Notícias

Fim da escala 6x1 com transição curta 'é inviável', diz dono de pizzaria: 'Como eu faço para ter um chef em 60 dias?'

Wesley Moreira diz que 'tema não é de todo ruim', mas que o momento é especialmente desafiador devido à dificuldade para contratar; proposta que pode reduzir a jornada de trabalho ainda este ano passou na Câmara e agora será analisada no Senado

Proprietário da cantina e pizzaria Don Romano, com três unidades em Brasília, o empresário Wesley Moreira diz que "não está acreditando" no prazo de 60 dias estabelecido para o fim da escala 6x1, como prevê a proposta aprovada na Câmara dos Deputados. Segundo ele, é "inviável" adaptar seu negócio em um "prazo tão curto".

A proposta ainda será analisada no Senado e só entrará em vigor se for aprovada pelos senadores com texto idêntico ao da Câmara.

A versão que teve aval dos deputados prevê a obrigatoriedade de dois dias de folga para todos os funcionários 60 dias após a promulgação da mudança, etapa que ocorre logo após a aprovação do Congresso. O mesmo período é previsto para a redução da jornada de trabalho de 44 para 42 horas semanais. Depois de mais um ano, a jornada cairia para 40 horas.

Moreira diz que o "tema não é de todo ruim", pois "o empresário busca a melhor condição de vida de seu colaborador", mas argumenta que o momento é especialmente desafiador devido à dificuldade para contratar, que ele a atribui a fatores como rígidas regras trabalhistas e ao "assistencialismo".

Na sua percepção, beneficiários de programas sociais evitam trabalhos com vínculo formal para não perder o benefício. Ele diz que desde janeiro tenta ampliar os empregados das três unidades, para se antecipar a esperada redução de jornada pelo Congresso, mas não tem conseguido preencher as vagas.

Para manter as três unidades funcionando sete dias por semana, como é hoje, é preciso contratar mais 21 funcionários, um aumento de 28% — atualmente, são 74 empregados com carteira assinada.

"Eu até agora não estou acreditando. Como eu faço para ter um chef de pizzaria em 60 dias, que faz a fermentação da massa? Ou um subchef, que controla a ordem dos fatiamentos dos produtos da pizza, controla o sabor do molho? É inviável [esse prazo para] a técnica de gastronomia", crítica.

"Estou nesse desespero porque tem coisa que a máquina não vai substituir. Se eu estou assim, fico pensando para o pessoal hospitalar. Como que arruma outro médico, outra técnica de enfermagem?", continua.

Para Moreira, que também atua como diretor da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no Distrito Federal, o fim da escala 6x1 vai pressionar os custos de produção, ampliar o endividamento das pequenas empresas e causar uma onda de fechamento de negócios.

Estimativas do setor indicam que a contratação de mais profissionais vai provocar, em média, um reajuste de 8,5% nos preços.

Mas, além dos gastos maiores com contratação, diz Moreira, muitos negócios terão aumento de custos por causa de fornecedores que também terão que ampliar o quadro de funcionários.

Ele calcula que isso pode elevar em mais 20% o preço final de restaurantes, caso as empresas tentem manter sua margem de lucro.

"Como é que consegue pagar 30% a mais em um hambúrguer, R$ 50 para R$ 65? Até consegue, mas aí você [o cliente] vai querer aumentar o preço do seu serviço também".

No setor de alimentação, prevê, fornecedores de itens como carnes e queijos serão afetados.

Na sua visão, o problema é mais grave para empresas que têm até 10 colaboradores, pois grandes redes conseguem absorver melhor a alta de custos e têm mais capacidade de negociar com fornecedores repasses menores, o que não seria o caso dos negócios menores.

"As redes maiores vão segurar preço através de negociação. Só que o pequeno, quando ele falar isso pro fornecedor dele, vai receber uma fala assim 'amigão, sinto lhe informar, mas eu não consigo te atender porque você compra menos de meio por cento do que eu vendo no mês".

"Esse cara vai perder esse fornecedor, vai buscar outro, vai estar mais caro, vai só se endividar, vai ter fechamento de empresas, mais demissões", acredita.

Reprodução
Moreira critica folga preferencialmente aos domingos, dia do seu maior faturamento

Moreira também critica a previsão do texto aprovado na Câmara para que uma das duas folgas seja garantida "preferencialmente" aos domingos.

Ele diz que é tradição comer pizza aos domingos, dia que representa 20% do seu faturamento.

"É tradicional, isso vem da cultura italiana: ir à missa e comer pizza. Aí tem a folga no domingo, que é o maior dia do meu maior faturamento. Como é que eu vou fazer? E como vai ser no feriado?", questiona.

A campanha pelo fim da escala 6x1 ganhou força com a mobilização de trabalhadores, por meio do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), liderado pelo balconista de farmácia Rick Azevedo, depois eleito vereador no Rio de Janeiro pelo PSOL.

Inicialmente, foi impulsionada no Congresso pelos deputados Erika Hilton (PSOL-SP) e Reginaldo Lopes (PT/MG). Apenas depois, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) adotou a proposta como bandeira eleitoral, com apoio do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).

Resistência à redução da jornada não é unânime entre empresários

A visão de Moreira é predominante no setor produtivo. Entidades como a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e a Confederação Nacional do Comércio (CNC) tentam evitar que o fim da escala 6x1 seja aprovado neste ano no Congresso e tentam ampliar o prazo de transição no Senado.

Caso o texto seja aprovado com alterações em relação à versão aprovada pelos deputados, a proposta voltaria à Câmara.

Por ser uma proposta de emenda à Constituição (PEC), mudança tem que ser aprovada com texto idêntico nas duas Casas legislativas, em dois turnos, com apoio de ao menos 3/5 dos parlamentares em cada uma delas.

Embora predominante, a visão de que o fim da escala 6x1 traz, necessariamente, impactos negativos para as empresas não é unânime.

Ao jornal Folha de S.Paulo, o empresário Jerônimo Bocayuva, sócio da rede de restaurantes de culinária oriental Gurumê, diz que a adoação da escala 5x2 em algumas das dez unidades da rede está sendo bem avaliada.

A intenção é que as dez unidades, localizadas em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, passem a funcionar com duas folgas para os funcionários.

"No primeiro mês, foi difícil acertar a escala, sobre quantas pessoas eu teria de ter exatamente a cada hora do dia, então tivemos algumas dificuldades. Mas, depois a gente conseguiu acertar as escalas e o turnover [rotatividade] diminuiu 30%. E a satisfação da equipe com essa escala foi de 100%. Todo mundo é favorável", disse ao jornal, ressaltando ser contra a imposição do fim da escala 6x1 no Brasil.

Já a empresária Isabela Raposeiras, dona do Coffee Lab e consultora do setor de varejo de alimentos e bebidas, se tornou uma das porta-vozes contra a escala 6x1.

As duas cafeterias que possui em São Paulo já migraram da escala 5x2 para a 4x3, garantindo três dias de folga semanais. Por outro lado, nos 4 dias de trabalho, os funcionários fazem jornadas mais longas.

Em depoimento à comissão especial que tratou do tema na Câmara dos Deputados, Raposeiras disse que a redução da jornada não gera custos extras, porque novas contratações são compensadas com ganhos de produtividade e menos custos com ausências e rotatividade de funcionário .

"O custo de faltas, atestados, ausências é enorme, inclusive porque o trabalhador está adoecendo. As empresas já estão trabalhando com uma produtividade muito baixa", argumentou.

"A partir do momento em que a gente dá uma escala mais humana, a gente, por muitos dados, consegue diminuir os custos de ausência e de rotatividade que qualquer empresário sabe que são altíssimos financeiramente.

Para Wesley Moreira, não é possível tomar a experiência do Coffe Lab como referência para todo o setor.

"A gastronomia é muito ampla. Não dá pra ela querer impor [a todos] o que ela tem no restaurante dela, em áreas nobres, com ticket médio maior. Como é que vai encaixar isso com o pequeno empresário?", continuou.

"Eu não sou contra a pessoa ter uma escala quatro por três, cinco por dois, devido à necessidade de cada empresa e da relação com seus colaboradores. O grande problema é que é uma imposição e um aumento de custo, não é nem num período curto, pois, quando a gente fala em empreendedorismo, período curto é um período de um ano", continuou.

Mais Lidas