JUSTIÇA

'Nunca perdi a esperança', 'a paz retorna': familiares de vítimas do voo 447 reagem à condenação da Air France e da Airbus

As empreas foram condenadas por homicídio culposo (quando não há intenção de matar) após decisão da Justiça da França.

No dia 31 de maio de 2009, Adriana Francisca Van Sluys, de 40 anos, embarcou no voo 447 da Air France. Assessora de comunicação da Petrobras, a jornalista viajava a trabalho para a Coreia do Sul.

Mas ela nunca desembarcou no Aeroporto Charles de Gaulle, na capital francesa. O Airbus A330 em que viajava caiu, em meio a uma tempestade, quando fazia o trajeto entre o Rio de Janeiro e Paris. Adriana foi uma das 228 vítimas do voo 447 da Air France.

Quase 17 anos depois da tragédia, que matou 216 passageiros e 12 tripulantes, a Justiça francesa condenou por homicídio culposo (quando não há intenção de matar) a companhia aérea e a fabricante de aeronaves.

"Era uma decisão que aguardávamos ansiosamente desde 2023, quando as duas empresas foram inocentadas. Tínhamos todas as razões para crer na reversão daquela decisão absurda", afirma o administrador de hotelaria Maarten Van Sluys, de 66 anos, irmão de Adriana.

"No meu caso, nunca perdi a esperança. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, a justiça seria feita. Para isso, atuamos de forma resiliente e estratégica."

Quem também estava no voo 447 da Air France era a médica Bianca Machado Cotta, de 25 anos, e o marido, o procurador federal Carlos Eduardo Lopes de Mello, de 33. Recém-casados, estavam em viagem de lua de mel para a França.

Acervo pessoal
Renato Machado Cotta com a filha Bianca, uma das vítimas do acidente

"Recebi a notícia com serenidade. Sabia que, um dia, as evidências prevaleceriam. Como nada traria minha filha e meu genro de volta, continuei ao longo dos anos as pesquisas no tema que deflagrou o acidente. Esperava pelo momento de encerrar o ciclo do meu luto", afirma o engenheiro Renato Machado Cotta, de 66 anos, pai de Bianca.

"Agora que tudo foi esclarecido e adequadamente atribuído, a paz retorna em meu íntimo. Estou particularmente feliz pelas famílias dos pilotos."

Vice-presidente da Associação de Familiares das Vítimas do Voo Air France 447, Maarten declarou que ainda não está claro se cabe recurso. "Essa demanda judicial reabre feridas. Mas a vontade de lutar por nossos familiares supera todas as dores que sentimos a cada nova etapa."

"O recurso é um direito das empresas. Pelo que entendi, na Corte Suprema, não são reanalisadas as provas, mas o processo legal em si e a aplicação da lei. Talvez o tempo não se estenda tanto", pondera Renato.

A Air France e a Airbus foram condenadas a pagar, cada uma, uma multa de 225 mil euros, o equivalente hoje a cerca de R$ 1,3 milhão. Segundo Maarten, esse é o valor estabelecido pela Justiça francesa para essas situações.

"Muito além dos valores monetários, trata-se de uma questão moral", afirma Maarten. "Queremos acordar todas as manhãs sabendo e podendo dizer quem foram os culpados pela tragédia. Aliás, insisto em não chamar o que aconteceu de acidente. Foi um homicídio, como agora a Justiça determinou em sentença."

"O valor é simbólico, mas a condenação em si, não. Tanto que as empresas já se manifestaram quanto a intenção de recorrer. Efeitos econômicos colaterais devem ocorrer", acrescenta Renato.

Reuters
Queda do avião da Air France matou 228 pessoas em 2009

Dos 216 passageiros a bordo, 59 eram brasileiros

"Adriana era uma pessoa adorável. Era jornalista e defensora de causas humanitárias", descreve Maarten. "Caso eu estivesse naquele avião, ela faria tudo que fiz para conseguir justiça."

"Adriana viveu 40 anos bem vividos. Por onde andou, fez amigos e espalhou alegria. Todos os dias eu me lembro dela e a considero um farol para a busca de virtudes."

"A saudade é companheira no dia a dia, nem eu gostaria que fosse diferente", arremata Renato, o pai de Bianca. "Lembro de tudo, desde a primeira fralda até o seu lindo casamento, que eu não sabia que era uma despedida deles."

O Airbus A330 desapareceu dos radares durante uma tempestade, e seus destroços foram encontrados após uma longa busca em uma área de 10 mil quilômetros quadrados do fundo do mar. A caixa preta foi encontrada após meses de buscas em alto mar, em 2011.

Todos os 12 tripulantes e 216 passageiros a bordo morreram quando o avião caiu no mar de uma altura de 11.580 metros — tornando-se o acidente mais mortal da história da aviação francesa.

Durante as alegações finais do julgamento em novembro, os promotores afirmaram que o comportamento das empresas havia sido "inaceitável", acusando-as de "proferir absurdos e inventar argumentos".

Tanto a Airbus quanto a Air France negaram repetidamente as acusações, e analistas jurídicos acreditam que elas vão recorrer novamente.

A BBC entrou em contato com a Airbus e a Air France em busca de uma manifestação das empresas.

O acidente aéreo desencadeou uma complexa operação de resgate em uma área remota do Oceano Atlântico, a mais de 1.127 km da costa da América do Sul.

Durante as buscas iniciais, o governo francês ficou responsável pela investigação do acidente, enquanto as forças brasileiras assumiram a responsabilidade pela recuperação dos corpos.

Nos primeiros 26 dias de buscas, 51 corpos foram recuperados, muitos ainda presos aos cintos de segurança.

O pai de uma das vítimas disse à BBC News Brasil em 2019 que só conseguiu enterrar os restos mortais do filho mais de dois anos após o acidente. Seu filho, Nelson Marinho Filho, um engenheiro de 40 anos, quase perdeu o voo que partiu do Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, e foi o último a embarcar, segundo funcionários da Air France.

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