COPA DO MUNDO

De coração dividido, brasileiro diz que também se sente patriota na Escócia, que enfrenta Brasil na Copa do Mundo

Daniel Marques de Araújo, de 47 anos, afirma que se sente orgulhoso tanto das origens brasileiras quanto do país que o acolheu.

Na tradição escocesa, cada clã tem um tartã específico — uma padronagem —quadriculada que o representa, materializada em um tecido de lã.

Desde abril deste ano, o Brasil ganhou um tartã para chamar de seu, com as cores da bandeira nacional — e o brasileiro Daniel Marques de Araújo, de 47 anos, não perde a oportunidade de ostentar o seu, orgulhoso das origens brasileiras e também do país que o acolheu.

Ele, que trabalha como guia turístico, vai assistir ao jogo Brasil contra Escócia, no dia 25, em uma casa de eventos em Glasgow que será transformada em sede da torcida brasileira no local. Mas admite o coração dividido, depois de 21 anos no Reino Unido — 17 deles na cidade escocesa.

"Sempre torci para o Brasil. Se tivesse dois jogos, eu gostaria que os escoceses ganhassem um porque aí vai ser um dia de festa", reflete. "Vai parar tudo. O patriotismo escocês é nível hard."

De certa forma, Araújo também já faz parte disso. O sentimento transparece quando ele fala sobre sua profissão, seu prazer em mostrar a terra onde vive para turistas. "É muito gostoso ver pessoas com conhecimento, gente que conhece o mundo todo, achando lindo aqui o lugar em que moro, porque a gente é patriota aqui também. Sou brasileiro, mas um pouco escocês também", diz.

De acordo com estimativa do consulado brasileiro de Edimburgo, capital do país, cerca de 5 mil brasileiros vivem na Escócia.

Acervo pessoal
Daniel Marques de Araújo hoje é guia turístico na Escócia

Mais do que inserido, Araújo parece bem conectado à comunidade dos conterrâneos. No evento do jogo, por exemplo, ele será motorista voluntário de quem não tiver como ir até o local — "sem cobrar nada", garante. Como tem um veículo para até nove passageiros, diz que é um prazer poder ajudar nos deslocamentos.

A iniciativa de reunir os brasileiros para torcer na copa foi do cônsul honorário do Brasil em Glasgow, Faroque Hussain. A ideia ganhou adesão e muitos acabaram se envolvendo. Vai ter comida típica brasileira e até uma coxinha-haggis, invencionice que é a mistura do Brasil com a Escócia.

Prato tradicional do país britânico, o haggis é um pudim salgado feito com miúdos de ovelha. Na receita, pedaços de coração, fígado e pulmões são preparados com aveia, cebolas e temperos caprichados.

Na versão abrasileirada, o haggis será o substituto do recheio de frango da coxinha. "Tem tanto brasileiro envolvido que a gente vai se sentir no Brasil sem sair da Escócia", vislumbra ele.

Ele queria um milhão

Nascido em Uberaba, interior de Minas Gerais, Araújo se formou em direito em Franca, no interior de São Paulo, e depois viveu em Palmas, capital do Tocantins.

"Então, alguns amigos vieram para a Inglaterra. Fizeram dinheiro e voltaram. Quando soube, fiquei empolgado", recorda ele. Disse que também contribuiu para a decisão a fase romântica — ou o contrário disso, o coração partido.

"Eu era formado em direito e podia ficar [no Brasil], fazer mestrado, tirar OAB. Mas aí você tem problema com a namorada, questões familiares", enumera. "E eu era mais imaturo. Ainda bem que eu fui imaturo. Estava sofrendo por amor, o namoro terminou. Resolvi tentar a vida em lugar diferente, porque a gente tem de ter ambição."

O começo não foi nada fácil. Na Inglaterra, Araújo morou em Londres e, depois, em York. Dividia quarto com outros oito imigrantes. Estava matriculado em uma escola de inglês, meio período, e buscava trabalho no que aparecesse.

O que mais tinha era construção civil e limpeza. Do período em que trabalhou na construção civil, ficou a lembrança do esforço físico. "Eu perdi 20 quilos. Pelo menos nisso foi bom. Depois recuperei, hoje estou melhor: acabou a sofrência", conta.

Nessa fase, ele fez de tudo. Em restaurantes, lavou muitos pratos. "Eu pedia a Deus que eu conseguisse ganhar um milhão. Deus olhou e me deu um milhão de pratos para lavar. Nunca vi tanto prato sujo na minha vida", brinca.

"Era tudo subemprego, e a gente sofre bullying porque é imigrante. Mas tudo é aprendizado. Eu tinha de evoluir, de estudar. Eu era analfabeto em inglês, não sabia falar nada", reflete.

Na rotina do trabalho pesado, foi aprendendo inglês. Araújo tem uma fórmula própria para analisar os estrangeiros. Acredita ele que se a pessoa aguenta os seis primeiros meses, fica para sempre.

"Quando passei esse teste, comecei a não querer voltar mais para o Brasil", afirma. "Mesmo com dificuldade, depois dos seis primeiros meses ninguém segura mais."

A seu favor, conta ponto o carisma e o bom-humor. Foi assim, ressalta, que conseguiu o primeiro de todos esses empregos iniciais.

Um colega na casa comunitária onde ele morava tinha uma entrevista para uma vaga em obra de construção. Mas ele era muito tímido e pediu ajuda. "Eu nem falava inglês direito ainda", diz. Na cabeça do amigo, pelo menos o Araújo era alguém que sabia matar a bola no peito e conduzir o lance com habilidade e jogo de cintura.

Resultado: sem querer, acabou sendo ele o escolhido para o serviço.

Ao contar sobre esses primeiros anos, ele faz constantemente paralelos com os dias de hoje, sempre para ressaltar que "agora é melhor". Afinal, as maravilhas que seduzem muitos os que querem imigrar muitas vezes são mais miragem do que oásis.

"Quando se chega aqui, é tudo lascado também", reconhece ele. "Mas eu pensei que não tinha jeito: tinha feito a escolha então precisava vencer. Não tinha opção."

"A vida aqui é muito baixa renda. Mas se em construção eu estava até magrinho bonitinho, agora sou um gordinho feliz", compara.

Na sua filosofia, "muitas vezes o sucesso vem de quando você não tem opção". "O ser humano naturalmente vai pelas coisas mais fáceis. Quando a opção é só o difícil, tem de conseguir, tem de dar certo."

Jane Barlow/PA
A paisagem de Edimburgo, a capital da Escócia

Ele 'esquece' que está trabalhando

A certa altura o lavador de pratos do restaurante já estava trabalhando como cozinheiro. Foi quando o ex-marido de sua tia, que estava vivendo na Escócia, o convidou para passar uns dias lá, a passeio. "Vim e gostei muito", diz. "Achei muito frio, mas gostei."

Em Glasgow, começou a trabalhar em pizzaria. Fazia entregas, de carro. Conta que estranhou muito a direção, por causa da mão inglesa.

"Cheguei a estourar dois pneus", lembra, rindo das barbeiragens iniciais. "Eu ia passar a marcha e o cérebro não pensava, batia o braço na porta do carro, porque mexia a mão errada."

Com 650 mil habitantes, Glasgow é a cidade mais populosa da Escócia — o país todo, localizado no norte da Ilha da Grã Bretanha e integrante do Reino Unido, tem 5,5 milhões.

Não foram poucas as dificuldades enfrentadas. Chegou a ficar sete meses ilegalmente no Reino Unido, com o visto vencido, até receber o passaporte português. Hoje se orgulha de ter passaporte britânico. É uma conquista — e seus olhos brilham quando ele enfatiza isso.

Depois de seis anos como entregador de pizza, veio a oportunidade de migrar para a área do turismo. Novamente, graças às amizades, novamente, com uma pequena mãozinha dos amigos.

Um brasileiro que trabalhava como guia em Londres precisava indicar um motorista para a parte escocesa do tour de seu cliente. Como Araújo já rodava o tempo todo mesmo para entregar pizzas, decidiram arriscar.

"E eu comecei a gostar, porque na verdade eu já era guia turístico por natureza, porque sempre gostei de viajar com os amigos mostrando tudo", explica.

"Mas hoje eu tenho conhecimento. Comecei a estudar. Porque a pessoa não quer um motorista. Ela quer conhecimento", diz. "Estudei, investi em mim e hoje estou colhendo o resultado disso."

Criou um site, uma página no Instagram e acabou montando uma clientela. Alguns ainda vêm por agências que contratam seus préstimos. Mas Araújo conta que, hoje, 90% dos turistas que ele ciceroneia chegam por indicação de outros clientes. "Não falta trabalho", comenta.

"Eu me formei em direito e trabalhava com os problemas das pessoas. Era só dor de cabeça", lembra. "Agora que sou guia, trabalho com alegria. Mesmo a pessoa mais chata do mundo, quando ela chega aqui ela não quer confusão: ela quer paz e se divertir."

Acervo pessoal
Daniel Marques de Araújo diz que não tem mais planos de voltar a viver no Brasil

Para Araújo, a relação muitas vezes extrapola o profissional e se transforma em amizade. "Às vezes eu esqueço que sou guia, parece que estou com um amigo", diz. "Eu realmente crio esse vínculo, porque faço pelos outros o que gostaria que fizessem por mim."

Quanto mais conhece a Escócia, mais parece encantado com o país. "Para mim, é o melhor lugar do mundo para morar", alardeia.

Elogia a segurança — diz que melhorou muito nos últimos anos — e o fato de saúde e educação serem públicas. "Se tenho algum problema, com prescrição até o remédio é de graça", exemplifica.

Seus meses de mais trabalho são de maio a agosto, alta temporada por conta do verão europeu. No tempo livre, gosta de buscar destinos aleatórios para conhecer países novos. Já esteve em 47. Seu sonho era chegar a 100.

"Agora, talvez seja um sinal da idade, tenho gostado de repetir países para rever amigos que fiz", conta ele, que demonstra um carinho especial por Portugal e pela Polônia.

Nos últimos anos, também tem investido tempo para conhecer o Brasil. Em janeiro, foge do inverno rigoroso da Escócia e embarca ao país-natal. Então são dois meses de descanso e turismo local. "Às vezes com alguma namoradinha", comenta ele, que é solteiro e vive sozinho. "Sou abençoado. Hoje tenho condições e posso ficar dois meses viajando pelo Brasil."

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