A candidata conservadora Keiko Fujimori ampliou a vantagem na acirrada disputa presidencial do Peru. O país está desde o dia 7 de junho contando os votos do segundo turno das eleições que vai decidir quem será o próximo presidente do país.
Os eleitores foram às urnas para escolher entre dois candidatos que representam extremos do espectro ideológico: a direitista Keiko Fujimori, de 51 anos, do partido Força Popular, e o esquerdista Roberto Sánchez, de 57 anos, do partido Juntos por el Perú.
Com mais de 99% dos votos apurados, a candidata do partido de direita Fuerza Popular soma 50,098% dos votos, enquanto seu adversário Roberto Sánchez, do partido de esquerda Juntos por el Perú, tem 49,902%, segundo contagem divulgada nesta terça-feira (16/6).
A diferença, extremamente apertada, aumentou na reta final, quando as autoridades eleitorais começaram a contabilizar os votos dos peruanos residentes no exterior.
No primeiro turno, pouco mais de 400 mil pessoas votaram no exterior, a grande maioria em candidatos de direita, afirmou o jornal El País.
O resultado está tão acirrado que ainda não foi declarado um vencedor, que será o nono presidente que o país terá em uma década.
Na semana passada, Sánchez havia ganhado mais votos, com a apuração de urnas em áreas rurais, onde ele é mais popular.
Um levantamento divulgado após a votação na noite de domingo (7/6), pela empresa Ipsos e pela ONG Transparência, mostrava um empate técnico entre Sánchez e Fujimori: o primeiro obteria 50,3% dos votos, contra 49,7% de sua adversária.
Essa apuração preliminar, baseada em uma amostra de mais de 1 mil seções eleitorais em todo o país, tem sido historicamente um indicador confiável dos resultados finais das eleições no Peru.
As pesquisas de boca de urna divulgadas após o fechamento das urnas previram um empate técnico. A pesquisa do Ipsos deu a Fujimori 50,7% dos votos, contra 49,3% de Sánchez, com margem de erro de 3%, enquanto a pesquisa do instituto Datum colocou a candidata conservadora com 50,53% contra 49,47% de seu rival no segundo turno das eleições presidenciais do Peru.
Mas por que a apuração está demorando tanto e quando o vencedor será oficialmente anunciado?
Revisão das atas eleitorais contestadas
Com as pesquisas de boca de urna apontando um empate técnico entre os dois candidatos, e a apuração oficial confirmando o equilíbrio extremo dessa disputa — com apenas algumas dezenas de milhares de votos de diferença — ambos os candidatos pediram a seus representantes nas seções eleitorais que contestassem cada voto sobre o qual houvesse dúvidas.
A eleição do Peru tem sido acompanhada de perto devido aos problemas logísticos e às alegações de fraude no primeiro turno, em 12 de abril, cujos resultados levaram um mês para serem divulgados.
Fujimori convocou seus apoiadores a "defender cada voto", enquanto Roberto Sánchez pediu aos cidadãos que permanecessem "vigilantes" e mantivessem um "olhar crítico" sobre a apuração dos votos.
Os partidos dos dois candidatos contestaram milhares de atas eleitorais, o que obriga o principal tribunal eleitoral do país, o Jurado Nacional de Elecciones (JNE), a analisar e decidir sobre cada uma delas — um processo que pode levar semanas.
As divergências relacionadas às atas contestadas precisam ser resolvidas por tribunais eleitorais especiais em todo o país antes que o JNE proclame oficialmente a chapa vencedora.
O Juntos por el Perú apresentou recursos para anular urnas em distritos de Lima onde Keiko Fujimori venceu com ampla vantagem, enquanto a Fuerza Popular contestou os resultados em distritos rurais onde Roberto Sánchez concentra sua principal base eleitoral.
E, como a disputa é extremamente equilibrada, não é possível fazer projeções que apontem um vencedor antes da contagem de todos os votos e da revisão de todas as atas sob contestação.
O JNE informou que estima os resultados oficiais apenas em meados de julho, quando forem concluídas tanto a apuração quanto a análise de todas as atas questionadas.
Um país acostumado a eleições apertadas
Não é a primeira vez que o Peru enfrenta uma apuração eleitoral longa e angustiante.
Na verdade, o país se acostumou a disputas marcadas por extrema igualdade e incerteza nas últimas eleições presidenciais.
Em 2021, Pedro Castillo venceu Keiko Fujimori por apenas 0,25 ponto percentual dos votos.
Na ocasião, a divulgação dos resultados definitivos também demorou devido às contestações apresentadas pela campanha de Fujimori.
Cinco anos antes, em 2016, Fujimori havia perdido para Pedro Pablo Kuczynski por uma margem ainda menor: 0,24 ponto percentual.
Se confirmar a vitória, Keiko Fujimori alcançará um objetivo que escapou de suas mãos em três tentativas anteriores.
Ela também se tornará a nona pessoa a ocupar a Presidência do Peru nos últimos dez anos, período marcado por instabilidade e sucessivas crises políticas, durante o qual a maioria dos governantes deixou o cargo em meio a acusações de corrupção ou processos parlamentares de destituição.
Como mostram os resultados apertados da eleição, o vencedor herdará um país profundamente polarizado e terá pela frente uma tarefa complexa: tentar construir a estabilidade que faltou aos governos anteriores.
'Serenidade e respeito pela democracia'
Na noite da eleição, após a divulgação dos resultados da apuração rápida, Roberto Sánchez discursou para seus apoiadores de uma sacada na Praça San Martín, no centro histórico de Lima, declarando: "Nesta noite abençoada, vamos acabar com o pacto mafioso que tomou o controle do nosso governo."
"Queremos transmitir serenidade e respeito pela democracia. Hoje, a apuração rápida mostra uma vantagem significativa que reafirma a vontade do povo", disse ele.
"Como convém a nós que acreditamos na democracia, este é o momento de defender o voto e a transparência eleitoral. Exorto nossos representantes e movimentos sociais a respeitarem os resultados e a voz dos cidadãos", afirmou.
Enquanto isso, Fujimori falou à imprensa em um hotel de Lima, declarando que "neste momento, não há vencedor nesta disputa."
"Por isso, serão alguns dias longos até sabermos o resultado. Cada voto precisa ser contado", disse ela.
"Por essa razão, serão necessários alguns dias até sabermos o resultado. Cada cédula precisa ser contada", afirmou. "Não percam a esperança. Aguardaremos com muita fé e respeito os resultados finais", disse, pedindo à comunidade internacional que permaneça atenta à contagem dos votos.
Voto urbano e voto rural
Esta é a quarta vez que Keiko Fujimori, filha do controverso ex-presidente Alberto Fujimori, cujo legado ela defende, concorre à presidência, tendo perdido anteriormente para Ollanta Humala (2011), Pedro Pablo Kuczynski (2016) e Pedro Castillo (2021).
Sánchez, por sua vez, se apresenta como o herdeiro político do ex-presidente Pedro Castillo, sob cujo governo atuou como Ministro do Comércio Exterior e Turismo.
Castillo foi condenado no ano passado a 11 anos e meio de prisão pelos crimes de rebelião e conspiração, após tentar, sem sucesso, dissolver o Congresso e concentrar poderes quando chefiava o Executivo em 2022.
Um dos fatores determinantes nesta eleição é o voto das diferentes regiões do país.
"Keiko Fujimori não quer abstenção em Lima, seu principal reduto urbano, enquanto Roberto Sánchez não quer abstenção nas áreas rurais e no sul do país, onde é muito popular", explicou à BBC News Mundo (serviços de notícias em espanhol da BBC) o cientista político Alonso Cárdenas, professor de Ciência Política da Universidade Antonio Ruiz de Montoya, em Lima, Peru.
Nesse sentido, a participação eleitoral nas áreas urbanas e rurais poderá ser decisiva.
Outro fator determinante, segundo Cárdenas, é a rejeição histórica a ambos os candidatos, que funciona como uma força política por si só.
No caso de Fujimori, o chamado anti-fujimorismo ativa memórias do autoritarismo e da corrupção da era Alberto Fujimori; no caso de Sánchez, pesa muito a sua associação com a administração de Pedro Castillo, que "é lembrada como uma administração muito desorganizada, assolada pela corrupção e pelo improviso".
Duas visões opostas
A insegurança e a criminalidade foram duas das principais prioridades dos eleitores neste segundo turno das eleições.
Além do aumento dos homicídios, quase 30 mil casos de extorsão foram registrados no Peru em 2025, muitos dos quais afetaram pequenos negócios ou trabalhadores do setor de transportes.
Fujimori baseou sua campanha em uma série de políticas linha-dura contra o crime, declarando "guerra" aos extorsionários e prometendo mobilizar o exército contra o crime organizado, assumir o controle dos presídios e colaborar com instituições financeiras para bloquear o dinheiro proveniente de atividades criminosas.
É justamente essa abordagem que leva muitos eleitores a temerem um retorno à era de Alberto Fujimori — presidente entre 1990 e 2000 —, cujas políticas linha-dura resultaram em sua prisão por violações dos direitos humanos.
Os apoiadores de Fujimori contrapõem sua abordagem de livre mercado e sua promessa de atrair mais investimentos dos EUA às propostas de Sánchez: revisão de contratos de mineração, aumento de certos impostos corporativos, elevação do salário mínimo e concessão de maior controle estatal sobre os recursos naturais — ideias que têm gerado instabilidade nos mercados financeiros.
Sánchez argumenta que a riqueza derivada dos recursos naturais do Peru não chega às pessoas comuns ou às comunidades — frequentemente rurais — onde grande parte da atividade de mineração está concentrada.
De qualquer forma, nos dias que antecederam o segundo turno, o candidato de esquerda suavizou seu discurso, apresentando um novo plano de governo mais moderado, distinto daquele apresentado na eleição de 12 de abril.
Ele assegurou aos eleitores que respeitaria a autonomia do Banco Central e o marco legal que facilita o investimento, defendendo a estabilidade macroeconômica como condição necessária para atrair investimentos.
Sánchez também prometeu libertar o ex-presidente de esquerda Pedro Castillo, que foi preso em 2022 após tentar dissolver o Congresso e governar por decreto para evitar um processo de impeachment.
Na sexta-feira, um juiz decidiu que Sánchez poderia ser julgado por supostos fundos de campanha não declarados relacionados às eleições regionais realizadas entre 2018 e 2020. Ele nega as acusações e espera-se que recorra da decisão.
Keiko Fujimori também teve seu próprio escândalo: um caso de lavagem de dinheiro ligado ao escândalo de corrupção da Odebrecht.
Depois de cumprir pena na prisão, o Tribunal Constitucional arquivou o caso. A decisão permitiu que ela se candidatasse novamente a tempo destas eleições.
Mais instabilidade?
Para além de quem ganhou nas urnas, outra grande incógnita é a governabilidade do país, num contexto em que o Congresso peruano se tornou um ator fundamental na estabilidade política, com capacidade de condicionar a ação do Executivo.
Nos últimos anos, a combinação de um sistema partidário fragmentado e a ausência de maiorias sólidas desencadeou uma instabilidade persistente.
O impeachment de presidentes e os constantes confrontos entre poderes reforçaram a percepção de que a governabilidade depende menos do resultado eleitoral e mais da capacidade do presidente de construir alianças num Congresso altamente volátil.
Nenhum partido tem maioria no Congresso peruano, embora o partido de Fujimori tenha o maior bloco minoritário.
Muitos peruanos estão exaustos com esta instabilidade.
No ano passado, eclodiram protestos liderados pela Geração Z, cujos jovens argumentavam que o Estado não estava conseguindo combater o crime, a corrupção e a desigualdade.
Os menores de 30 anos representam cerca de um quarto do eleitorado peruano e muitos dos que protestaram não acreditam que qualquer um dos candidatos possa alcançar mudanças reais.
Com reportagem de Ione Wells.
- Quem são Roberto Sánchez e Keiko Fujimori, e o que poderá ser decisivo na eleição no Peru, um país 'ingovernável'
- As duas eleições que podem consolidar 'círculo de fogo' pró-Trump em torno do Brasil
- Eleições no Peru: como crises políticas levaram país a ter uma 'economia zumbi'
