Um pôster de filme mostrando uma parede coberta com papel de parede amarelo poderia passar despercebido.
Mas não este. É instantaneamente reconhecível por milhões e inspira pavor.
É do mais recente filme de terror de Hollywood, Backrooms ("salas dos fundos").
O filme conhece bem seu público: um público mais atraído pelo terror sussurrado do que por estrelas de cinema, monstros e sangue.
Backrooms são, essencialmente, salas abandonadas e sinistras, sem fim à vista. Pode ser um prédio de escritórios vazio, um corredor ou um vão — zonas intermediárias perturbadoras.
O conceito surgiu em 2019, quando usuários anônimos do fórum 4chan foram convidados a postar imagens inquietantes que simplesmente considerassem estranhas.
Um usuário postou a foto de um escritório abandonado, com papel de parede amarelo-mostarda e iluminação fluorescente.
A publicação dizia: "Se você não tomar cuidado e for jogado para fora da realidade por um noclip [termo de videogame para uma falha técnica ou desaparecimento] nas áreas erradas, você vai parar nos backrooms."
"Não há nada lá além do cheiro de carpete velho e úmido, a loucura do amarelo monocromático, o zumbido incessante das luzes fluorescentes no máximo e aproximadamente 600 milhões de quilômetros quadrados de salas vazias e distribuídas aleatoriamente, onde você ficará preso."
A publicação continuava: "Que Deus te ajude se você ouvir alguma coisa rondando por perto, porque pode apostar que ela já te ouviu."
O conceito acabou se tornando uma minissérie extremamente popular no YouTube, criada por Kane Parsons, que tinha 16 anos na época.
Parsons utilizou o Blender, um software de computação gráfica, para criar ambientes que ultrapassavam os limites do seu orçamento.
Hoje, a série tem mais de 200 milhões de visualizações.
Ela se mostrou tão cativante que o poderoso estúdio de Hollywood A24 — responsável pelo filme de terror indicado ao Oscar A Substância — recrutou Parsons, agora com 20 anos, para fazer uma adaptação para o cinema, que estreou no Brasil em 28 de maio.
Em menos de uma semana, o filme, produzido com um orçamento modesto de US$ 10 milhões (R$ 52 milhões), arrecadou mais de US$ 100 milhões (R$ 517 milhões) nas bilheterias mundiais. Parsons, que se tornou o diretor mais jovem da história da A24, oferece um conselho solene para sobreviver nos backrooms: "Antes de mais nada, faça as pazes com o lugar, porque eu não gosto de dar falsas esperanças."
Do YouTube à tela grande
Seu objetivo em 2023 era claro: levar aquela paisagem infernal e desolada para as telonas — um processo árduo e complexo — e fazê-lo de uma forma que remetesse à sua série do YouTube.
Ele me conta que o que mais o empolgou no projeto foi poder usar um orçamento de Hollywood para se aprofundar na história e trazer uma "fisicalidade real", garantindo assim que o filme fosse "diferente da série do YouTube".
Ele afirma que a equipe responsável pelo filme conseguiu isso construindo um cenário gigantesco de aproximadamente 2,8 mil metros quadrados, baseado em seus projetos criados no Blender.
A estética lembra o primeiro vídeo de Parsons no YouTube — intitulado Found Footage ("Imagens Encontradas", em tradução livre) — que acumulou 80 milhões de visualizações e apresentava imagens tremidas, filmadas com uma câmera de vídeo dos anos 90, do sinistro prédio de escritórios amarelado.
"Acho que isso nos permite nos conectar mais profundamente com os personagens", comenta Parsons.
A adaptação da A24, escrita por Will Soodik, usa o conceito de backrooms para explorar a saúde mental.
O indicado ao Oscar Chiwetel Ejiofor interpreta Clark, um vendedor de móveis frustrado que enfrenta dificuldades após o fim de seu casamento.
À medida que a tensão aumenta entre ele e sua terapeuta, Mary — interpretada por Renate Reinsve — Clark descobre uma passagem da loja para os backrooms, um espaço que começa a se alimentar de seus traumas não resolvidos.
A transição dos backrooms para as telonas reflete a ascensão online de um medo específico: a ideia de um espaço liminar, ou de transição.
Um medo real
Meredith Banasiak, especialista em neurociência e arquitetura que estuda a relação entre edifícios e o bem-estar humano, afirma que corredores e portas frequentemente desencadeiam esse medo.
Eles geram o que é conhecido como "efeito de porta", que confunde nosso cérebro. "Quando os espaços começam a se fundir, nossa maneira de lembrar também começa a se fundir", explica ela.
O filme Backrooms leva isso ao extremo: é um símbolo físico de memórias que "se dissolvem em si mesmas".
Como Clark diz a Mary no filme: "Quanto mais vezes os backrooms evocam algo, menos eles o fazem".
Banasiak observa que sua pesquisa, assim como outros estudos acadêmicos, sugere que sobreviventes de traumas frequentemente consideram esses espaços desafiadores.
Backrooms tem um fórum no Reddit, com mais de 350 mil inscritos.
Os moderadores do fórum dizem que há algo "profundamente existencial" no conceito e que se trata menos de monstros e "mais da incerteza do que mais pode já existir no espaço com você".
O TikTok está cheio de vídeos sobre o assunto, que acumularam mais de 30 bilhões de visualizações, demonstrando a popularidade desse cenário inspirado nos anos 90 entre a Geração Z (os nascidos entre 1997 e 2012, primeira geração de nativos digitais).
O fenômeno também chegou aos videogames. Há um jogo de sobrevivência gratuito chamado Backrooms disponível no serviço de distribuição digital de jogos Steam e experiências semelhantes oferecidas na plataforma Roblox.
A pesquisador da internet Gunseli Yalcinkaya diz que uma nostalgia melancólica por memórias e espaços pré-internet, e o isolamento da pandemia de covid, podem explicar por que os jovens são atraídos por ideias como backrooms.
Yalcinkaya diz que o conceito captura a insatisfação com o que significa ser jovem hoje, "onde a realidade é constantemente mediada por telas". "Já existe a sensação de que a realidade está falhando, nada mais parece real."
Os espaços liminares da Geração Z
Como observou a publicação de negócios Fast Company, Backrooms está entre vários títulos recentes sobre "espaços liminares" que foram "moldados pelos anos de formação mais traumáticos da Geração Z".
Entre eles também está o filme de terror Iron Lung ("Pulmão de aço"), do YouTuber Markiplier, baseado em um videogame e ambientado em um submarino. Lançado de forma independente, arrecadou mais de US$ 50 milhões (R$ 258 milhões) em todo o mundo.
O trailer de Backrooms, lançado online, rapidamente se tornou um dos vídeos mais vistos da A24, com 31 milhões de visualizações.
Para Matthew Frank, autor da newsletter Crowd Pleaser do The Ankler, veículo de notícias e análises sobre Hollywood, o salto do YouTube para a tela grande "representa uma mudança radical".
Executivos de Hollywood estão buscando tanto o público quanto cineastas do calibre de Parsons na cultura nascida na internet.
Frank diz que o produtor executivo de Backrooms, Chris White, descobriu o trabalho de Parsons depois que seu filho adolescente insistiu para que ele assistisse.
Outro cineasta que ascendeu à fama online, Curry Barker, de 26 anos, também lançou seu filme de terror Obsession ("Obsessão") nos cinemas este mês, após um sucesso semelhante.
Os estúdios também se beneficiam do fato de esses nomes já possuírem um público consolidado, em um momento em que as salas de cinema lutam para competir com o streaming.
"Para o público, Backrooms tem o apelo de ser uma propriedade intelectual nascida na internet", acrescenta Frank.
Quanto a Parsons, a imprensa tem se concentrado bastante em sua juventude ao dirigir um filme de Hollywood, uma abordagem que ele considera cansativa.
Ele temia que sua pouca experiência pudesse afetar a percepção dos colegas no set, mas, segundo ele, isso "nunca foi um problema" durante as gravações.
"Quase imediatamente, éramos só nós, isolados de todos os outros, falando sobre o projeto... Gosto de pensar que compensei qualquer falta de experiência com uma atitude totalmente obsessiva."
Parsons — e talvez Hollywood — encontraram muito o que explorar em Backrooms.
Será que eles conseguirão escapar? Impossível.
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