TRÂNSITO

O eterno faz de conta

Enquanto uma minoria idealista apela para o bom-senso de condutores e pedestres, o Executivo e o Legislativo editam medidas provisórias e se preparam para aprovar leis que premiam uma pequena parcela dos motoristas: os infratores contumazes

Adriana Bernardes
postado em 17/09/2020 08:00 / atualizado em 18/09/2020 22:59
 (crédito: Caio Gomez/CB/D.A Press)
(crédito: Caio Gomez/CB/D.A Press)

“Perceba o risco, proteja a vida” é o tema da Semana Nacional de Trânsito deste ano. Criada há 23 anos, quando foi promulgado o atual Código de Trânsito Brasileiro, é um momento dedicado à reflexão e à educação da sociedade como um todo, para que o nosso ir e vir sejam mais seguro. Na prática, o evento ocorre por pura formalidade. Não pela vontade das pessoas envolvidas na sua elaboração e execução. Mas porque, no Brasil, a educação, de forma geral, há muito deixou de ser prioridade e a educação para o trânsito é um faz de conta lindo descrito na Lei nº 9.503/97.

Enquanto uma minoria idealista apela para o bom-senso de condutores e pedestres, o Executivo e o Legislativo editam medidas provisórias e se preparam para aprovar leis que premiam uma pequena parcela dos motoristas: os infratores contumazes. Aqueles que dirigem alcoolizados; que desrespeitam os limites de velocidade nas rodovias e nas vias urbanas; que furam o sinal; que se distraem ao telefone em conversas sobre frivolidades ou trocando mensagens. O PL da morte está aí para reforçar o que digo.

Mais de duas décadas após a sua publicação, o CTB é vergonhosamente desrespeitado no que traz de mais eficaz e bonito: a União, os estados, o DF e os municípios devem investir na educação para o trânsito. Formar condutores cidadãos dos seus direitos e deveres. Mas, as ações ocorrem de forma pontual, sem aferição do seu impacto e eficácia na sociedade. Além da Semana Nacional de Trânsito, temos a campanha nos feriadões: Natal e ano-novo; carnaval, Semana Santa, retorno às aulas e alguma coisa no Maio Amarelo. Conto-da-carochinha que não engana a mais ninguém.

E as mais de 40 mil vidas perdidas todos os anos? E os que sobrevivem com sequelas físicas e psicológicas? Esses são transformados em números por gestores públicos. Números de mortos. Gastos com o sistema de saúde. Um peso para a Previdência Social. E a educação para o trânsito, único caminho para salvar vidas, isso não parece importar. Nem ontem, nem hoje. No futuro? Talvez. Até lá, torço para as pessoas sérias e realmente preocupadas com o tema (e são muitas neste e noutros governos) tenham força e coragem para continuar lutando por um trânsito mais seguro para todos nós!

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