Com milhares de manifestantes nas ruas das principais cidades do país, protestando contra a rejeição do parlamento a um pacote de medidas para garantir o direito à moradia, inclusive a proibição do despejo de inquilinos até 2030, o primeiro-ministro socialista da Espanha, Pedro Sánchez, estudava ontem a opção de convocar eleições legislativas antecipadas. A crise da moradia teve um momento crucial na retirada de Maricarmen Abascal, idosa madrilenha de 87 anos, despejada pelo proprietário do apartamento onde morava havia 70 anos.
"Todos temos direito à moradia, e não é justo o que está acontecendo", disse à agência de notícias France-Presse (AFP) Adhara Freile, uma jardineira de 41 anos, que participou do protesto na capital espanhola. O governo local avaliou em 70 mil o número de participantes, mas o Sindicato das Inquilinas, principal organizador do protesto, mencionou 500 mil. Ativistas mantêm um acampamento há duas semanas — desde a remoção da idosa, que retornou à casa por decisão judicial — na praça Porta do Sol, no coração de Madri. Ontem, marchas convergiram para a Praça de Cibeles, também no centro histórico, tendo à frente faixas que convocavam a uma greve geral.
"O que se respira nas ruas é uma nova energia, uma energia que há muito tempo não víamos, uma energia que vem de demonstrar que oito dias de poder popular são capazes de fazer muito mais do que oito anos de governo progressista", disse à AFP Valeria Racu, porta-voz do Sindicato de Inquilinas, em referência ao governo socialista. "Os políticos estão a serviço do dinheiro, dos fundos abutres, e afastados do povo", denunciou Freile, que mora com o companheiro em um apartamento em um bairro de Madri e teme ter que deixá-lo no ano que vem, quando vence seu contrato, se o aluguel aumentar — como já aconteceu com vários vizinhos.
Milhares de pessoas foram às ruas também em cidades como Palma de Mallorca, Santander, Segóvia e Toledo. Em Barcelona, uma marcha foi suspensa por causa de um temporal. Em Valência, a passeata terminou em confrontos entre a polícia e grupos de manifestantes. Nove agentes tiveram ferimentos leves e cinco pessoas foram detidas, segundo a imprensa local.
"Abutres"
O livreiro Marcos Sainz, de 26 anos, antes alugava com alguns amigos um apartamento de três quartos pagando 900 euros por mês. Recentemente, mudou-se para outro, de dois quartos, ao custo de quase 1.000 euros. "E me sinto privilegiado, porque posso arcar", disse Sainz à AFP, enquanto a multidão em Cibeles cantava lemas como "fora dos nossos bairros, abutres" e "greve geral". Sainz garantiu que continuará protestando "até que alguém ouse regular" o mercado. "Todos vamos ter de ir embora de Madri", afirmou. "E lamento, porque sou de Madri", desabafou.
As manifestações, convocadas antes da votação parlamentar de sexta-feira, ocorrem no contexto da crise desatada há cerca de 10 dias pelo despejo de Maricarmen Abascal. O caso tornou-se símbolo dos problemas com o acesso da moradia que afetam a Espanha há anos. Ela foi despejada do apartamento onde morava havia sete décadas depois que a imobiliária que comprou o imóvel quis aumentar o aluguel em 275%.
"Vivemos em condições muito precárias, apertadíssimas, por um sistema que não nos dá condições dignas para viver", explicou Javier, instalador de placas fotovoltaicas de 31 anos, que não quis informar o sobrenome. "Estamos reivindicando um direito básico, que é ter uma moradia digna, uma estabilidade." Ele ofereceu como exemplo o próprio caso: "Agora mesmo, estou vivendo em um apartamento de 90 m², com outros quatro moradores. Venho pagando, como a maioria de nós, metade do salário por um quarto minúsculo".
Sánchez avalia
A derrota do governo no Parlamento, onde foram rejeitados na sexta-feira dois decretos com medidas sobre a habitação, voltou a colocar no centro do debate a possibilidade de uma antecipação das eleições gerais, inicialmente previstas para 2027. Segundo a imprensa espanhola, o presidente do governo (primeiro-ministro), o Pedro Sánchez, do Partido Socialista Operário Espanho (PSOE), pediu alguns dias para avaliar a situação e decidir se vai convocá-las.
O líder da oposição de direita, Alberto Núñez Feijóo, do Partido Popular (PP), exigiu ontem que Sánchez "pare de ameaçar" com eleições e as convoque de uma vez, "porque o país não aguenta mais".
Assim como acontece em muitos países europeus, a falta de moradias acessíveis é um dos principais problemas sociais na Espanha, onde plataformas turísticas como Airbnb e fundos de investimento são responsabilizados pelo aumento vertiginoso dos preços, ao comprar propriedades imobiliárias e reduzir a oferta para os moradores.
