Na expectativa pela conclusão de um acordo inicial para encerrar o conflito que iniciaram com o Irã — um memorando de entendimento, na linguagem oficial —, os Estados Unidos começam a se debruçar sobre o cenário que três meses de hostilidades, mais intensas nos primeiros 40 dias, desenha para o Oriente Médio no futuro imediato e em prazo mais longo. Sem ter alcançado o objetivo de tirar do caminho o regime islâmico de Teerã e resolver o impasse em torno de seu programa nuclear, Donald Trump se vê às voltas com as ambições de Israel, parceiro de primeira hora nos ataques, e as preocupações das petromonarquias aliadas do Golfo Pérsico, alvo de retaliações pelo apoio de retaguarda às forças norte-americanas.
Trump diz que acordo de paz com o Irã será assinado no domingo
O duelo de versões em torno dos detalhes finais do documento ilustra o mosaico de incógnitas que tornam a saída da guerra uma equação desafiante para os planejadores da política externa em Washington. Enquanto meios iranianos davam a entender que os termos do acordo incluiriam a suspensão dos ataques de Israel ao Líbano, tendo como alvo a milícia xiita Hezbollah, fontes israelenses sustentavam que um cessar-fogo na frente libanesa estaria condicionado ao desarmamento do grupo. A controvérsia se estendia às instalações nucleares do Irã e ao destino a ser dado ao estoque de 440kg de urânio altamente enriquecido. O próprio Trump, em suas redes sociais, esbravejou contra o que classificou como "fake news" e "conduta desonrosa" atribuída aos negociadores iranianos.
"Trump não tem uma ideia clara do que fazer com o Irã. Foi surpreendido, desde o início dos conflitos, pela capacidade de resistência e até de contra-ataque do regime islâmico", analisa o professor de relações internacionais Juliano Cortinhas, da UnB. "O fechamento do Estreito de Ormuz era algo sobre o que não se pensava, tanto que não havia um cenário claro, uma resposta pronta. E isso impactou muito a economia dos EUA", observa. "Por todas as medidas, decisões e falas de Trump, principalmente no começo da guerra, sobre quais eram os objetivos, e agora, com os anúncios que faz quase diariamente, de que o acordo está para ser fechado, ou que vai atacar, para depois voltar atrás, fica cada vez mais claro que ele não tem ideia de como conduzir a guerra", concorda Gunther Rudzit, titular da mesma cadeira na ESPM.
Roberto Goulart Menezes, professor titular do Instituto de Relações Internacionais (Irel) da UnB, chama a atenção para a intenção, manifestada pelo presidente dos EUA, de "assumir o controle sobre o petróleo iraniano", nos moldes do que alega ter feito com a Venezuela. "Isso mostra que a relação dos EUA com o Oriente Médio tende a ser na base do porrete. Ou seja: ele quer, pura e simplesmente, dominar o Irã", aponta Menezes. "Isso tende a redesenhar o mapa geopolítico da região."
O estudioso do Irel destaca as implicações do conflito para os países do Golfo Pérsico que abrigam bases e instalações militares norte-americanas, como Arábia Saudita, Kuwait, Bahrein e Emirados Árabes Unidos. "A estratégia do Irã, desde o início, tem sido levar a guerra também para os aliados dos EUA na região", lembra. "Ele bombardeia o Bahrein, bombardeia o aeroporto de Doha, que é um dos grandes nós aeroviários do mundo, e com isso os EUA sentem a pressão dos países vizinhos, porque isso interfere tanto na exportação de petróleo deles quanto em outras atividades econômicas." Ao contrário de Israel, porém, "eles pressionam, mas não entram na guerra".
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, visto por muitos observadores como o aliado que teria convencido Trump a iniciar a guerra, em 28 de fevereiro, aparece cada vez mais como outra variável a ser equacionada pela Casa Branca. "Vai ficando patente que Israel é que tem um projeto, o do Grande Israel, de estender seu território. Trump está encontrando dificuldades em convencer Netanyahu a recuar em suas posições", analisa Menezes. "Ele está em uma enrascada muito grande. Poucos meses para as eleições de novembro, que vão renovar toda a Câmara e uma parte do Senado, e portanto podem mudar a correlação de forças dentro dos EUA. Ele corre contra o tempo para tentar encerrar a guerra."
"Toda essa dinâmica demonstra que não há um plano claro", reforça Juliano Cortinhas. "E isso tem um preço muito alto para todo mundo, já que as decisões de Trump afetam o sistema internacional e o equilíbrio de poder no mundo. Na minha visão, ele está acelerando a derrocada dos EUA."
