Em dois fins de semana de setembro, a Alemanha testemunhou mais uma manifestação — a mais recente e talvez a mais marcante — de um drástico solavanco no sistema partidário formado no pós-Segunda Guerra. Nos estados de Saxônia-Anhalt e Mecklemburgo-Pomerânia, a Alternativa para a Alemanha (AfD), de extrema-direita, saiu vencedora, embora uma espécie de "cordão sanitário" dificulte sua ascensão ao governo local. Em Berlim, a capital federal, dividida durante as quatro décadas da Guerra Fria, saiu vencedor o partido A Esquerda, que tem raízes no Partido Comunista da extinta Alemanha Oriental. Sintoma ainda mais grave: a União Democrata Cristã (CDU), que lidera o governo federal em coalizão com o Partido Social Democrata (SPD), teve menos de 5% dos votos e ficou fora do parlamento regional de Mecklemburgo.
O avanço dos extremos do espectro político é mais evidente na França, segunda metade da dupla que por décadas deu as cartas na União Europeia (UE), onde será escolhido em 2027 o sucessor do presidente Emmanuel Macron, um político de centro. No momento, lideram as pesquisas de opinião o Reagrupamento Nacional (RN), ultradireitista, e a França Insubmissa, formação recente de esquerda que ocupou o espaço aberto pelo encolhimento de socialistas e comunistas. Na Itália, que no pós-guerra viveu a polarização entre a Democracia Cristã e o poderoso Partido Comunista — ambos desaparecidos —, é a extrema-direita que comanda a coalizão de governo, com Giorgia Meloni, do Irmãos da Itália. No Reino Unidos, seguem se alternando conservadores e trabalhistas, mas o Partido da Reforma, que liderou a campanha pela saída do país da UE, foi o grande vencedor da última rodada de eleições locais e regionais.
Voto de protesto
Em cada um dos casos — a a lista se estende pelas quatro direções —, é uma onda de protesto contra o establishment, a "política tradicional", que captura o descontentamento dos eleitores com uma conjunção de crises. É o que mostra um estudo que reuniu 150 analistas de 31 países, o PopuList, copatrocinado pelo jornal britânico 'The Guardian'. No que diz respeito à extrema-direita, os pesquisadores constataram um avanço meteórico: em 1995, apenas 5% dos europeus votava com ela; eles passaram a 10% na década passada e, agora, chegam a 23%. Considerando também a esquerda radical, hoje 30% dos cidadãos do continente dão seu voto em alguma das legendas que os estudiosos agrupam sob o conceito de "populistas".
"Quando começamos o PopuList, em 2018, a principal constatação foi de que um em quatro eleitores da Europa votavam em partidos populistas, de direita ou de esquerda", disse ao Guardian o coordenador do estudo, Matthijs Rooduijn, cientista político da Universidade de Amsterdã. "Agora, um em quatro escolhem a extrema-direita: é uma mudança importante", observa. Rooduijn reconhece que a AfD alemã, o RN francês e o partido de Meloni "sabem amarrar muito bem sua narrativa, que é sempre na linha de 'nós' contra 'eles': a nação contra os imigrantes, os juízes, as 'elites' ou quem quer que seja". O estudioso aponta outro fator de sucesso: "Eles aprenderam a articular o discurso de modo a mobilizar emoções como raiva e desprezo, mas também orgulho e esperança".
"O crescimento contínuo da extrema-direita reflete vetores estruturais profundos: inflação, descrença nas instituições políticas, imigração e os impactos da competição econômica global", diz outro estudo, também de junho, este produzido pelo Centro de Política Europeia (EPC, em inglês). Em um balanço com o ponto de partida nas eleições de 2024 para o Europarlamento, o relatório confirma que a tendência nas votações previstas para 2027, no âmbito continental, continua sendo a perda de espaço das forças políticas tradicionais. Mas, ainda que os populistas de direita não se beneficiem de uma transferência automática de votos, "é cedo para determinar se essa é uma estagnação temporária ou se, de fato, eles chegaram a um platô".
Assimilação
O estudo do EPC coincide com o do PopuList em outro ponto: o efeito da progressiva "assimilação" dos populistas — de esquerda ou de direita — pelo sistema político. "Uma narrativa sustenta que a participação em governos causa danos, porque os eleitores sentem os efeitos das políticas aplicadas e passa a rejeitá-los", diz o instituto europeu. "Mas quando eles lideram o gabinete, tendem a manter ou mesmo ampliar o apoio, e mesmo quando um deles perde terreno, outra força semelhante conquista a mesma fatia do eleitorado."
Hoje, populistas de direita lideram o governo italiano e integram coalizões na Croácia, República Checa e Finlândia. Avançam de maneira consistente na Espanha e em Portugal. Assim como na Alemanha, lideram pesquisas eleitorais na França, na Áustria e na Bélgica.
Matthijs Rooduijn, do PopuList, vê na "normalização" dos radicais um processo de "autorreforço": "Quanto maiores e mais bem-sucedidos, mais 'normais' se tornam". O analista aponta como "aliados", nesse processo, a mídia e os partidos tradicionais que incorporam propostas dos populistas. E aconselha um olhar de profundidade para o fenômeno:"É importante enfatizar que não estamos falando de algo súbito súbito: isso vem se desenrolando há décadas, apenas se acelerou mais recentemente."
