Os dois terremotos que atingiram a Venezuela na quarta-feira (24/6), com magnitudes 7,2 e 7,5 e com apenas 40 segundos de intervalo entre eles, deixaram quase 1000 mortos em uma das maiores tragédias naturais dos últimos anos. Embora o país esteja localizado em uma das regiões de maior atividade sísmica da América do Sul, a ocorrência de dois abalos tão intensos em sequência é um evento incomum pelo potencial destrutivo e pelos desafios que impõe às análises dos pesquisadores.
Segundo o sismólogo Gilberto Leite, do Observatório Nacional e da Rede Sismográfica Brasileira, a explicação para a frequência de terremotos na Venezuela está na posição geológica do país.
"A região norte da Venezuela fica justamente na zona de contato entre a placa do Caribe e a placa Sul-Americana. Como essas placas estão em movimento constante, acumulam tensões ao longo do tempo que eventualmente são liberadas na forma de terremotos", explicou Leite ao Correio.
Nesse tipo de limite tectônico, conhecido como movimento transformante, as placas deslizam lateralmente uma em relação à outra. Esse atrito faz com que a energia seja acumulada até ser liberada em forma de abalos sísmicos.
De acordo com o especialista, a Venezuela já registrou terremotos de grande magnitude ao longo da história. O maior deles ocorreu em 1900, nas proximidades de Caracas, e atingiu magnitude 7,7. Outros eventos importantes foram registrados em 1967 (6,6) e 2009 (6,3).
- Leia mais: Terremotos na Venezuela: tragédia já é comparada ao devastador sismo de 1967
- Leia mais: Moradora do Gama morre após terremotos na Venezuela
Dois terremotos quase ao mesmo tempo
Embora existam registros de grandes terremotos ocorrendo em sequência em diferentes partes do mundo, o intervalo de apenas 40 segundos entre os dois eventos registrados na Venezuela torna este episódio particularmente relevante para os pesquisadores.
Como os terremotos aconteceram praticamente ao mesmo tempo, as ondas sísmicas produzidas por cada um acabaram se sobrepondo, dificultando a identificação precisa das falhas geológicas envolvidas.
Segundo Gilberto Leite, as análises preliminares indicam que os dois terremotos ocorreram entre 10 e 20 km de profundidade e a cerca de 10 km de distância um do outro, possivelmente associados à ruptura de falhas orientadas no sentido leste-oeste.
Apesar da proximidade temporal e espacial, ainda serão necessários estudos mais detalhados para confirmar se ambos ocorreram na mesma estrutura geológica.
Por que continuam ocorrendo tremores?
Depois de um grande terremoto, é esperado que outros novos sismos sejam registrados. Essas ocorrências são chamadas de réplicas e fazem parte do processo natural de acomodação da crosta terrestre.
"Com o tempo, essas réplicas tendem a diminuir tanto em frequência quanto em magnitude. Ainda assim, não é possível prever como a atividade sísmica vai se desenvolver, sendo de extrema importância o monitoramento sísmico contínuo", afirma o sismólogo.
As réplicas podem continuar por dias, semanas ou até meses, dependendo das características da ruptura e da redistribuição das tensões na região afetada.
Por que o segundo terremoto de 7,5 foi três vezes mais forte que o primeiro, de 7,2?
Uma dúvida comum é por que um terremoto de magnitude 7,5 pode ser muito mais forte do que um de 7,2, apesar da pequena diferença nos números.
A explicação está na própria escala de magnitude, que é logarítmica.
Segundo Gilberto Leite, cada aumento de uma unidade representa cerca de 32 vezes mais energia liberada. Assim, um terremoto de magnitude 7 libera aproximadamente 32 vezes mais energia do que um de magnitude 6.
No caso dos terremotos registrados na Venezuela, a diferença de apenas 0,3 na escala corresponde a cerca de três vezes mais energia liberada pelo evento de magnitude 7,5 em comparação ao de 7,2, evidenciando que pequenas variações numéricas podem representar diferenças significativas no potencial destrutivo de um terremoto.
Saiba Mais
-
Mundo Sobe para 920 o número de mortos em terremotos da Venezuela enquanto equipes de resgate trabalham contra o relógio
-
Mundo Como os smartphones de alguns venezuelanos alertaram sobre o terremoto
-
Mundo Ao menos 17 países enviam equipes de resgate à Venezuela após terremotos
-
Mundo Epidemia de ebola na RD Congo causou 304 mortes
