Lula, Battisti e as desculpas

JOSÉ HORTA MANZANO
postado em 29/08/2020 07:59 / atualizado em 29/08/2020 08:00

Certas atitudes expõem a incompetência e a falta de visão de governantes. O caso Battisti é emblemático. Terrorista condenado por atos cometidos nos anos 70 — dois homicídios e participação em outros dois —, o italiano Cesare Battisti fugiu da prisão, passou anos homiziado por França e México para, finalmente, pousar em Copacabana, onde se escondeu por três anos.

Descoberto em 2007, passou a navegar pelos meandros da exótica prática judiciária do Brasil. Foi preso, foi solto, recebeu o estatuto de refugiado político, perdeu essa condição. As chicanas de nossa peculiar Justiça — com sua dificuldade de dar decisão definitiva, como a deixar sempre brecha para uso futuro — conduziram o caso até a escrivaninha do presidente da República, então um certo Lula da Silva.

A ele coube dar o veredicto. Numa decisão estranha, Lula humilhou a Justiça italiana e, passando por cima da decisão dos tribunais da península, concedeu asilo político ao condenado por homicídio. Pegou muito mal, tanto aqui quanto na Itália.

O asilado passou a transcorrer dias despreocupados numa cidade de praia do estado de São Paulo. Distraído, não se deu conta de que o Brasil ainda guarda relentos absolutistas do ancien régime, sistema em que a lei se amolda à vontade pessoal do rei.

Pois foi o que aconteceu. Recém-eleito, doutor Bolsonaro prometeu revogar, uma vez empossado, o asilo dado a Cesare Battisti. O asilado não esperou para ver — escapou à sorrelfa e tomou o rumo da Bolívia.

Ao passar a fronteira, deve ter acreditado que estava a salvo. Engano bobo. Agentes do serviço secreto italiano não tardaram a encontrar seu paradeiro. A partir daí, é permitido especular que tenha havido um acerto entre Roma e La Paz. (Essa parte não é oficial, mas é plausível.) O fato é que, apenas chegado a Santa Cruz de la Sierra, Cesare Battisti foi preso pela polícia boliviana e, em 24 horas, deportado em rito sumário.

Nem processo de extradição houve. Levado à Itália, foi trancado numa prisão de segurança máxima. Meses depois de ter voltado ao país natal, talvez para aliviar a consciência, confessou ser realmente autor dos crimes pelos quais tinha sido condenado. Consternada, a família lulopetista emparedou-se num silêncio obsequioso.

Agora, ano e meio depois da confissão de Battisti, entra em cena nosso conhecido Lula da Silva. Numa entrevista concedida a um canal amigo, apareceu contrito e arrependido de ter concedido asilo ao italiano. No entanto, a fim de manter intacta a imagem do guia infalível, procurou um culpado para a enormidade cometida.

Declarou ter sido “enganado” pelo homicida — o que traz à mente o estouro do mensalão, quando ele também se queixara de ter sido “traído”. Declarou, ainda, que não teria problema em pedir desculpa à família das vítimas. Usou o condicional. Como ninguém cobrou as desculpas, não as pediu. E o assunto morreu ali.

Com a velocidade do raio, a notícia chegou à Itália. Das vítimas de Battisti, Alberto Torreggiani é aquele que sofreu os efeitos colaterais mais severos. Tinha 15 anos de idade quando o pai, um joalheiro milanês, foi assassinado a sangue-frio. Baleado na coluna vertebral, o jovem não morreu, mas, ficou paraplégico. Está, hoje, com 56 anos, 41 dos quais passou aprisionado a uma cadeira de rodas.

Ao tomar conhecimento do pedido de “desculpas” de Lula, Torreggiani mostrou desânimo. Declarou-se indignado e perplexo. Intuiu que as lágrimas do ex-presidente são para uso eleitoreiro. Amargo e irônico, indagou se seria o caso de agradecer ao Lula. Depois de tantos anos de sofrimento e atribulações, não vê sentido em ouvir, de pessoa tão importante, a confirmação do que sempre foi evidente: que ele, a vítima, estava com a razão.

Battisti, decerto habituado às chicanas da Justiça do Brasil, solicitou em maio prisão domiciliar em razão dos riscos de apanhar a covid-19. O Ministério da Justiça italiano negou provimento, argumentando que todos corriam o mesmo risco e que ele não era melhor do que ninguém. Quanto às desculpas fora de hora de Lula, comenta-se, na Itália, que essa covid parece estar causando efeitos estranhos na cabeça de certas pessoas.

*Empresário e blogueiro

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