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Tragédia com quase 1.000 mortos na Venezuela é duro golpe em país mergulhado em incerteza e anos de degradação estrutural

Anos de má gestão e escassez, agravada pelas sanções dos EUA, contribuíram para a deterioração de boa parte das moradias sociais. Colapso da indústria estatal deixou país até sem cimento.

O número de vítimas mortais após os dois potentes terremotos que sacudiram a Venezuela na quarta-feira (24/6) continua aumentando. Nesta sexta-feira (26/6), estão confirmados aos menos 920 vítimas e mais de 3.000 feridos. E não há dúvida de que este desastre natural representa um golpe devastador para um país mergulhado há anos na incerteza.

Menos de seis meses atrás, forças americanas capturaram Nicolás Maduro, o líder de esquerda que governava o país desde 2013, em uma incursão à sua residência presidencial em Caracas ao amanhecer. Ele foi transportado para Nova York, nos Estados Unidos, para responder a acusações de narcotráfico.

Desde então, a Venezuela é governada pela então vice-presidente Delcy Rodríguez, aliada de Maduro, para grande pesar dos partidários da oposição. Eles esperavam que o governo Trump colocasse no poder a líder opositora, María Corina Machado.

A reação de Rodríguez frente ao terremoto deixou claro quais aspectos mudaram (e quais permanecem inalterados) desde a incursão americana de janeiro, bem como os inúmeros desafios enfrentados pela maltratada infraestrutura do país.

Federico PARRA/AFP via Getty Images
Os dois terremotos ocorreram no intervalo de 39 segundos

Rodríguez se dirigiu à nação através do canal estatal VTV, mais de duas horas após os tremores.

Até então, havia muito pouca informação oficial, certamente porque as vias de comunicação com algumas das regiões mais afetadas estavam interrompidas.

Mas esta é também mais uma consequência das restrições impostas à imprensa independente pelo governo de Maduro. Sites de notícias foram fechados, além de centenas de emissoras de rádio, principalmente regionais, que teriam sido fundamentais para oferecer informações atualizadas para o público local.

Delcy Rodríguez estava acompanhada pelo seu irmão Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional Venezuelana, que tomou seu juramento como presidente interina, poucos dias depois da captura de Maduro. Com eles, estava também outro fiel aliado do ex-presidente: o ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello.

Cabello não vestia uniforme militar na ocasião, como fazia com frequência nos meses que antecederam a intervenção militar dos Estados Unidos. Ele e Jorge Rodríguez permaneceram em silêncio, ao lado da presidente do país.

Delcy Rodríguez estava visivelmente abalada durante seu discurso.

Ela pediu, "antes de tudo", união ao povo venezuelano, profundamente dividido há mais de uma década, entre os apoiadores de Maduro e do seu predecessor e mentor, Hugo Chávez (1954-2013), e seus opositores.

Ela declarou estado de emergência no país e encarregou o general Juan Ernesto Sulbarán, comandante da Guarda Nacional da Venezuela, de liderar a reação frente à crise.

BBC

Durante os mais de 25 anos em que Chávez e Maduro ficaram no poder, altos oficiais militares ocuparam cargos fundamentais no governo venezuelano.

Muitos ministérios ficaram anos nas mãos de generais. Analistas indicam que um dos motivos que levaram à deterioração da infraestrutura venezuelana é a falta de experiência técnica dos ministros responsáveis.

Sob o olhar atento do governo Trump, Rodríguez substituiu recentemente o general que dirigia o Ministério da Habitação por um arquiteto civil. E também trocou outro general, que chefiava o Ministério da Eletricidade, por um engenheiro elétrico.

Mas anos de má gestão e escassez, esta agravada pelas sanções dos Estados Unidos, contribuíram decisivamente para a deterioração de grande parte das moradias sociais.

A falta de cimento, por exemplo, foi causada pelo colapso da indústria estatal do produto, nacionalizada durante o governo Chávez. Ela impediu muitas vezes a realização dos reparos necessários em edifícios e moradias, que ficaram mais sujeitos a desabamentos.

Edilzon Gamez/Getty Images
Os serviços de emergência da Venezuela sofrem há muito tempo com a falta de fundos

O poder e a influência das forças armadas durante as últimas duas décadas também fizeram com que o equipamento militar, frequentemente, tivesse prioridade em relação ao fornecimento de ferramentas e veículos modernos às unidades de proteção civil.

Consciente destas deficiências, Delcy Rodríguez expressou sua gratidão aos governos estrangeiros que ofereceram ajuda ao seu país.

Ela mencionou, entre outros, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e seu governo. Segundo a presidente, eles estiveram "em contato constante com todas as nossas autoridades, oferecendo apoio e solidariedade".

Rodríguez também mencionou ter conversado com os presidentes da República Dominicana e de El Salvador, além de agradecer ao presidente do Chile, José Antonio Kast — todos eles, governos de direita.

As ofertas de ajuda não surpreendem, após um terremoto tão devastador. Mas a sua aceitação, por parte de Rodríguez, representa uma clara ruptura com as políticas de Maduro, que só aceitava ajuda de aliados ideológicos.

"Em momentos como este, a solidariedade entre os nossos povos é uma fonte inestimável de força", afirmou ela.

Para todos os venezuelanos que despertaram frente às cenas de devastação naquela manhã, particularmente para os familiares das vítimas sepultadas sob os escombros, esta abertura para permitir a entrada de assistência é fundamental. Ela oferecerá um raio de esperança, em um momento de angústia e incerteza.

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