Quadrilha

ORLANDO THOMÉ CORDEIRO
postado em 18/09/2020 08:02 / atualizado em 18/09/2020 08:03

“João amava Teresa que amava Raimundo,
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.”


Os versos imortais de Carlos Drummond de Andrade revelam paixões não correspondidas, além de apontar o destino de cada personagem. Curiosamente, Lili, que não amava ninguém, foi a única a se casar.

Na última quarta-feira, encerrou-se o prazo para os partidos definirem, em convenções municipais, suas listas de candidaturas a câmaras municipais e prefeituras nas eleições de novembro próximo. As notícias sobre decisões ali tomadas demonstram que as tendências apontadas por mim no artigo O tempo não para, publicado neste espaço em 27 de dezembro de 2019, estão se confirmando.

Na ocasião escrevi: “Como se pode verificar, em 3.081 cidades (55,31% do total) temos menos de 10 mil eleitores, enquanto em 197 (3,53% do total) encontramos mais de 100 mil, sendo que apenas em 96 delas poderá haver segundo turno. Parece-me óbvio que o comportamento, tanto de quem se candidatará quanto do eleitorado, não será homogêneo.

Afinal, são eleições municipais. Quanto ao primeiro grupo de cidades, ouso afirmar que os interesses locais prevalecerão sobre as questões nacionais, significando campanhas bastante paroquiais, nas quais uma das marcas será a atuação de parlamentares federais e estaduais buscando sedimentar apoios com vistas às reeleições em 2022”.

Segundo respeitados analistas políticos, o estado de Minas Gerais representa síntese do Brasil. Com base nessa premissa, selecionei alguns municípios daquele estado e pesquisei no site do TSE as atas de convenções partidárias. Vejam o que encontrei sobre candidaturas às prefeituras: em Serranópolis de Minas (3.910 eleitores), PT e PSD estão coligados; em Ponto Chique (3.929 eleitores), PSB e Patriota caminharão juntos; em São Francisco do Glória (3.971 eleitores), a coligação reúne PT, MDB e PSDB; em Volta Grande (4.431 eleitores), a aliança é entre PSL e PSDB; em Sardoá (4.903 eleitores), a chapa majoritária é formada por PSL e Cidadania; em Careaçu (5.004 eleitores), PDT, DEM e PL formam a coligação; em Santana da Vargem (5.863 eleitores), PP e PT coligaram-se; em Desterro de Entre Rios (6.046 eleitores), PSB, PV e PL estão coligados; e em Machacalis (6.112 eleitores) temos juntos os partidos Avante, Cidadania, PP, PT, MDB e PDT.

Ou seja, nas cidades menores, vários partidos que no plano nacional estão em campos antagônicos não se preocupam em manter tal alinhamento, optando por definir as coligações com base nas questões locais. Interessante observar que, mesmo em algumas das maiores cidades, estamos tendo notícia de alianças eleitorais esdrúxulas, algo como casamento de jacaré com cobra d´água.

Tais articulações decorrem de uma visão em que se prioriza o pragmatismo em detrimento da coerência programática ou ideológica. E, ao contrário do que possa parecer à primeira vista, a maioria do eleitorado não se choca, aceitando tranquilamente tal situação. Até porque, convenhamos, partido político é uma instituição com baixíssimos índices de aprovação junto à população, como pode ser confirmado por inúmeras pesquisas.

No Brasil, esse tipo de situação tem sido recorrente nas disputas para os cargos do Poder Executivo. Nas eleições para câmaras municipais teremos nova realidade, já que será a primeira eleição em que as coligações estão proibidas. Para conseguir se fazer representar no Legislativo, cada partido vai precisar conquistar os próprios votos em quantidade suficiente, deixando de contar com a carona da votação de outros partidos.

Assim, cresce a possibilidade de candidatos ao parlamento municipal optarem por apoiar candidaturas ao Executivo que lhes permita ampliar as chances de vitória, ainda que sejam diferentes das oficialmente definidas nas respectivas convenções partidárias. E, quanto maior o município, maior a tendência de isso ocorrer. Afinal, o que os olhos não veem o coração não sente. Ou, ainda, farinha pouca, meu pirão primeiro.

Por fim, recorro novamente ao genial Drummond e seu poema que dá título ao artigo. No início da noite de 15 de novembro, a gente poderá ver quem terá final semelhante aos personagens e, principalmente, se aparecerá alguém que, a exemplo de J. Pinto Fernandes, surja como uma surpresa nas urnas. Vai vendo...

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