No dia do atentado contra o pré-candidato à presidência da Colômbia Miguel Uribe Turbay (1986-2025), uma figura em ascensão da direita com apenas 39 anos, os colombianos tiveram um déjà vu.
"Voltamos ao passado", pensaram muitos.
A morte de Uribe dois meses depois do atentado, em agosto de 2025, foi um balde de água fria para uma nação que parecia ter superado os piores momentos da guerra, nos anos 1980 e 1990. Naquela época, os assassinatos por motivos políticos, bombas e sequestros eram rotineiros.
A Colômbia não enfrenta mais um conflito armado que ameace sua democracia, nem índices de homicídio que façam do país o mais violento do mundo, como ocorria 30 anos atrás.
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Mesmo com seus problemas, a assinatura do acordo de paz entre o Estado e a maior guerrilha da época (as Farc, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), em 2016, trouxe uma evolução. Era o início de uma nova etapa, em que assuntos como aposentadorias, desigualdade ou meio ambiente passaram a liderar o ranking de prioridades.
Em 2022, após protestos sociais que evidenciaram a vontade de mudanças, o ex-guerrilheiro Gustavo Petro foi eleito presidente.
Foi a primeira vez em dois séculos em que um movimento popular de esquerda chegou ao poder no país. E algumas pessoas talvez tenham pensado que o país havia virado a página da violência.
Mas não foi o que aconteceu.
Durante os quatro anos do seu mandato, Petro quis negociar a desmobilização dos diversos grupos armados que ainda operam na Colômbia. Ele chamou esta ambiciosa iniciativa de "Paz Total".
Seu objetivo era pactuar acordos com todos, apesar das notáveis diferenças entre as partes: narcotraficantes, praticantes de extorsões, ex-guerrilheiros, ex-paramilitares e inúmeras outras classes que se agrupam de forma caótica.
A violência diminuiu na Colômbia após 2016, mas não foi eliminada. Ela se transformou e se fragmentou, ficando desordenada.
A Promotoria colombiana atribui a autoria intelectual do assassinato de Uribe Turbay a uma das dissidências das Farc, chamada Segunda Marquetalia.
O crime não é o tema mais presente na campanha presidencial, mas, observando agora, às vésperas das eleições deste domingo (31/5), ele definiu o tom da disputa.
Os colombianos parecem ser movidos pelo medo, mais do que por qualquer outro aspecto. A insegurança voltou a ser o tema mais preocupante frente à eleição, segundo diversas pesquisas.
Mais que um debate de ideias, a campanha eleitoral foi uma avalanche de acusações sobre os perigos letais representados por cada oponente.
A Colômbia enfrenta dificuldades para virar a página da violência.
Campanha marcada por confrontos
A melhor prova disso talvez seja o perfil e o discurso apresentados pelos candidatos dispostos a vencer ou passar para o segundo turno, que, se ocorrer, será disputado no dia 21 de junho.
Todos eles denunciaram terem sido ameaçados durante a campanha.
A Defensoria Pública emitiu alertas sobre o proselitismo armado por parte de grupos ilegais que buscam condicionar o voto das comunidades e limitar a liberdade dos eleitores.
Nenhum dos candidatos, segundo os especialistas consultados, parece ter uma receita convincente para resolver o problema da violência.
O candidato do governo, Iván Cepeda, é um veterano congressista. Ele fez carreira como representante das vítimas e pela busca de soluções pacíficas para a violência.
Cepeda é um dos autores da iniciativa Paz Total. Sua carreira foi marcada pelo assassinato do seu pai, um dirigente comunista, em 1994.
Simbolicamente, ele é a antítese do ex-presidente Álvaro Uribe, que encurralou as guerrilhas com pulso firme entre 2002 e 2010.
Para alguns, Cepeda na presidência representaria um crédito histórico para as vítimas. Mas, para outros, seria a consolidação de um regime comunista, que ofereceria concessões aos criminosos.
Outra candidata é Paloma Valencia. Ela faz parte de uma família poderosa, herdeira de uma classe política que, para muitos, é responsável pela perseguição política à esquerda. Valencia é a candidata de Uribe, seu "padrinho político".
Enquanto alguns a consideram uma opção para retornar à ordem, após o "caos" do governo Petro, para outros seu eventual governo reeditaria, por exemplo, os "falsos positivos" — as execuções extrajudiciais de civis delatados como guerrilheiros.
Existe também um terceiro candidato que é inovador e tem possibilidades de vencer.
O advogado Abelardo de la Espriella defendeu criminosos e políticos polêmicos. Ele apela à população cética sobre as instituições e interessada em soluções de efeito, sobretudo homens idosos.
Alguns o consideram uma solução definitiva, com sua política de "mão forte", mas outros acreditam que sua eleição seria o fim do Estado de direito.
Com isso, os colombianos irão às urnas com diversas opções. Cada uma delas representa uma maneira diferente de observar o problema da insegurança e da violência, ou uma forma de ver o país.
As opções de centro, como as candidaturas de Sergio Fajardo e Claudia López, têm poucas chances de vitória, o que demonstra que os colombianos não estão interessados em visões mais moderadas.
Aparentemente, o medo os leva a pensar que são necessárias posturas contundentes.
A transformação da violência
A violência na Colômbia, atualmente, é menor que no passado. Mas suas causas são mais diversas e regionais.
Por isso, cada tipo de conflito precisa de uma solução específica, local e contextualizada.
Chegar a um acordo com a maior e mais antiga guerrilha colombiana foi um processo complexo. Foram necessários 10 anos e seus resultados são incertos.
Mas é provável que encontrar soluções para os diversos grupos armados que preencheram os espaços vazios deixados pela antiga guerrilha seja ainda mais difícil.
A diretora da Fundação Ideias para a Paz (FIP), María Victoria Llorente, explica que, na última década, o cenário colombiano "se mexicanizou", ou seja, "proliferaram grupos armados sem causa política, interessados na governança criminosa de territórios estratégicos".
Existe entre os especialistas um debate técnico e político crucial, se a transformação e o aumento da violência nos últimos quatro anos foram causados pela Paz Total.
Esta tendência surgiu durante o governo anterior, do ex-presidente Iván Duque (2018-2022). Mas os analistas concordam que os problemas da Paz Total levaram ao fortalecimento dos grupos armados.
Segundo a FIP, por exemplo, o Clã do Golfo (o maior grupo armado colombiano na atualidade) passou de 4 mil integrantes em 2022 para quase 10 mil em 2025, mesmo com os ataques sofridos dos militares.
"Não houve linhas vermelhas pré-estabelecidas", segundo o diretor do centro de estudos Conflict Responses, Kyle Johnson. "As mesas de diálogo não impuseram limites, nem consequências aos grupos, e ofereceram a eles ampla margem no território."
O diretor do Centro de Recursos para Análise de Conflitos (Cerac), Jorge Restrepo, destaca que "o governo concedeu vontade de paz a grupos criminosos que, por definição, não a têm".
Pesquisas indicam que 10 a 20% dos colombianos acreditam que a Paz Total está bem encaminhada, enquanto 60 a 70% sentem mais insegurança com esta política.
Os colombianos consideram a segurança como prioridade. Eles responsabilizam Petro, em parte, pela insegurança atual, mas Cepeda, um dos precursores da Paz Total, é o favorito para vencer as eleições.
Isso ocorre, parcialmente, porque muitos colombianos não culpam Petro pela falta de segurança, mas seus antecessores.
Eles dão mais importância aos avanços sociais e comemoram medidas que buscaram resolver as causas da violência, como a entrega de terras aos pequenos agricultores, a redução da pobreza e a reparação às vítimas.
O efeito sobre as eleições
Acrescente-se à situação, com sua multiplicidade de elementos de difícil entendimento e solução, que o crime comum nas cidades continua sendo um problema para a maioria das pessoas.
O economista Gustavo Duncan, especialista em conflitos e autor de vários livros sobre o tema, afirma que "a violência mudou e é muito menor do que antes, mas as pessoas se preocupam principalmente com a criminalidade local e as extorsões".
O Cerac indica que 70% dos homicídios (que apresentaram leve aumento durante o mandato de Gustavo Petro) são produzidos por enfrentamentos entre criminosos. As extorsões aumentaram cinco vezes e os sequestros triplicaram.
"As pessoas não associam a Paz Total à insegurança diária porque entendem que o grupo que pratica extorsão no seu bairro não é o mesmo que dialoga com o governo", explica Restrepo.
Para o cientista político Juan Fernando Giraldo, diretor do centro de estudos Clarity, "o fato de Cepeda estar em vantagem demonstra que a Paz Total não é um ponto importante para seus eleitores [...] Não está em jogo a competência para governar, mas a capacidade de representar a identidade política e de classe."
A segurança é um dos principais temas de todos os candidatos.
Cepeda propõe a continuidade da Paz Total, mas fortalecendo a transformação social de cada região afetada. Valencia espera fortalecer o exército para recuperar o território controlado pelo Estado, em uma reedição da Segurança Democrática de Uribe.
E De la Espriella, que se apresenta nos comícios com colete à prova de balas e vidro blindado, quer construir prisões, usar inteligência e interromper os diálogos com os grupos que descumprirem os acordos. Sua receita traz o estilo do presidente de El Salvador, Nayib Bukele.
Para os analistas consultados, que representam diferentes afiliações políticas, o consenso é que nenhum dos candidatos está elaborando novas fórmulas para tratar de problemas novos.
Jorge Restrepo afirma que "nenhum dos três traz a possibilidade de que a Colômbia venha a ser um país mais seguro nos próximos quatro anos".
Gustavo Duncan destaca que "nenhum dos candidatos propõe mudanças da doutrina de segurança, um exército pós-conflito que saiba enfrentar os novos grupos existentes". E Kyle Johnson ressalta que "as estratégias são as mesmas de sempre, aquelas que sabemos que não funcionam".
A violência na Colômbia se transformou, mas a forma como os políticos tentam reduzi-la é a mesma.
"Eles estão misturando cenários", segundo María Victoria Llorente.
"Em uma campanha de medo, você tem uma parte do país [a esquerda] com medo que retorne a perseguição política de antes; outra parte [a direita] com medo que acabe a propriedade privada e nos transformemos na Venezuela; e a outra parte com medo de sofrer um assalto na esquina de casa."
"Todos são receios genuínos, mas nenhum deles representa a realidade como um todo. Temos a violência política muito recente, o assassinato de Miguel Uribe despertou um fantasma e lemos o que acontece com esses olhos", conclui ele.
A Colômbia mudou mais do que a mentalidade dos colombianos.
A ferida da violência está aberta e é com ela que será eleito o próximo presidente do país.
Gráfico interativo de Laís Alegretti e Caroline Souza, da Equipe de Jornalismo Visual da BBC News Mundo e da BBC News Brasil.
