Quarenta pessoas morreram afogadas em mortes relacionadas ao calor na França desde a semana passada, com temperaturas atingindo níveis recordes em vários países europeus, como Reino Unido, Suíça, Espanha e Itália.
Nesses países, as pessoas têm buscado se refrescar em canais e rios.
A ministra do Esporte da França, Marina Ferrari, disse compreender a vontade de escapar do calor, mas alertou sobre os riscos de nadar em áreas não autorizadas ou perigosas.
"É algo para ser levado muito a sério — nadar em locais sem supervisão durante uma onda de calor", disse Ferrari.
Entre as vítimas fatais está uma menina de 13 anos que havia ido se banhar com a família no rio Sena, em Fontaine-La-Port, na noite de domingo, embora não soubesse nadar.
Um jovem jogador de futebol profissional está em estado grave no hospital após ser retirado do rio Ródano, em um parque próximo a Lyon. Equipes de emergência foram acionadas para resgatar quatro jovens que enfrentavam dificuldades em um trecho do rio onde o banho é proibido.
Várias pessoas também morreram afogadas na Alemanha, onde meteorologistas preveem temperaturas de até 40°C no oeste e no sudoeste até o final da semana.
A Associação Alemã de Salvamento Aquático (DLRG) informou que houve seis incidentes fatais envolvendo banhistas entre sexta-feira e domingo, destacando que homens, em particular, tendiam a superestimar suas habilidades na água.
Três corpos foram encontrados no rio Reno, perto da cidade de Biblis (sudoeste), dias depois de três homens — de 23, 27 e 50 anos — terem sido dados como desaparecidos em dois pontos diferentes do rio.
No Reino Unido, em uma onda de calor no final do mês passado, nove pessoas morreram em incidentes relacionados a lagos e rios.
Mais da metade das regiões da França está atualmente sob o nível máximo de alerta meteorológico e, por causa disso, centenas de escolas foram fechadas.
A causa imediata desse aumento de temperatura é um "domo de calor": uma massa de ar quente que se desloca para o norte a partir do Saara e fica 'estagnada' sobre a Europa, prendendo o ar quente em seu interior.
Por que as pessoas estão morrendo afogadas?
A Royal National Lifeboat Institution (RNLI) — entidade britânica que trabalha com salvamentos de pessoas em água — fez um apelo nesta semana para que as pessoas tomem precauções especiais ao entrar na água durante a atual onda de calor no país.
Segundo Steve Cavallo, especialista da RNLI, muitas pessoas acabam se afogando por não terem experiência de nadar em águas abertas.
"Infelizmente, como vivemos em um país que não costuma ter muito calor, assim que o tempo esquenta, surge a tentação de pular em qualquer corpo d'água, seja no litoral ou em rios e lagos do interior", diz.
"Registramos esses incidentes todos os anos e estamos tentando conscientizar as pessoas para evitar que isso aconteça."
Cavallo acrescenta que muitos reservatórios e lagos, especialmente em antigas áreas industriais como pedreiras, escondem perigos capazes de prender os nadadores.
"Não dá para saber que objetos estão abaixo da superfície. Infelizmente, as pessoas jogam em rios e lagos coisas que não deveriam estar lá. É fácil acabar se enroscando nesse tipo de coisa."
Outro problema é o choque térmico que a água fria pode provocar.
Ashley Jones, especialista em segurança aquática e educação da Royal Life Saving Society — entidade britânica de prevenção contra afogamentos — explica por que pular em um lago de águas frias pode ser fatal, por mais refrescante que possa parecer.
"Embora o ar tenha esquentado — e tenha esquentado muito rapidamente [com a onda de calor] —, a água não aquece na mesma velocidade. Por isso, é fundamental entrar na água lentamente", diz ele.
"Se você correr, pular ou mergulhar, a primeira reação é uma inspiração brusca involuntária. E essa entrada brusca e intensa de ar é muito perigosa se houver água por perto. Por isso, se você estiver na água e tiver essa reação, isso pode desencadear o processo de afogamento."
O passo seguinte é um aumento acentuado da frequência cardíaca, afirma Jones.
"Nosso batimento cardíaco e nossa respiração se aceleram. Isso pode provocar pânico; e, se entrarmos em pânico enquanto nos debatemos na água, a combinação desses fatores pode nos levar a inspirar água e iniciar o processo de afogamento", diz ele.
A maioria dos afogamentos acidentais ocorre em águas no interior, e não em regiões litorâneas, afirma Georgia Beardmore, da Royal Society for the Prevention of Accidents.
"Existem muitos tipos diferentes de locais com águas no interior, e todos eles apresentam riscos muito distintos", diz ela.
"Em locais como reservatórios, canais e lagos formados em antigas pedreiras, há muitos equipamentos e estruturas artificiais que podem estar ocultos sob a superfície. Além disso, esses locais podem ser um pouco mais isolados do que as praias."
"Um risco comum a todos os locais de águas abertas — sejam elas no interior ou no mar, e especialmente nesta época do ano — é o fato de a água ser extremamente fria", diz ela.
Beardmore afirma que essa é uma tendência que surpreende muitas pessoas.
"Todo mundo pensa no perigo do mar. Nem sempre pensam no perigo em águas abertas", diz ela.
Cavallo, da RNLI, acredita que uma das razões para o maior número de mortes em águas no interior é a falta de conscientização e experiência.
"As pessoas não crescem [no interior] convivendo com a água como aquelas que vivem no litoral", diz ele.
"Temos equipes dedicadas à educação e à segurança aquática que visitam escolas, faculdades e clubes de esportes náuticos para levar essa mensagem a todas as faixas etárias — e quanto mais cedo fizermos isso, melhor, pois o comportamento acaba se tornando algo natural."
Outro fator de risco é quando outras pessoas tentam resgatar alguém.
Na onda de calor de maio, um homem de cerca de 60 anos sofreu uma parada cardíaca na praia de Tregirls, no sudoeste da Inglaterra, após entrar no mar para ajudar dois familiares — que acabaram sendo levados para um local seguro por outras pessoas.
"Muitas vezes, quem tenta resgatar acaba precisando ser resgatado", diz Cavallo.
Para muitas pessoas, é instintivo pular na água para tentar ajudar — especialmente se a pessoa em apuros for alguém querido —, mas "você não sabe por que aquela pessoa está em apuros", diz Beardmore.
"Você não sabe quais perigos existem ali e, se alguém entrar, isso pode levar várias pessoas a ficarem em situação de risco", afirma ela.
O que fazer diante de perigos na água?
Andrew Black, voluntário da York Rescue Boat, diz que a melhor atitude é usar uma técnica conhecida como "alcançar e lançar" — jogando algo que a pessoa em perigo possa agarrar.
"Se não houver nada adequado, você pode procurar um galho; pode ser qualquer coisa. Você pode até amarrar algumas toalhas e tentar alcançar a pessoa dessa forma", diz Black.
"Mas o mais importante é tentar manter a calma, pois isso ajudará a pessoa na água a se acalmar também, incentivando-a a flutuar, manter a cabeça inclinada para trás e permanecer tranquila enquanto se espera a chegada de ajuda."
Beardmore diz que quem acaba caindo na água deve tentar flutuar e usar equipamentos de emergência.
"Flutue de costas com as orelhas submersas, controle a respiração, tente se acalmar e movimente os braços e as pernas, se isso ajudar a se manter na superfície.
"Não se preocupe se suas pernas afundarem; cada pessoa flutua de uma maneira diferente. Assim que recuperar o controle da respiração, você poderá gritar por socorro ou nadar até um local seguro."
Incline a cabeça para trás e tente manter a calma o máximo possível e pelo maior tempo que conseguir, recomenda Black.
"É claro que é fácil falar e muito difícil fazer, mas tente relaxar e desacelerar a respiração; isso ajudará a controlar os batimentos cardíacos e dará ao seu corpo a chance de se adaptar à água fria."
"E então — se conseguir manter a calma o suficiente — você deverá ser capaz de começar a movimentar lentamente os braços e as pernas e, talvez, nadar até a margem ou, pelo menos, pedir ajuda."
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