condições de saúde da população — aponta uma prevalência de 66% em 2024.
"O Brasil vive uma epidemia silenciosa de obesidade, especialmente entre adultos jovens. É muito difícil dissociar obesidade de alimentação baseada em ultraprocessados e de sedentarismo, fatores que geralmente caminham juntos e se potencializam mutuamente", afirma o oncologista Carlos Gil Ferreira.
Ele lembra que há uma base biológica para essa relação. "Pacientes com obesidade e sobrepeso apresentam níveis elevados de insulina em circulação. A insulina é um potente hormônio indutor de crescimento e está relacionada, em alguns estudos, à inflamação crônica. A inflamação crônica, por sua vez, é um mecanismo já associado ao desenvolvimento de pelo menos 13 tipos de câncer", diz.
Ferreira acrescenta que o problema é agravado pelo contexto recente. "Quando somamos obesidade crescente, alimentação de baixa qualidade e sedentarismo que se aprofundou no período pós-pandemia, temos um cenário preocupante. Isso ressoa diretamente com o que observamos na prática clínica, tanto no setor público quanto no privado."
Para o médico Raphael Brandão, a obesidade funciona como um indicador de um problema mais amplo. No Brasil, segundo ele, ela costuma vir associada a um padrão alimentar baseado em ultraprocessados, cujos impactos vão além da questão calórica.
"O professor Carlos Monteiro, da USP, foi quem cunhou a classificação nova de alimentos ultraprocessados, e os dados dele mostram que estamos numa transição alimentar acelerada: não estamos só ficando mais obesos, estamos mudando radicalmente o que comemos."
"A diferença importa porque o ultraprocessado tem um efeito que parece ser independente do peso corporal. Outro estudo, publicado no periódico científico BMJ em 2018, mostrou associação entre consumo de ultraprocessados e câncer ajustada para IMC."
Segundo Brandão, pesquisas também vêm apontando possíveis mecanismos biológicos por trás disso, como alterações na microbiota intestinal e efeitos de aditivos alimentares sobre o metabolismo.
Embora as evidências em humanos ainda estejam em desenvolvimento, ele afirma que os sinais vêm se acumulando.
"Quando o estudo britânico diz que a obesidade pesa mais, no Brasil eu leria como: obesidade somada a uma exposição alimentar qualitativamente diferente, com efeitos combinados que ainda estamos aprendendo a separar."
Limites e o risco de alarmismo
Carlos Gil Ferreira alerta que os dados não podem ser lidos sem contexto: "Há risco de esse debate virar alarmismo, e ele precisa ser evitado. Câncer nesses tipos e nessa faixa etária ainda é raro; o que o estudo mostra é que esses cânceres podem estar se tornando menos raros. A distinção parece sutil, mas é fundamental para uma comunicação responsável", afirma.
Para ele, a mensagem que realmente importa é a prevenção. Em caso de sintomas persistentes — como sangue nas fezes, alteração do hábito intestinal, perda de peso sem explicação, dores persistentes, fadiga excessiva ou aparecimento de nódulos —, a orientação é procurar atendimento médico e não tentar interpretar sinais sozinho.
Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores são as chances de cura, em qualquer idade.
O especialista acrescenta que o Brasil ainda precisa construir uma estratégia mais específica para lidar com o aumento de câncer em adultos jovens.
"O estudo britânico é um ponto de partida importante, mas, no contexto brasileiro, ele reforça a necessidade de mais dados, mais investimento em registros nacionais e políticas públicas voltadas a essa faixa etária."
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