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Haddad defende a 'taxa das blusinhas' mesmo após recuo de Lula: 'Eu não mudei de opinião'

Em pré-campanha para o governo de São Paulo, ex-ministro da Fazenda afirma que imposto sobre os importados continua sendo cobrado pelos Estados, defende a possibilidade de prévia no PT para o sucessor de Lula e educação financeira para a população.

O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT-SP) está em uma difícil campanha para o governo do Estado de São Paulo, mas, fiel a seu estilo e orgulhoso de sua coerência, não teme seguir abraçando um tema impopular como a chamada "taxa das blusinhas", a cobrança de imposto federal sobre compras internacionais de até US$ 50.

Fazia poucos dias que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha dito, no programa Sem Censura, da TV Brasil, que Haddad acreditava que a taxa, criada em 2024 e revogada agora em ano eleitoral, "realmente era uma coisa boa", "para proteger a indústria nacional", e que havia transmitido a ele essa "convicção".

Haddad tinha errado na avaliação lá atrás, então? "Não mudei de opinião", disse ele em entrevista à BBC News Brasil nesta quarta-feira (27/5).

"Uma loja aberta não pode pagar mais imposto do que uma loja virtual", diz, em consonância com a Confederação Nacional da Indústria (CNI) — que afirmou, em abril, quando a medida ainda estava valendo, que foram preservados 135 mil empregos graças a ela — e com os governos estaduais, que mantiveram os impostos estaduais, o ICMS, sobre essas compras internacionais.

"Os governadores estão cobrando taxa de blusinha e ninguém vai perguntar para o Tarcísio [de Freitas, governador de São Paulo] se ele é contra ou a favor do ICMS que ele está cobrando."

A mira contra o Tarcísio de Freitas (Republicanos) se repetiria muitas vezes na entrevista por motivos óbvios. Haddad quer convencer o eleitor de que é capaz de entregar um governo melhor que o do adversário em áreas como segurança, por exemplo.

Segundo levantamento realizado pela Quaest e divulgado no fim de abril, Tarcísio tem até 38% das intenções de voto para a reeleição, e Haddad, até 26%, dependendo do cenário, uma disputa considerada dificil.

Embora o período oficial de campanha não tenha começado, Haddad já está em campo, viajando pelo interior e visitando especialmente universidades.

Ainda não há definição sobre quem será candidato a vice na chapa do petista, algo que ele afirma que deve ser decidido "até dia 10, 15 de junho".

Outro assunto ainda está para ser decidido, segundo ele, é de que forma o PT fará sua grande sucessão, uma vez que é provável que 2026 seja a última disputa eleitoral presidencial de que Lula participa.

Haddad é o único petista que já disputou uma eleição presidencial além de Lula e da ex-presidente Dilma Rousseff. Em 2018, quando o atual presidente estava preso, Haddad perdeu para Jair Bolsonaro (PL).

"Não dá para planejar desse jeito", disse, ao ser perguntado se está preparado para receber o bastão de Lula. "Tem muita coisa para acontecer no Brasil."

Mas, no fim, levanta uma possibilidade. "Imagina se tiver uma prévia no PT? Seria o máximo."

O partido tradicionalmente realiza votações internas com seus filiados para decidir quem disputará governos municipais e, mais raramente, estaduais.

Nos 46 anos de história do PT, houve eleição prévia para presidente uma única vez, em 2002, quando o hoje deputado estadual Eduardo Suplicy manteve sua pré-candidatura e forçou eleições internas. Lula venceu com 84% dos votos contra 15% de Suplicy, sendo depois eleito presidente, pela primeira vez, naquele ano.

"Eu acredito que, se tivesse uma prévia no PT — e estou te respondendo assim porque nem sei se vai ter —, poderia ser um negócio muito bonito", disse Haddad.

Leia os principais trechos da entrevista.

Evaristo Sa / AFP via Getty Images

BBC News Brasil - Estamos quase em junho e três pessoas ainda disputam a candidatura ao Senado em São Paulo, no campo da centro-esquerda: Simone Tebet, Marina Silva e Marcio França. O que falta para decidir? Falta a palavra de quem?

Fernando Haddad - Eu vejo com uma certa naturalidade essa situação, até porque, se você for ver do outro lado, também tem mais de dois candidatos. E é natural que haja um processo de decantação. Nós estamos falando de três pessoas com uma trajetória incrível.

Simone foi prefeita da cidade dela, senadora da República, ministra do Planejamento, Márcio França foi governador de São Paulo, ministro da Micro e Pequena Empresa, de Portos e Aeroportos. A Marina tem uma trajetória internacional incrível, foi senadora da República, candidata a presidente.

Nós estamos falando de três pessoas muito valorosas e é normal que isso aconteça. Imaginar que, arbitrariamente, alguém vai decidir uma composição em uma conversa... O presidente Lula está muito envolvido no tema, mas ninguém está preocupado porque é um problema bom para resolver. Seria ruim se ele não tivesse figuras de tanta expressão política como eles são.

BBC News Brasil - Mas esse impasse envolve também a discussão do seu vice, por exemplo. Qual seria uma chapa dos sonhos?

Haddad - Eu não vou dizer isso pelo seguinte: eu não quero arbitrar, não quero ser parte de uma atitude desrespeitosa em relação a nenhum dos três. São meus colegas de ministério, são parceiros, são amigos, além de termos uma visão de mundo comum em relação à democracia, à justiça social.

São pessoas de altíssima respeitabilidade e sobre as quais não paira dúvida sobre conduta ética.

BBC News Brasil – Mas a campanha já começou, não?

Haddad - Até dia dez, dia 15 de junho, a gente resolve. Eu fui resolver isso em 2022, era final de julho.

Nós vamos resolver muito antes do que resolvemos em 2022, na minha opinião.

BBC News Brasil – Agora falando da sua pré-candidatura ao governo de São Paulo: por que um produtor de Barretos ou de Jaguariúna deveria votar no senhor e não no Tarcísio?

Haddad - Infelizmente, eu me deparei com uma realidade em São Paulo que eu não esperava. Eu discuti longamente com o presidente [Lula] qual deveria ser minha função em 2026. Inicialmente, nós divergimos sobre o que seria o melhor a fazer.

E uma das razões pelas quais eu topei foi que ele começou a me expor o que estava se passando em São Paulo, pelos dados que ele recebia. Efetivamente, nós estamos diante de um governo muito precário, em várias áreas.

Na área de finanças, como há muito tempo não se vê. O crescimento do Estado é medíocre. No ano passado, São Paulo ficou para trás num patamar inaceitável. A situação das escolas públicas paulistas é muito precária.

O que se tornou a Sabesp é um escândalo. Desde o começo, foi tudo mal feito: a venda de uma das maiores companhias de saneamento do mundo com um único interessado, aquela venda de ações, a chamada segunda tranche, a preços muito abaixo do mercado, o envolvimento do complexo [do Banco] Master na compra da Emae [Empresa Metropolitana de Águas e Energia], depois na compra de títulos de CDBs do próprio Banco Master... Tudo muito mal explicado. A própria doação de campanha [de R$ 2 milhões feita à campanha de Tarcísio de Freitas em 2022 por Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e também preso no âmbito das investigações do Banco Master]...

Sergio Lima / AFP via Getty Images
Marina Silva (Rede) disputa a candidatura ao Senado da centro-esquerda em São Paulo

[Nota da redação: Em julho de 2024, o governo de São Paulo vendeu cerca de 32% das ações da Sabesp na bolsa, passando o comando à privada Equatorial. Paralelamente, o governo estadual também privatizou a Emae em abril de 2024, vendendo o controle ao fundo Phoenix, cujo principal investidor apontado pela imprensa é o empresário Nelson Tanure, apontado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal como sócio oculto do Banco Master. Pouco mais de um ano depois, já privatizada, a própria Sabesp comprou cerca de 70% da EMAE.

Procurada, a Sabesp afirmou que a desestatização seguiu a lei e foi conduzida com transparência. Destacou que a Justiça de São Paulo julgou improcedente a ação que questionava a venda de ações. Disse ainda que a compra da EMAE atende a critérios técnicos e classifica de "leviana e irresponsável" qualquer ligação com o caso Master.]

Rovena Rosa/Agência Brasil
A Sabesp foi privatizada em 2024, com uma cerimônia na B3, tendo a maior parte das suas ações sendo vendidas para a Equatorial

BBC News Brasil - Mas tudo isso chega na realidade do produtor de Barretos?

Haddad – Não, na realidade do produtor de Barretos chega que nós estamos no terceiro recorde de produção agrícola da história do Brasil, porque o Ministério da Fazenda fez os três maiores Planos Safra da história.

Nunca o agro foi tão atendido por um governo. Aliás, não é a primeira vez que o presidente Lula faz isso. Quantos mercados nós abrimos para os produtos de São Paulo? Quantos mercados o Bolsonaro e Tarcísio abriram? Nenhum.

Como foi o enfrentamento do tarifaço do Trump? Como nós lidamos com o suco de laranja, com a carne? Com os produtos de São Paulo que são vendidos fora, com o café?

Enquanto Eduardo Bolsonaro estava do lado dos Estados Unidos, defendendo a retaliação ao Brasil em virtude do julgamento do pai, nós estávamos lutando pelos interesses nacionais.

Aí me aparece o Tarcísio dizendo "vamos entregar alguma coisa para satisfazer o presidente americano". E nós ali, muito sobriamente, com a melhor diplomacia do mundo, ganhando o terreno nas negociações até a rendição dos Estados Unidos.

Se deixar o preconceito de lado, se a pessoa se debruçar sobre números, sobre política pública, inclusive sobre o desbaratamento dessas quadrilhas todas que a nossa Polícia Federal está fazendo... O caso Master é todo ligado ao bolsonarismo. Quatro ex-ministros do Bolsonaro envolvidos, o presidente do Banco Central do Bolsonaro [Roberto Campos Neto] foi totalmente leniente com a escalada de emissões de CDBs impagáveis.

Qualquer criança sabe que aquilo era insustentável e o BC do Bolsonaro soltando a rédea para o banco crescer.

É a maior fraude bancária da história. E poderia ter sido evitada com muita facilidade. Corromperam diretores do Banco Central que hoje estão com tornozeleira eletrônica. Quando você vai imaginar um diretor do Banco Central ser corrompido?

Falta ali, uma boa apuração, que não será feita, na minha opinião, infelizmente.

BBC News Brasil – Não?

Haddad - Acho que o foco está fora do BC, e na minha opinião o foco deveria ser o BC. O que aconteceu para um Banco Central, qualquer que seja, não só ser corrompido, mas não ter mecanismo de reação?

Foram feitas várias reuniões de alerta com o Roberto Campos Neto e com o diretor da área. Houve muitos alertas feitos pela Febraban [Federação Brasileira de Bancos], grandes bancos, FGC, e esses alertas foram ignorados.

A minha equipe do Tesouro descobriu em duas semanas, sendo que não é competência do Tesouro ver isso, algo que o Banco Central não viu em seis anos.

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PT só teve eleições prévias para presidente em 2022, quando seus filiados escolheram Lula, que concorreu com Eduardo Suplicy

BBC News Brasil - O senhor acabou de lançar um livro que trata das classes sociais e relações de trabalho. O governo não conseguiu aprovar um projeto para regulamentar a situação dos entregadores de aplicativo, encontrando resistência, inclusive, da própria categoria. O PT perdeu a linguagem de falar com essa classe trabalhadora, o precariado, como o senhor diz no seu livro?

Haddad – O PT é um partido da classe operária tradicional, chão de fábrica, nascido no ABC industrializado...

É muito interessante que a tua pergunta tenha sido precedida de um comentário sobre o meu livro, porque um dos recados do meu livro é o seguinte: não existe uma classe social que represente os interesses de toda a humanidade, como se pensou no século 19.

O marxismo, por exemplo, pensava que a classe operária era portadora dos interesses emancipatórios de toda a humanidade.

Hoje você tem, dentre os não proprietários do meio de produção, um conjunto de cientistas e técnicos e programadores e formuladores que são contratados pelo capital como força criativa. Você tem o velho proletariado, que é contratado como força produtiva, e você tem muita força destrutiva das relações e da proteção social.

Um partido que se pretenda representante de um projeto emancipatório, com uma dimensão utópica, um horizonte mais generoso, tem que partir do pressuposto de que isso mudou e ele tem que se abrir para esses novos segmentos sociais.

BBC News Brasil - O PT está aberto a esses novos segmentos?

Haddad - Eu acredito que está, pelo fato de ter voltado ao poder agora e ter se deparado com uma realidade muito diferente da sua origem.

Por exemplo, a última iniciativa teve uma adesão da categoria muito legal, a ponto de subirem no palanque para defender o presidente.

[Nota da redação: O governo Lula anunciou neste mês uma nova linha de crédito de R$ 30 bilhões para motoristas de aplicativo e taxistas comprarem veículos]

Nós estamos tateando. Não tenho a menor dúvida de que o PT quer entender essa categoria, ajudar. E não vai aparecer um [outro] partido, na minha opinião, com essa preocupação. Só que o PT precisa dominar uma tecnologia que ele não domina hoje. Ele precisa aprender.

A melhor coisa que nós podemos fazer é aprender com esses novos atores, chamados na literatura de precariado, que são essas pessoas que não têm relações estabelecidas de uma maneira tradicional, são novas relações que estão surgindo de vínculo de trabalho e que não têm a cabeça do proletariado tradicional.

Se eles não forem convidados a participar da política, não vão construir uma visão de sociedade mais interessante.

BBC News Brasil - Críticos dizem que a segurança pública é um dos calcanhares de Aquiles da esquerda. Ceará e a Bahia têm índices muito ruins nessa área. E São Paulo é um Estado totalmente infiltrado pelo crime organizado, de acordo com os próprias autoridades. Se o senhor for eleito, qual seria a medida número um 1 para a segurança pública?

Haddad - Eu comecei a ouvir muito as pessoas para entender quais são as prioridades do Estado. E o que eu posso te assegurar é que a segurança pública vai estar no alto das minhas prioridades. E eu vou dizer, nas próximas semanas, o que eu vou fazer, com começo, meio e fim.

Eu já tenho um plano muito adiantado de segurança pública que faz um balanço crítico da atual gestão, que desmontou uma série de mecanismos e não colocou nada no lugar.

Meu plano de trabalho tem uma dimensão que é o andar de cima, que é muito desassistido pelo governador.

São Paulo tem uma deficiência muito grande no combate ao andar de cima. Modéstia à parte, eu acho que aprendi muito com a Receita Federal atual, que começou a desbaratar os grandes esquemas de corrupção, que foram desbaratados pelo governo federal, Polícia Federal, Receita Federal e Coaf [Conselho de Controle de Atividades Financeiras].

BBC News Brasil – O senhor já pensa em nomes para uma eventual secretaria?

Haddad - Eu diria para você que eu já até tenho nome. Mas não posso dar pista nenhuma ainda. Talvez eu antecipe o lançamento do plano de segurança, porque, como vai ser uma prioridade absoluta, talvez eu antecipe o anúncio dele.

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O governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) lidera as pesquisas para a reeleição no Estado

BBC News Brasil - Acha que o Brasil caminha para ser um narcoestado?

Haddad - Se a gente não fizer nada...

Uma das coisas mais erradas que o Tarcísio fez foi boicotar a PEC de Segurança Pública do presidente Lula.

O constituinte de 88 falhou no capítulo sobre segurança pública, porque só tem um artigo ali na Constituição, o 144. E nada mudou de 88 para cá. O presidente Lula foi o único presidente que teve a coragem de reconhecer que a Constituição tem uma falha genética, que ele queria corrigir.

O objetivo da PEC era fazer da cooperação entre os órgãos de inteligência a regra, e não a exceção. Compartilhamento de dados, compartilhamento de informações, acesso a sistemas de informação, isso tem que ser a regra, senão você não combate crime nenhum.

[Tarcísio] manda o secretário da Segurança Pública [deputado federal e ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite (PP-SP)] desfigurar a Lei Antifacção justamente no capítulo da cooperação, que era o mais importante, eu diria. Todo o resto era mais do mesmo. Mas o eixo da ação é a cooperação, não pode ser outro. Porque o crime está organizado e o Estado não. É isso que está acontecendo.

O que o presidente Lula fez foi de muita coragem. Tanto é que ele não criou o Ministério da Segurança Pública porque o ministro da Segurança vai fazer o quê se ele não tiver os dados? Se ele não tiver uma inteligência?

O PCC, que nasceu e cresceu em São Paulo, está internacional hoje.

[Procurado, Derrite disse, por meio de nota, que "Haddad entende tanto de segurança pública quanto entende de economia: absolutamente nada" e que mudou o PL Antifacção pra "para torná-lo o mais duro já debatido no Congresso".]

BBC News Brasil - O PCC cresceu durante o governo de Geraldo Alckmin (PSB) em São Paulo. Ele falhou nisso?

Haddad - Nós não tínhamos um diagnóstico preciso sobre por qual razão a segurança pública não andava bem no Brasil. Foi isso que o governo Lula fez. O diagnóstico não anda por falta de integração, então vamos fazer uma PEC para integrar.

BBC News Brasil – Sim, mas que o crime organizado estava avançando, esse diagnóstico já existia há muito.

Haddad - Mas qual era o antídoto para isso? Com essa experiência que nós acumulamos, eu estou muito seguro de que se eu for eleito governador, eu vou fazer o oposto do que o Tarcísio fez, que é buscar a cooperação com a Polícia Federal, com a Receita Federal, com o Coaf, entregar informações, receber informações, montar um núcleo duro de combate ao crime organizado. O governo de São Paulo não realiza essa cooperação.

BBC News Brasil - Analistas consideram que a gente está num momento de rombo fiscal, com o maior déficit nominal da série histórica, de R$ 1,2 trilhão. Se Lula for reeleito, ele vai ter que fazer um ajuste fiscal, como a Dilma fez em 2015?

Haddad - Ele fez o ajuste fiscal.

BBC News Brasil – E por que o rombo?

Haddad - Porque nós estamos com o juro muito elevado, incompatível com a situação do país.

Eu recebi um projeto de lei orçamentária com mais de R$ 60 bilhões de rombo, desconsiderado o reajuste do Bolsa Família, que era de R$ 52 bilhões, desconsiderado o calote dos precatórios, que era de R$ 44 bilhões, desconsiderando a indenização dos governadores por conta do ICMS de combustível, que era de R$ 45 bilhões, e eu fiz acordo para baixar para R$ 27 bilhões.

Você soma isso, dá R$ 200 bilhões, fora a inflação de quatro anos. Além disso, eu recebi um BPC [Benefício de Prestação Continuada] desorganizado, e um Fundeb [Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação] que foi multiplicado por três.

Soma tudo isso. Qualquer que seja o presidente eleito, ele vai receber uma situação fiscal infinitamente melhor.

BBC News Brasil – Mas é só o juro? Não teve muito gasto?

Haddad – É só ver as contas públicas. Pega a despesa primária como proporção do PIB. É assim no mundo inteiro.

Qual foi a despesa primária como proporção do PIB? Cresceu ou caiu no governo Lula?

BBC News Brasil - E por que os juros não baixam, na sua opinião?

Haddad - Aí tem que perguntar para a autoridade monetária.

BBC News Brasil – Mas o senhor tinha uma boa relação com Gabriel Galípolo. O que aconteceu?

Haddad – Não aconteceu nada. Eu tenho uma relação de independência. Não existe no Brasil, há muito tempo, sintonia entre a Fazenda e o Banco Central. São visões diferentes sobre como lidar com o problema. Poucas vezes na história do Real, você teve momentos de sintonia fina entre a política monetária e a política fiscal.

BBC News Brasil - Eu volto à pergunta inicial então: Lula vai ter que fazer um ajuste no ano que vem se ele for reeleito?

Haddad - Todo ministro da Fazenda tem que entrar com o plano de trabalho. Eu recebi o orçamento com R$ 200 bi de déficit, conforme eu relatei aqui para você, e já me coloquei à disposição para conversar com qualquer ex-ministro da Fazenda, do [Pedro] Malan para cá, para bater esses dados, porque não é possível a gente discordar sobre um número.

O próximo presidente, seja quem for, e eu espero que seja o presidente Lula, vai receber um Brasil muito melhor do ponto de vista das finanças. O que está fora do lugar é a taxa de juro. Agora teve a guerra no Irã, que, na minha opinião, atrapalhou muito o ciclo de corte. Mexeu com o mundo inteiro essa bobagem que foi atacar o Irã.

Mas talvez a gente pudesse ter chegado num patamar de juros menor do que os 15%. Talvez a gente pudesse ter começado a cortar antes. Mas enfim, está contratado o ciclo de corte, que eu acho que vai ser um ciclo longo, e o corte do juro vai acertar o déficit nominal, porque o déficit primário também depende da queda do déficit nominal. Porque se você quer rotear o crescimento econômico, você vai ter impacto fiscal também.

BBC News Brasil - Apesar dos bons indicativos econômicos, a alta do PIB, inflação controlada...

Haddad – Não só econômicos, sociais também, né?

BBC News Brasil – Mas então, por que a popularidade do presidente Lula não melhora?

Haddad - Essa questão da rede social.... Quando você faz uma pessoa tomar detergente, você está lidando com um universo novo.

Estou falando de uma pessoa, um adulto, que, por fidelidade canina, uma seita, se filma tomando detergente porque a Anvisa preveniu a população sobre um lote de um produto que poderia estar contaminado.

Nós estamos numa situação grave. Quando pessoas agem dessa maneira, elas não estão mais se importando com nada. E a atuação dessas pessoas na rede social confunde a opinião pública.

Nunca se vendeu tanto apartamento e casa, nunca se vendeu tanto carro, nunca se vendeu tanta moto. O IDH do Brasil é o maior da história, a distribuição de renda é a maior da história, o desemprego está na mínima histórica, a inflação de quatro anos é a menor do Plano Real.

BBC News Brasil - Mas as pessoas não conseguem ligar uma coisa à outra?

Haddad - Mas aí você está jogando uma responsabilidade em cima das pessoas também, que eu não acho justo. Há falhas de percepção, falhas de comunicação, fatores sociais que não estão sendo considerados.

Não pense você que o vício em jogos online afeta pouco a vida das famílias. Oficialmente, os cassinos online estão levando R$ 50 bilhões em apostas. Fora o universo digital não oficial, que, dizem, leva outros R$ 50 bilhões. Estou falando de perto de 1% do PIB.

Outra coisa é a educação financeira. Nós ainda temos uma cultura de crédito que precisa ser muito aperfeiçoada. Não é porque a prestação cabe no seu bolso que você tem que tomar o crédito.

O mundo digital envolve muita coisa. Envolve crédito, compra online, jogos, envolve quase que um universo paralelo. Nós vamos ter que fazer um trabalho de educação.

E eu não estou falando assim "ah, o pobre não sabe". É todo mundo.

Eu sou do tempo em que você entrava em dez lojas antes de comprar uma camisa para saber qual era a mais barata.

BBC News Brasil - Pois, falando em camisa, vamos falar da taxa das blusinhas. O presidente Lula disse nesta semana que o senhor acreditou que a taxa das blusinhas era uma coisa boa.

Haddad - Eu, o Tarcísio, o Zema, o Caiado, o Eduardo Leite e todos os líderes partidários.

BBC News Brasil - E foi um erro?

Haddad - Você acha que todas essas pessoas erraram? Sabe o que é interessante? Nenhum órgão de imprensa escreveu um editorial sobre o tema. Nem contra, nem a favor. O que está por trás disso? Por que ninguém se manifestou sobre isso?

Afinal de contas, o certo é o comércio eletrônico pagar o mesmo imposto do comércio presencial, ou não? Do meu ponto de vista, deveria ser uma regra só. Uma loja aberta não pode pagar mais imposto do que uma loja virtual.

BBC News Brasil - Mas o discurso virou uma guerra de rico contra pobre. O rico pode viajar e comprar lá fora, enquanto o pobre não pode comprar.

Haddad - Mas estou falando de um conceito. Uma loja aberta tem que pagar mais ou menos impostos que uma loja virtual?

O Confaz [Conselho Nacional de Política Fazendária, responsável, dentre outras coisas, pelo Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços, o ICMS] está cobrando o ICMS até hoje.

Não revogou a taxa das blusinhas. Os governadores estão cobrando taxa de blusinha e ninguém vai perguntar para o Tarcísio se ele é contra ou a favor o ICMS que ele está cobrando.

Porque há, efetivamente, uma coisa que está por trás disso. Como isso não ficou na conta dos governadores, nem do Congresso, nas redes sociais estava ficando na conta do presidente, que foi levado a revogar, porque ele é o único que não queria [a taxa das blusinhas]. A única pessoa que não queria era ele.

BBC News Brasil - Aí ele jogou na sua conta, dizendo que "o Haddad acreditava que era uma coisa boa".

Haddad - E eu não mudei de opinião. Eu não mudei de opinião porque eu ouvi todos os governadores, todos os líderes partidários, a indústria, o comércio e cheguei a essa conclusão.

YASUYOSHI CHIBA/AFP via Getty Images
Haddad, na eleição municipal de 2012 em que foi eleito prefeito de São Paulo

BBC News Brasil - Sobre a redução da jornada 6x1, alguns críticos dizem que é uma mudança muito brusca, que a proposta é que seja feita a redução de jornada de um jeito muito rápido. Qual é a opinião do senhor?

Haddad - A redução da jornada de trabalho é uma demanda histórica, que ganhou tração social agora, e é natural que as pessoas queiram uma regra de transição. E quem tem que estabelecer essa regra de transição é o Congresso Nacional.

Agora, o que a direita está pedindo? O Tarcísio, o Flávio? Dez anos de transição. Aí é um pouco demais.

BBC News Brasil - Nesta semana a oposição pediu a redução para 4x3.

Haddad - Mas eles pediram isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 10 mil, quando a gente apresentou até R$ 5 mil. Isso é um jogo de cena para confundir a opinião de novo.

Se eu estivesse no lugar deles, eu negociaria em vez de ficar fazendo micagens.

Eu negociei durante meses o Imposto de Renda para chegar a um consenso e todo mundo votar a favor. Todo mundo votou a favor, não teve um voto contra. Porque houve negociação.

A Fazenda aprovou 77 projetos de lei na minha gestão, sendo que 40 estruturais. Estou fazendo a maior reforma tributária da história do Brasil. Tudo passou porque foi negociado.

BBC News Brasil - Mas para negociar é preciso ter interlocução com o Congresso. O senhor acha que neste momento, depois que o Senado não aprovou a indicação do Jorge Messias para o Supremo, há interlocução?

Haddad - Quando caiu a medida provisória da desoneração, nós fomos para o Supremo Tribunal Federal e ganhamos. Quando eles derrubaram o decreto do presidente do IOF, nós fomos para o Supremo e ganhamos.

E todo mundo dizia "agora acabou", "não tem mais clima para nada". Eu aprovei tudo. Você reconstrói o clima. Isso depende da sua capacidade de reconstruir a ponte.

BBC News Brasil - O presidente Lula está com 80 anos e provavelmente essa é a última eleição que ele disputa. O senhor está preparado para receber esse bastão daqui a quatro anos?

Haddad - Não existe esse planejamento no Brasil.

BBC News Brasil - Não é no Brasil, é no PT.

Haddad - Mas não existe isso. Quatro anos no Brasil são 40 anos em qualquer lugar do mundo. É muito tempo.

Quem imaginou que o Flávio Bolsonaro, que até outro dia estava ameaçado de prisão por rachadinha, por compra de imóvel sem fonte de renda, por vender chocolate, agora estaria disputando a Presidência da República?

Tem como planejar alguma coisa? Agora, se eu ganhar o governo do Estado, vou trabalhar bem, vou fazer um bom governo. E aí o destino encaminha.

Quando fui ministro da Educação, eu não pensava em ser candidato. E acabei sendo candidato a prefeito e ganhando a eleição. Podia ter perdido, mas não dá para planejar desse jeito.

BBC News Brasil - Não parece que o PT está trabalhando para a sucessão de Lula. Quais são os nomes, quem são os quadros que estão sendo preparados?

Haddad - Não falta quadro.

BBC News Brasil - Quais são então?

Haddad - Vários quadros. Vários governadores, ex-governadores.

BBC News Brasil - Quais?

Haddad - Eu não vou ficar declinando o nome aqui. Você sabe.

BBC News Brasil - Não, não sei, estou te perguntando.

Haddad - O Rafael Fonteles [governador do Piauí] é um quadro que vai despontar no Brasil, por exemplo, para citar um. Mas você está pedindo nomes, os outros vão ficar com ciúmes…

BBC News Brasil - Então fala todos os outros. Temos tempo.

Haddad - Todo governador ou ex-governador do Estado pode ser candidato. Todo senador pode ser candidato.

BBC News Brasil - Quem é o favorito do Lula neste momento?

Haddad - Pergunta para ele.

BBC News Brasil - O senhor é próximo dele.

Haddad - Mas nem o Lula vai dizer isso, porque o Lula sabe da complexidade do processo. Não são processos simples.

Mas eu acho que pode ser divertido esse processo. Se ele for arejado, participativo, ele pode ser muito legal. Pode ser uma excelente oportunidade para o PT de se repensar, se reavaliar, discutir programa, discutir futuro. Se o PT fizer um processo aberto, menos fechado, pode ser celebrativo até.

Inclusive a militância participar, debater. Imagina se tiver uma prévia no PT? Seria o máximo.

Eu acredito que, se tivesse uma prévia no PT — e estou te respondendo assim porque nem sei se vai ter —, poderia ser um negócio muito bonito.

Tem gente muito boa no PT com boas ideias, com boas cabeças. E se você numa prévia envolve a militância, já na escolha do nome você já dá impulso à campanha. Pode ser uma coisa muito legal.

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