EDUCAÇÃO

A escola precisou se (re)inventar

''Na educação, mais de um bilhão de crianças e jovens de muitas partes do mundo deixaram de ir à escola. Para evitar que as atividades escolares fossem interrompidas, a escola precisou sair do lugar comum''

» REBECA MURAD / Diretora-geral de gestão do Grupo Dom Bosco » MOZART NEVES RAMOS / Titular da Cáte
postado em 03/09/2020 04:00 / atualizado em 03/09/2020 08:13
 (foto: Caio Gomes)
(foto: Caio Gomes)

O advento do covid-19 marcará a vida de uma geração. Da noite para o dia, o mundo precisou se (re)inventar. Primeiro, para sobreviver à pandemia — e ainda estamos tentando —, depois, para descobrir que o nosso presente foi roubado e o futuro chegou.


Na educação, mais de um bilhão de crianças e jovens de muitas partes do mundo deixaram de ir à escola. Para evitar que as atividades escolares fossem interrompidas, a escola precisou sair do lugar comum. Era preciso chegar à casa de todos eles, sem exceção. Mais: garantir que todos estivessem engajados e aprendendo. Isso só seria possível mediante o ensino mediado por tecnologias, o ensino remoto, que, até pouco tempo atrás não fazia parte da agenda educacional.


O desafio que se colocava, no início deste ano, era o de como construir currículos on-line e preparar professores para o novo ensino em tão pouco tempo. E as famílias, como engajá-las no processo? Eram questões que precisavam de respostas e foram gradualmente respondidas. Estava em curso novo modelo pedagógico. Mas a covid-19 desabrochou com muita intensidade as enormes desigualdades sociais de acesso ao novo ensino, especialmente em países como o Brasil. Muitos alunos não conseguiram acessá-lo por falta de conectividade digital.


Apesar disso, grande parte das escolas, de uma maneira ou de outra, conseguiram vencer os desafios iniciais. O novo ambiente de aprendizagem permitiu que a criatividade aflorasse nas mentes de professores e alunos. Foi preciso desenvolver, como nunca, a resiliência emocional e o gosto pelo novo. Em meio a uma crise sanitária sem precedentes, descortinava-se a nova escola. E não será passageira, como alguns imaginam. Encontramos oportunidades de aprendizagens para alunos e professores, por mais difícil que possa parecer.


No novo cenário, foi possível, por exemplo, pôr em prática a personalização da aprendizagem mediante programas de mentoria. Compreender as circunstâncias e demandas individuais dos alunos tornou-se peça-chave para o sucesso escolar. Diante de tantas dúvidas, inseguranças e incertezas, perder o aluno de vista era fácil demais. Recuperá-lo, muito custoso. Por isso, as escolas começaram a se dedicar como nunca a conhecer cada aluno, suas competências, suas dificuldades e seus projetos de vida. Em alguns casos, a mentoria vem sendo estendida para as famílias que precisaram reestruturar as rotinas e aprender a nova dinâmica das relações domésticas para manter os filhos ativos e produtivos.


A pandemia nos convidou, também, a revisitar a maneira de avaliar os alunos. Mesmo antes da pandemia, o modelo educacional ensaiava mudanças importantes no que se refere ao processo ensino e aprendizagem. Por exemplo, escolas contemporâneas já fazem uso do aprendizado baseado em problemas, o PBL, método de aprendizado centrado no aluno. Mas, no campo das avaliações escolares, olhávamos muito mais pelo retrovisor do que pelo farol.


O receio da cola ou do plágio paralisava a busca por formas mais eficientes de compreender “se” e “quanto” o aluno havia aprendido. Com o distanciamento obrigatório, o medo tornou-se realidade: era impossível assegurar que o estudante não havia consultado os livros ou a internet durante o processo avaliativo. A bem da verdade, se a resposta da prova está no Google, a pergunta não é questionadora o bastante.


As perguntas importantes que hoje o mundo precisa responder demandam efetivo desenvolvimento de competências cognitivas e socioemocionais. Bem mais do que avaliações tradicionais, a autoavaliação e a avaliação formativa tornaram-se mais adequadas para que professores, famílias e os próprios alunos pudessem concluir se as expectativas de aprendizagem tinham sido alcançadas.


Felizmente, os dados sanitários estão em queda em várias partes do mundo — pré-requisito essencial para o retorno às atividades presenciais. Com a segurança devida, precisamos compreender que, agora, é hora de preparar a volta à escola, como vem acontecendo nos demais setores produtivos, trazendo na bagagem tudo o que conseguimos aprender no período de isolamento social.


Temos diretrizes sanitárias e educacionais para nos dar segurança. Estudos de várias partes do mundo, como o do Public Health England (PHE), mostram que a reabertura de escolas em territórios cujas condições sanitárias permitem, traz menos risco de danos a longo prazo do que manter as crianças em casa. Não podemos permitir, como disse o secretário-geral da ONU, António Guterrez, que a pandemia se torne uma catástrofe geracional para a educação de crianças e jovens.

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