Opinião: Armas não trazem a paz

''Armas não trazem a paz. Diálogo e reconciliação, sim. O mundo precisa descartar a cultura armamentista e abraçar a cultura do pacifismo''

Rodrigo Craveiro
postado em 29/07/2020 19:14 / atualizado em 29/07/2020 04:00

A Terra não é plana. O homem já foi à Lua. O Holocausto ocorreu e foi a maior vergonha da humanidade. Vacinas imunizam. Algumas verdades são inexoráveis, ainda que muitas pessoas, tomadas pela cegueira ideológica ou pelo extremismo que lhes turvou a mente, insistam em negá-las. Aliás, o negacionismo é um dos maiores males da humanidade. Quase sempre emburrece. Outra verdade inapelável: armas matam. Defensores de armamentos costumam adotar o raciocínio rasteiro e torpe de que o que mata é aquele que os utilizam, não a arma em si. É óbvio que nenhum fuzil ou revólver vai disparar sozinho, nenhuma granada será detonada como que por mágica. Mas, fuzis, revólveres e granadas foram feitos para tirar a vida das pessoas. Em alguns casos, crianças têm o futuro ceifado por acidentes domésticos com armas. Associar a posse de arma ao direito à defesa ou a um passaporte pela paz chega a ser tragicômico.

O ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, declarou ontem que as armas nucleares de seu país garantem segurança e previnem a guerra. Ainda que o efeito dissuasivo seja razoável, armas nucleares costumam provocar uma corrida atômica e lançar toda uma região no caminho da hecatombe. Alguns anos atrás conversei com Theodore “Dutch” Van Kirk, o navegador do Enola Gay, o avião que despejou a bomba atômica sobre a cidade japonesa de Hiroshima, matando dezenas de milhares de inocentes. Ele me disse que faria tudo novamente e que o ataque nuclear foi a única forma de pôr fim à Segunda Guerra Mundial. Um raciocínio cruel. Em um conflito militar, a população civil precisa ser preservada a qualquer custo.

A paz, a estabilidade e a prosperidade somente serão alcançadas quando o mundo adotar a desnuclearização como norma. Isso vale para nações que muitas vezes colocam-se à margem do direito internacional e de acordos multilaterais de desarmamento. No caso da Coreia do Norte, são reconhecidas as violações dos direitos humanos cometidas pelo regime comunista, assim como as provocações que levaram ao confronto com a Coreia do Sul, nos últimos 70 anos. Nada garante que Kim não utilizará o arsenal nuclear contra os vizinhos do Sul para reafirmar sua hegemonia no Sudeste da Ásia. Nada garante que ele não enviará mísseis com ogivas atômicas diretamente para bases militares dos Estados Unidos, ainda que isso soasse como suicídio.

Armas não trazem a paz. Diálogo e reconciliação, sim. O mundo precisa descartar a cultura armamentista e abraçar a cultura do pacifismo. Antes que se envolva num processo autodestrutivo, com a deflagração de conflitos cada vez mais desastrosos. Trocar o gatilho pela caneta e pelo papel pode ser um bom começo. 

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