Nesta sexta-feira (19/06), o Haiti entra em campo contra o Brasil, em Filadélfia, pela segunda rodada do Grupo C da Copa do Mundo de 2026. Mas antes de pensar em futebol, a seleção haitiana teve que resolver outro problema: dias antes da estreia no torneio, a Fifa proibiu, em cima da hora, a camisa que o time usaria na competição.
O motivo era uma ilustração discreta, posicionada perto do quadril direito do uniforme.
Ela mostrava silhuetas de combatentes erguendo a bandeira do Haiti — uma representação da Batalha de Vertières, o confronto de 1803 que selou a independência do país.
A Fifa concluiu que a imagem poderia ser interpretada como uma declaração política, o que viola seu regulamento de equipamentos, e pediu a remoção. A seleção já havia usado a camisa original em dois amistosos preparatórios na Flórida, contra Peru e Nova Zelândia, antes da intervenção.
A fabricante da camisa, a colombiana Saeta, afirmou que o desenho nunca teve intenção política — seria uma homenagem aos homens e mulheres que constroem o futuro do país. Já a Federação Haitiana de Futebol, em nota à imprensa americana, classificou a decisão da Fifa como "uma má interpretação". Nenhuma das duas partes entrou em conflito aberto com a entidade: a camisa foi alterada, e a versão revisada já apareceu nas fotos oficiais do time antes do torneio.
Foi com essa nova camisa, sem a ilustração, que o Haiti estreou no último sábado (13/06), em Boston — e perdeu por 1 a 0 para a Escócia. O Brasil, na mesma rodada, empatou 1 a 1 com o Marrocos, em Nova Jersey.
Não foi a primeira vez
A proibição da Fifa não foi um caso isolado. Meses antes, o Comitê Olímpico Internacional já havia vetado um elemento visual parecido na delegação haitiana — dessa vez, uma ilustração do revolucionário Toussaint Louverture, prevista no uniforme da cerimônia de abertura dos Jogos de Inverno de Milão-Cortina, também sob a justificativa de simbolismo político.
A solução encontrada na época pela estilista Stella Jean, responsável pelo uniforme olímpico, foi pintar sobre a figura de Louverture, deixando apenas um cavalo contra um fundo de folhagem tropical. Jean comentou à Associated Press que, de um jeito ou de outro, o Haiti estava prestes a estabelecer um recorde: duas reprovações das maiores autoridades esportivas internacionais em poucos meses.
Para muitos haitianos, a proibição da Fifa carregou um peso simbólico ainda maior por causa de uma coincidência específica.
O Haiti garantiu sua vaga nesta Copa do Mundo em 18 de novembro de 2025, ao vencer a Nicarágua por 2 a 0 nas eliminatórias da Concacaf. A data era simbólica: é o mesmo dia, exatamente 222 anos antes, da Batalha de Vertières, vencida em 18 de novembro de 1803.
A batalha que fundou um país
A Batalha de Vertières foi o desfecho de um processo que começou doze anos antes. Em agosto de 1791, pessoas escravizadas na colônia francesa de Saint-Domingue se ergueram contra os senhores de engenho em uma revolta que se tornaria a única rebelião de escravizados da história a culminar na fundação de um país independente.
Em menos de dois anos, os revoltosos haviam forçado a França a abolir a escravidão no território — décadas antes de a maior parte do mundo ocidental fazer o mesmo.
O conflito se transformou em guerra de independência quando Napoleão Bonaparte tentou reverter a abolição e retomar o controle da colônia, em 1802.
A resistência, liderada por Jean-Jacques Dessalines, cercou as últimas tropas francesas em Cap-Français — atual Cap-Haïtien —, onde o general Donatien de Rochambeau resistia com cerca de 5.000 homens.
A batalha decisiva aconteceu em 18 de novembro de 1803, no Forte de Vertières, nos arredores da cidade. Um dos episódios mais lembrados até hoje envolve o general François Capois: durante um avanço sob fogo intenso, seu cavalo foi atingido e ele caiu, mas se levantou, ergueu a espada e seguiu em frente gritando para que os soldados avançassem.
Impressionado, o próprio Rochambeau teria ordenado um cessar-fogo temporário para saudar a bravura do general — que ficou conhecido a partir daquele dia como "Capois-la-Mort" ("Capois, a Morte"). Depois da pausa, os combates foram retomados.
Derrotado, Rochambeau negociou a rendição no dia seguinte: recebeu dez dias para evacuar o restante de suas tropas de Saint-Domingue. Foi a última grande batalha da Revolução Haitiana. Em 1º de janeiro de 1804, menos de dois meses depois, o Haiti declarou sua independência, tornando-se a segunda nação independente das Américas, depois dos Estados Unidos. Dessalines se tornou o primeiro chefe de Estado do país.
Até hoje, 18 de novembro é celebrado no Haiti como o Dia das Forças Armadas — data oficial em homenagem à vitória.
O estádio que não existe mais
O contexto em que a seleção chega a esta Copa é de fragilidade. Segundo estimativas das Nações Unidas, gangues armadas controlam entre 80% e 90% da capital, Porto Príncipe — incluindo a região onde fica o Stade Sylvio Cator, principal estádio do país e palco da seleção havia décadas, inclusive durante as campanhas das eliminatórias para sua única outra participação numa Copa do Mundo, em 1974.
A equipe não joga em solo haitiano desde 2021, ano marcado pelo assassinato do então presidente Jovenel Moïse, que deixou um vácuo de poder explorado por grupos armados. Em março de 2024, a Federação Haitiana de Futebol confirmou que o próprio Sylvio Cator havia sido invadido e ocupado por gangues. Hoje, o estádio funciona como abrigo para moradores que fogem da violência nos arredores.
No mesmo período, o centro de treinamento da seleção, conhecido como Centro de Goal da Fifa, em Croix-des-Bouquets, foi tomado por uma gangue. Mais recentemente, neste ano, parte de suas instalações foi incendiada durante confrontos entre gangues e a polícia.
Sem condições de treinar ou jogar em casa, a seleção passou a se preparar fora do país — primeiro na Flórida e em Nova Jersey, depois em Curaçao, onde, em novembro de 2025, venceu a Nicarágua por 2 a 0 e garantiu a vaga inédita em 52 anos.
Um dos gols daquela noite saiu dos pés de Louicius Deedson, hoje jogador do FC Dallas, que descreveu à CNN a euforia nas ruas de Porto Príncipe como algo que o país não vivia há muito tempo. Mesmo o técnico francês da seleção não pôde viajar até o Haiti para acompanhar os treinos.
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