Um país em chamas

Visão do Correio

Correio Braziliense
postado em 16/09/2020 08:04 / atualizado em 16/09/2020 08:14

É conhecida a morosidade dos governantes brasileiros na tomada de decisões diante de situações emergenciais, como a que ocorre, atualmente, em três dos principais biomas do país: o Pantanal mato-grossense, a Amazônia e o Cerrado, tomados pelas queimadas. Somente depois desses ecossistemas arderem em chamas por semanas, as autoridades federais e estaduais mobilizaram-se para tentar conter o improvável: o avanço calcinante das chamas, que destrói a fauna, a flora — também sufoca atividades econômicas, como o turismo — e contribui para o desequilíbrio ambiental global.


Tardiamente, o governo federal mobilizou-se para colaborar, efetivamente, no combate aos incêndios que vêm devastando milhões de hectares. Reconheceu o estado de emergência decretado pelo governo do Mato Grosso do Sul e prometeu apoiar os esforços para debelar o fogo que consome o Pantanal há mais de um mês. Espera-se que, realmente, libere os recursos prometidos para ações voltadas ao combate direto às chamas, assistência à população e recuperação de infraestruturas destruídas.


Também cabe às autoridades, tanto federais quanto estaduais, investigar a fundo se as queimadas são criminosas, já que é prática comum entre fazendeiros queimar a vegetação para abrir novas áreas produtivas ou, simplesmente, colocar fogo para limpar o solo. Que a Polícia Federal, já em campo para descobrir os responsáveis pelas queimadas intencionais no Pantanal, prenda esses verdadeiros criminosos que não têm qualquer compromisso com a preservação de tamanha riqueza natural.


De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) — órgão altamente qualificado que sofre ataques seguidos de setores governamentais —, esta é a pior temporada de incêndios desde 2010, atingindo, principalmente, os três biomas. Já foram identificados mais de 132 mil focos de fogo em todo o país, sendo 48% dos registros na Amazônia, 28% em áreas de cerrado (boa parte em Minas Gerais e Goiás) e 11% no Pantanal.


Especialistas reconhecem a dificuldade em conter as chamas por causa da falta de chuvas, baixa umidade do ar e, sobretudo, pela falta de uma política oficial consistente de proteção ambiental. Dificuldade que aumenta, enormemente, quando os responsáveis pela preservação do meio ambiente na Esplanada dos Ministérios apostam no desmantelamento de órgãos de fiscalização e controle como o Ibama, e de conservação, como o ICMBio. O certo é que somente através da implantação de uma política ambiental séria o Brasil poderá virar essa triste página de sua história.

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