Aprendizados sobre negritude e teatro brasiliense

ARTHUR HEINRICH SCHERDIEN
postado em 29/08/2020 07:58 / atualizado em 29/08/2020 07:59
 (foto: Caio Gomez/DB/D.A Press)
(foto: Caio Gomez/DB/D.A Press)

Em minha curta caminhada no fazer artístico numa cidade relativamente jovem que é Brasília, tive a sorte de ser orientado e guiado por artistas que chegaram antes de mim e me mostraram as dificuldades de ser artista e que, se for negro, são replicadas exponencialmente. Então, aprendi que, se tiver a rede de afeto e apoio, tudo pode ser mais leve e menos traumatizante.

Começo minha empreitada artística aos 15 anos no teatro de escola mesmo. Em 2014, realizo um dos meus grandes sonhos: entrar em universidade federal (UnB) no curso com que sempre sonhei — o de artes cênicas. E a história se repetiu. Como no ensino médio, numa turma de 35 alunos, havia só duas pessoas negras. Na universidade, numa turma com quantidade aproximada, havia três negros. Na recepção, pessoas que me precederam, negras, fortes, propiciaram-me um ritual de entrada em que me senti lavado para que pudesse percorrer o caminho nada fácil.

Até então, nunca havia visto uma segregação racial nos processos artísticos. Mas, chegou o momento que acredito que, sendo negro e ator, você acaba inevitavelmente passando, o dia em que você interpreta o empregado ou, no meu caso, o escravo. No processo, parecia eu o único incomodado com a situação, o único que percebia que estávamos, mais uma vez, estereotipando o corpo negro de acordo com o legado nocivo de nossa colonização.

Lembro de ir e voltar chorando para os ensaios. No dia 10 de outubro (Dia da Saúde Mental) daquele ano, larguei o processo artístico que tanto me fazia mal. Aprendi, então, que não se deve ou pode esperar que façam uma revolução por você, ou que levantem uma bandeira por você, faça você mesmo.

Quando, finalmente, entendi que eu teria, sim, que fazer 10 vezes mais do que qualquer outro artista não negro para ter a metade de reconhecimento, me veio um desespero imediato. Quando se é negro, o mundo sempre vai dizer que você não é capaz, que não é forte o suficiente, que o seu lugar não é ali, entre outras frases desmotivantes.

Infelizmente, ainda vivemos num mundo que inferioriza o negro, paga-lhe salário inferior, considera sua arte inferior, sua inteligência menor, do que lhe resulta menos chances de dar certo. Mas, aprendi que posso sempre ser contra a maré. Aprendi um pouco de tudo do teatro para que possa ocupar e estar em todos os lugares.

Daí por que é importante ter pessoas negras ocupando lugar de destaque em todos os setores. Nas artes também. Hoje, ainda temos grupos de teatro com espetáculos incríveis, mas sem uma pessoa negra na equipe. Se é o caso de seu trabalho, de sua equipe, sinto informar que esse trabalho reproduz um sistema cultural racista. Entendo que falar que algo é racista é poder dar oportunidade de fazer que a pessoa pense, mude e transforme a forma de fazer sua arte.

Qual seu filme brasileiro favorito? O personagem principal é negro? Somos bombardeados cada vez mais para consumir produtos artísticos norte-americanos ou europeus, esquecendo da gama infinita que temos de produções de qualidade brasileiras. Qual sua peça de teatro favorita? O elenco é negro? O diretor é negro?

Temos de reconhecer, valorizar, incentivar e consumir as criações de artistas pretos de um país onde 55,8% da população é preta (junção de negros e pardos, segundo o IBGE). Veja o mercado livreiro, só 10% dos livros brasileiros publicados entre 1965 e 2014 foram escritos por autores negros, como aponta pesquisa da UnB.

Já a Universidade Estadual do Rio de Janeiro, na pesquisa A Cara do Cinema Nacional, revelava que homens negros são só 2% dos diretores de filmes nacionais e 4% dos roteiristas. A pesquisa considerou as produções brasileiras de maior bilheteria entre 2002 e 2014. Entre os filmes analisados, 31% tinham no elenco atores negros. Aprendi que um país que não ensina a valorizar a própria identidade torna-se um país sem identidade.

É preciso tomar consciência do que estamos consumindo e do que queremos mudar e construir como referência sobre nós mesmos. Somos um país de muita diversidade, com diferenças culturais, uma multiplicidade de expressões artísticas e com distintas possibilidades de fazer arte.

Termos pessoas pretas lutando contra o racismo e demais opressões e ainda escolhendo a arte para atuar é digno de nota. Essas pessoas precisam ser ovacionadas, encorajadas e apoiadas pelo que são e representam. Aprendi que o mundo pode ser muito cruel e muito injusto com os negros. Então, o máximo que eu puder fazer para mudar esse quadro, vou fazer.

*Ator, dançarino, diretor, dramaturgo, produtor, drag queen, ativista e pesquisador

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