Primeiro veio o whey. Depois, as barrinhas, os iogurtes e os sorvetes. Agora, a proteína resolveu tomar um café e até pedir uma cerveja.
Essa é a proposta do Cold Foam — uma espuma de leite lançada pelo Starbucks que promete adicionar 19 gramas de proteína a cafés e às demais bebidas servidas pela rede — e da Spaten Pro — uma cerveja com 10 gramas do mesmo nutriente que a Ambev planeja colocar nas prateleiras de São Paulo e do Rio de Janeiro até o fim de agosto.
Os lançamentos chegam na esteira de uma onda de bebidas funcionais que já inclui a Skol Zero Zero, sem álcool e sem açúcar; a Stella Artois Pure Gold, sem glúten e com menos calorias; a Corona Sunbrew, enriquecida com vitamina D; e o Guaraná Zero com Fibra, que em setembro chegará às prateleiras de todo o país após um pré-lançamento restrito à capital paulista e a algumas cidades do interior do Estado.
Juntas, essas bebidas mostram que a onda de alimentos com apelo de bem-estar entrou em uma nova fase, em que as empresas disputam os produtos mais improváveis para adicionar proteínas, fibras e vitaminas.
Ao mesmo tempo, refletem como o Brasil vem se consolidando como um laboratório global para o desenvolvimento desses produtos. Prova disso é que a cerveja sem glúten da Stella Artois já está em vias de ser exportada, e a Spaten Pro deve seguir o mesmo caminho, segundo a Ambev.
A Spaten Pro, aliás, é a primeira cerveja proteica criada por uma grande cervejaria para uma marca de ampla circulação. Até agora, experiências desse tipo estavam restritas a marcas voltadas ao mercado de bem-estar e ao público das academias, principalmente nos Estados Unidos.
Mas nem todo mundo brinda à tendência. Entre os profissionais da saúde, cresce a preocupação de que algumas dessas novidades apostem mais no apelo do marketing do que em benefícios reais para a saúde.
Quanto de proteína e fibra essas bebidas têm — e quanto devemos consumir por dia?
A Spaten Pro, uma cerveja estilo Munich Dunkel, escura e sem álcool, tem 10 gramas de proteína, enquanto o Cold Foam, do Starbucks, tem 19.
Já o novo Guaraná Zero tem 4,4 gramas de fibra por lata, o que corresponde a quase 20% da ingestão diária recomendada para um adulto.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) indica o consumo de ao menos 25 gramas de fibra por dia, enquanto outras instituições de referência, como o NHS, sistema público de saúde britânico, sugerem uma quantidade maior: 30 gramas.
Já no caso da proteína, para uma dieta de 2 mil calorias diárias — referência usada em grande parte do mundo nas tabelas nutricionais —, 50 gramas do nutriente são suficientes para um adulto.
Essa, porém, é uma recomendação voltada à saúde pública. Para avaliar cada pessoa, os nutricionistas costumam adotar outro parâmetro: 0,8 grama de proteína por quilograma de peso corporal para quem é sedentário e de 1,4 a 2 gramas para quem pratica exercícios físicos, a depender da modalidade e da intensidade, segundo a Sociedade Internacional de Nutrição Esportiva (ISSN).
Gestantes, bebês, crianças, adolescentes e idosos podem precisar de quantidades diferentes. As pessoas acima de 60 anos, por exemplo, têm recomendação de consumir de 1 a 1,5 grama por quilo ao dia, mesmo sem praticar exercícios.
- Whey protein: como o suplemento ajuda a ganhar músculos e para quem é indicado
- Proteína para ganhar músculos: de quanto realmente precisamos e quais os riscos do consumo excessivo
- Fibra é a nova proteína? Os surpreendentes benefícios da mais nova tendência de bem-estar
O professor Hamilton Roschel, nutricionista e diretor científico do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), diz que é consenso na comunidade médica que o brasileiro apresenta deficiência no consumo de fibras, em razão da ingestão cada vez menor de frutas, legumes e verduras.
O mesmo, porém, não pode ser dito sobre as proteínas. "No passado recente, o Brasil enfrentava um problema muito mais grave de insegurança alimentar. Mas, olhando para a população como um todo hoje, estamos bem resolvidos em relação ao consumo de proteínas", ele afirma.
"Os dados disponíveis não permitem detalhar completamente as fontes dessas proteínas, mas elas vêm de uma combinação de vegetais — principalmente arroz, feijão e outras leguminosas — e de alimentos de origem animal — como carnes, laticínios e ovos."
Vale a pena consumir essas bebidas?
O professor Hamilton Roschel explica que, se não há deficiência, tampouco há justificativa para suplementação, seja por meio do whey tradicional, seja das novas bebidas funcionais.
Em geral, a suplementação é indicada para pessoas que praticam atividade física regularmente, de intensidade moderada a alta, e têm dificuldade para atingir a ingestão recomendada.
De toda forma, sabendo o quanto essas bebidas oferecem de proteína e qual é a recomendação diária para o nutriente, fica mais fácil avaliar se a cerveja ou a espuma proteica fazem sentido na alimentação, inclusive do ponto de vista financeiro.
O médico nutrólogo Fabiano Robert, que leciona nos cursos de pós-graduação da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), afirma que, em casos específicos de pessoas com alta necessidade de proteína, a alimentação convencional pode não ser suficiente.
Nesse caso, ele explica, "essas bebidas podem ser incluídas em uma alimentação saudável e têm uma proposta válida dentro da dieta, mas são uma complementação".
"Elas podem ser consideradas saudáveis dentro de determinadas demandas", ele diz. "A dieta precisa ser pensada para cada indivíduo, levando em conta suas necessidades, a presença ou não de sobrepeso e obesidade, doenças crônicas como diabetes e hipertensão e também o volume de atividade física."
Roschel, por sua vez, avalia que, do ponto de vista financeiro, é difícil justificar o consumo desses produtos pela população em geral.
A Spaten Pro deve ser lançada ao preço de R$ 10 a R$ 13, enquanto a espuma do Starbucks já é vendida por R$ 9,90, preços semelhantes, por exemplo, ao do YoPro, uma linha de produtos da Danone que inclui bebidas lácteas e iogurtes proteicos.
Levando em consideração que um ovo oferece até 7 gramas de proteína e custa de R$ 0,80 a R$ 1,30 — ante 10 gramas da Spaten Pro e 19 do Cold Foam —, é difícil justificar o custo das bebidas funcionais.
O preço da espuma do Starbucks, por exemplo, estaria mais próximo do de cortes mais caros de carne bovina, como filé mignon e picanha, acrescenta o professor. Já a cerveja oferece uma relação custo-benefício ainda menos atraente.
Com o quilo da picanha custando cerca de R$ 90 e considerando que um bife de 100 gramas tem de 26 a 30 gramas de proteína, até mesmo ela poderia ser considerada uma fonte mais barata do nutriente.
No entanto, quando se trata de nutrição, a conta não se resume ao preço. É comum que alimentos e bebidas indulgentes — aqueles que consumimos não por necessidade, mas por desejo — sejam mais caros.
Essas diferenças, aliás, podem ser vistas até em alimentos não indulgentes, como o ovo e a carne, ambos considerados boas fontes de proteína pelos profissionais da saúde, mas com diferenças significativas de preço.
A avaliação é do nutrólogo da Abran. Ele ressalta que mesmo alimentos que não são inteiramente saudáveis podem ter um papel importante na dieta, já que "a alimentação atende a uma necessidade fisiológica, mas também cumpre um papel social".
"Comemos por necessidade, mas também por prazer", Robert explica. "Se o paciente não abre mão da cerveja, pode ser melhor negociar o consumo de uma sem álcool. Se ela tiver proteína adicionada, isso pode ser bem-vindo. O mesmo vale para o refrigerante. Pode-se recorrer à estratégia de um refrigerante sem açúcar e, se tiver fibras adicionadas, melhor ainda."
A diretora de marketing da Ambev, Gabriela Gallo, faz coro à visão de Robert. A gente de forma alguma lança a Spaten Pro para substituir algum alimento ou como uma prescrição. Ela entra para complementar, como vemos outros produtos fazendo", diz Gallo. "Ela une dois mundos que normalmente não estão próximos: o da socialização, que a cerveja já domina, e o da nutrição."
A executiva ressalta que foram necessários cinco anos e mais de cem testes até o lançamento. "A gente não queria criar uma bebida proteica com sabor de cerveja, e sim uma cerveja com proteína. Tem dificuldades para se fazer isso em termos de diluição, de sabor, de fazer algo cujo sabor não seja prejudicado pela proteína", conta.
- O que aprendi quando parei de consumir açúcar por 6 semanas
- Vitamina D: o que se sabe e o que falta saber sobre suplementos, benefícios e riscos
De onde vêm a proteína e a fibra dessas bebidas — e por que isso importa?
A fibra presente no novo Guaraná é insolúvel. Os especialistas ressaltam que, por isso, o refrigerante não pode ser considerado uma fonte única do nutriente, já que uma alimentação adequada também deve incluir fibras solúveis.
A fibra solúvel, vale lembrar, ajuda a controlar a glicemia e o colesterol, enquanto a insolúvel atravessa quase intacta o sistema digestivo, aumentando o volume das fezes e auxiliando na prevenção da prisão de ventre.
Também é importante avaliar a origem da proteína. No caso da espuma do Starbucks, ela vem do whey, proteína natural extraída do soro do leite de vaca durante a fabricação de queijo. Já a da Spaten Pro provém de duas fontes: 75% de whey e 2,5 gramas de colágeno hidrolisado.
O nutrólogo Fabiano Robert explica que o colágeno pode trazer benefícios para a saúde das articulações, mas tem menor relação com a formação muscular do que a proteína do leite.
"Há estudos que demonstram benefícios do colágeno hidrolisado, principalmente para mulheres durante o climatério e para quem faz musculação, porque ele pode prevenir e até tratar lesões articulares. Mas não vai melhorar as características da pele, porque isso depende de outro tipo de colágeno, que precisa ser produzido pelo próprio corpo."
Por que a febre da proteína chegou à cerveja?
A onda de consumo de proteínas tem explicações múltiplas, entre elas a popularização da musculação nas redes sociais e a disseminação das chamadas canetas emagrecedoras.
No mercado de cervejas, porém, a tendência surge em um momento particularmente desafiador para a categoria: o consumo da bebida vinha perdendo espaço.
Segundo a Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil), houve uma queda de 5% em 2025, o que representou 14,75 bilhões de litros a menos consumidos.
Embora não se possa atribuir essa retração apenas à mudança de hábitos, visto que a alta dos preços também pode ter afetado a demanda, analistas do mercado apontam a busca por opções associadas a um estilo de vida mais saudável como um dos fatores que ajudam a explicar a perda de espaço da cerveja tradicional.
A própria Ambev enfrentou momentos de retração no volume vendido no Brasil ao longo de 2025, embora tenha conseguido preservar o desempenho financeiro, em grande parte devido às bebidas premiums.
É nessa categoria que a companhia reúne sua chamada plataforma de wellness, voltada a produtos associados a bem-estar — entre eles as cervejas sem álcool, velhas conhecidas do público.
No segundo semestre de 2026, aliás, os rótulos de wellness cresceram cerca de 60%, antes mesmo do lançamento da Spaten Pro. O desempenho foi puxado pela Michelob Ultra, uma American Light Lager com 79 calorias por long neck e cerca de 80% menos carboidratos do que as cervejas comuns, cujas vendas cresceram 250% no período. A Stella Pure Gold também avançou, em cerca de 180%.
O que é o efeito halo — e como fugir dele?
O professor Hamilton Roschel, da USP, afirma que, além de verificar a origem da proteína ou da fibra nos chamados alimentos funcionais, é preciso avaliar a composição desses produtos como um todo.
Faria pouco sentido, por exemplo, a adição de proteína a uma bebida alcoólica, já que o álcool prejudica a absorção desse nutriente. Não é o caso da Spaten Pro, vale ressaltar, já que a formulação não contém álcool, mas o exemplo ilustra a recomendação do nutricionista.
A Spaten Pro não tem açúcares adicionados nem gorduras, mas, por ser produzida à base de malte e lúpulo, contém 92 calorias por lata. É menos do que as 147 calorias da versão tradicional, a Spaten Puro Malte, mas ainda é um valor considerável, acrescentam os especialistas.
Essa preocupação, diz Roschel, está relacionada ao chamado "health halo effect" — ou efeito de aura de saúde, em tradução literal. É como se convencionou chamar a percepção de que a adição de um nutriente associado à saudabilidade pode levar o consumidor a considerar o alimento como um todo saudável, quando isso não é necessariamente verdade.
"A percepção positiva gerada por um único nutriente anunciado — como proteína ou fibra — acaba sendo generalizada para o produto inteiro. O consumidor passa a enxergá-lo como mais saudável de forma global, inclusive em aspectos que não têm relação com o nutriente destacado", ele explica.
Arte por Daniel Arce Lopez, da equipe de Jornalismo Visual da BBC News Brasil
