Visão do Correio

VIsão do Correio: Inteligência versus crime

somente com a atuação conjunta dos órgãos de segurança pública por meio dos serviços de inteligência, o combate à criminalidade logrará êxito

Correio Braziliense
postado em 18/09/2020 21:32 / atualizado em 19/09/2020 08:44
 (crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press; )
(crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press; )

O genial Nelson Rodrigues dizia que toda a unanimidade é burra, mas, no caso do combate à criminalidade, sobretudo a organizada, 10 entre 10 estudiosos do tema concordam que só é possível enfrentar o crime com sucesso através do uso contínuo e sistemático da inteligência. Este é o caso recente das investigações de uma força-tarefa de Minas Gerais que trabalha para estrangular o sistema financeiro das facções criminosas que atuam em todo o território nacional e que dominam, desde o tráfico de drogas, até o contrabando de armas.

A ousadia dos bandidos não tem limites na tentativa de escapar das mãos da Justiça. Investigadores da Operação Caixa Forte, envolvendo a Polícia Civil e Polícia Federal mineiras, descobriram que os criminosos da facção Primeiro Comando da Capital, mais conhecida como PCC — a organização, que atua nas principais capitais do país, age desde 1993 —, utilizavam uma rede de idosos e crianças para fornecer recursos financeiros a integrantes da quadrilha que se encontram presos nas penitenciárias de segurança máxima mantidas pelo governo federal.

A cúpula do PCC, de dentro das prisões federais, montou um esquema para a abertura de contas bancárias em nome de crianças com idade entre 4 a 10 anos e de idosos acima de 60 anos. Com esse artifício, tentava esconder das autoridades as movimentações financeiras do grupo. Até agora, foram detectadas mais de 20 contas cujos titulares são pessoas com menos de 12 anos e com mais de 60. Os chefões da facção as usavam para lavagem de dinheiro, que era destinado a seus familiares e seus comparsas.

O coordenador da operação policial, Alexander Castro, delegado da PF e comandante da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado de Minas Gerais (Ficco), lembra que o modus operandi dos bandidos visa dificultar a identificação de quem estaria, concretamente, movimentando as contas bancárias. Mais de 400 pessoas foram investigadas em 20 unidades federativas. Elas, que não tinham qualquer ligação direta com o crime, recebiam uma espécie de mesada do comando do PCC para ser repassada a integrantes da quadrilha presos.

A atuação da força-tarefa de policiais civis e federais de Minas deve servir de exemplo para uma maior integração entre as forças policiais em todo o país. Certo é que, somente com a atuação conjunta dos órgãos de segurança pública por meio dos serviços de inteligência, o combate à criminalidade, que tomou de assalto cidades como o Rio de Janeiro, cartão postal do Brasil, logrará êxito.

As cinco razões de Bielsa

 

Mestre do técnico do Flamengo Domènec Torrent, Pep Guardiola tem um guru eleito por ele melhor técnico do mundo: Marcelo “El Loco” Bielsa, do Leeds United. Certa vez, ouviu do argentino, de 65 anos, que uma partida de futebol pode ser vencida por cinco razões:

“Porque um time é melhor. Pela condição física superior. Pelo acerto tático ou técnico. Pelo coração. E a quinta razão possível é esta — apontou o livro com a análise do rival”, enumerou Bielsa. Guardiola assimilou a lição e acrescentou um sexto elemento: o acaso.

As cinco razões de Bielsa explicam a humilhação por 5 x 0 diante do Independiente del Valle, na última quinta-feira, em Quito. Foi a maior derrota do Flamengo em participações na Libertadores. O pior resultado de Domènec Torrent em carreira solo, ou seja, desde o fim da parceria de 10 anos com Guardiola. O time rubro-negro não perdia por esse placar desde o vexame contra o Coritiba, no Couto Pereira, na campanha do título brasileiro de 2009.

Seguindo a ordem das razões de Bielsa, o Independiente del Valle arrasou o Flamengo porque, hoje, tem um time melhor. Falo de time, não de elenco. Os movimentos da trupe comandada por Miguel Ángel Ramírez lembram a melhor versão do Flamengo de Jorge Jesus. Vimos uma ideia de jogo consolidada, movimentação, trocas de passes belíssimas, velocidade e desejo insaciável por gols. O atual campeão da Libertadores era assim.

A segunda razão de Bielsa para uma vitória é a condição física superior. Alguns jogadores do Flamengo estão andando em campo faz tempo. Os adversários correm mais. Superam a equipe carioca em intensidade, explosão. Correm muito mais do que o badalado adversário.

Bielsa defende também que um jogo é vencido pelo acerto técnico ou tático. Domènec Torrent está abusando de errar. Inventou Rodrigo Caio e Thuler na lateral direita, divorciou Bruno Henrique de Gabigol, apostou em cinco atacantes (sem ensaio) em sua estreia na derrota para o Atlético-MG, posicionou Everton Ribeiro centralizado contra o Ceará...

A quarta razão de “El Loco” para a vitória é o coração. O Flamengo de Domènec Torrent perdeu o amor por vencer e entreter. Não pulsa. É um time sem paixão. Totalmente blasé.

O quinto motivo apontado por Bielsa para vencer um jogo é a análise do rival. Dome e seus assistentes fazem o dever de casa muito mal. Está claro que pouco ou nada sabem sobre os times brasileiros. Muito menos dos sul-americanos. O Independiente del Valle provou isso.

O Flamengo descumpre as cinco razões de Bielsa. Virou refém da sexta lei de Pep Guardiola: o acaso. Mas, até a sorte parece ter dado as costas ao distraído Domènec Torrent.

Charge

 (crédito: Editoria de arte)
crédito: Editoria de arte

Sr. Redator

Cartas ao Sr. Redator devem ter no máximo 10 linhas e incluir nome e endereço completo, fotocópia de identidade e telefone para contato. E-mail: sredat.df@dabr.com.br


Professores

É fato que os tempos de pandemia trouxeram a realidade de aulas não presenciais e, com isso, a sobrecarga de professores, que além de bancarem por si mesmos todas as ferramentas necessárias para garantir a produção de aulas on-line, eles têm de arcar com custos de energia elétrica, acesso a redes de internet e material de apoio necessários para a realização das aulas. O preparo destas demanda maior tempo de trabalho do professor, pois isso envolve produção de material de apresentação para os alunos. E, ainda, há a questão do trabalho de análise do trabalhos e exercícios feitos pelos alunos, tudo via plataformas e redes sociais (com perda de privacidade, pois pais e alunos fazem contatos 24 horas do dia, algumas vezes com assédio moral). É grande a demanda de tempo do professor junto a um computador. Tudo isso é estafante e não remunerado pelas escolas. Se os pais reclamam que, com aulas on-line, pagam o mesmo valor da mensalidade para aulas presenciais, ou mesmo aqueles que não pagam por escola, e ainda assim reclamam de tudo, por que não perguntam aos professores como é a vida deles? Eis, pois, que a pandemia agravou o problema de abusos de escolas sobre professores e escancarou a ignorância dos pais quanto à realidade vivida pelos profissionais da educação.
Marcos Paulino, Águas Claras


Renan Calheiros

Assistindo a um vídeo recente que foi enviado por esse renomado senador do MDB de Alagoas, fiquei estarrecido. No ínício, comunica que está internado em um hospital em São Paulo, para procedimento de retirada de noódulos em vários órgãos do corpo. Ate aí tudo bem. Pensei que estava arrependido do que causa ao povo brasileiros, mas o discurso foi outro. Disse que a situação foi criada pelos vários anos que vem sendo acusado injustamente de diversos atos ilícitos em sua vida. Senhor Renan, acho que o seu caso só pode ser resolvido por meio do psiquiatra. O senhor se esqueceu que participou, anos atrás, da República das Alagoas, em que tivemos um governo violento e corrupto? “Bateu, levou”. Sua memória está enfraquecida quando da cassação da corrupta Dilma Rousseff. Ela foi cassada, mas não teve seus direitos políticos suspensos grande foi a manobra feita no plenário do Senado pelo senhor. Senador, tem um ditado popular “Deus dá o frio conforme o cobertor”. Desejo que se restabeleça o mais breve possível, faça uma reflexão espiritual e tire essa máscara cruel e de instinto selvagem. O grande arquiteto do universo que o proteja.
Saulo Siqueira, Asa Norte


Protagonismo

Temos assistido a uma lamentável e grosseira distorção da democracia, em que partidos de oposição se revezam na aliança com o Supremo Tribuna Federal (STF) para desgastar e desacreditar o presidente da República e tumultuar o governo federal, mediante o uso de sucessivas ações de descumprimento de preceito fundamental (ADPF). Visam, exclusivamente, criar um ambiente desfavorável ao presidente com vistas a embasar um sonhado processo de impeachment ou inviabilizar a sua reeleição. As duas últimas ações de ADPF, ambas sob a relatoria de ministra Cármem Lúcia, ultrapassam os limites do bom senso e atingem as raias do ridículo. A primeira, ajuizada pelos partidos socialistas, Rede e Cidadania, questiona a criação da nota de R$ 200, sob a absurda alegação de que não atende ao princípio constitucional da eficiência e sob a ridícula justificativa que facilitaria a corrupção, desconhecendo que a corrupção é facilitada pelo foro privilegiado e pela impunidade de seus autores. Emissão de moeda é competência exclusiva do Banco Central, conforme expressamente estabelece o art. 164 da Constituição. Concomitantemente, o Partido Verde ajuizou outra ADPF, visando impedir a ação do Exército na defesa e proteção da Foresta Amazônica, das faixas de fronteira, das unidades de conservação ambiental, das terras indígenas e executar ações preventivas e repressivas ao desmatamento ilegal e de controle dos focos de incêndio. A ministra relatora deveria ter tido o bom senso de não extrapolar das competências do Judiciário, nem tumultuar a harmonia e independência entre os três pilares da República, determinando o arquivamento da ação.
Cid Lopes, Lago Sul

Desabafo

Pode até não mudar a situação, mas altera sua disposição

“Ainda não é hora de relaxar! Quem Anvisa, amigo é...”
Vital Ramos de Vasconcelos Júnior — Jardim Botânico


Eu sabia que nos Correios existe o vale-postal, mas não sabia que seus funcionários têm direito a um tal de vale-peru. Isso é sui generis.
Ivan T. de Pinho e Silva — Águas Clara


O presidente Bolsonaro tem razão: o Brasil é um exemplo para o mundo. Mas, de tudo que não deve ser feito por um presidente.
Joaquim Honório — Asa Sul


O governador-turista do DF terá mais tempo pra viajar a partir de 2 de janeiro de 2023.
Sebastião Machado Aragão — Asa Sul

Erramos

Diferentemente do publicado em matéria jornalística no site do Correio Braziliense, na tarde de 24 de agosto, a senhora Genir Pereira Sousa nunca manteve relacionamento com Marinésio Santos Olinto, réu confesso preso no Sistema Penitenciário do Distrito Federal por matá-la de forma cruel e covarde. Ao constatar o erro, o jornal corrigiu a matéria, e pede desculpas aos familiares e amigos da vítima de feminicídio pelo constrangimento causado. O assassino Marinésio, já condenado por outros crimes similares, responde judicialmente pelo crime que chocou todo o Distrito Federal e será julgado pelo Tribunal do Júri em data ainda não definida.

Currículo respeitável e trajetórias negras

 (crédito: Editoria de arte)
crédito: Editoria de arte

A sociedade brasileira sempre destinou lugar de subalternidade à mulher negra. É esperado que ela esteja em situação vulnerável e excluída dos postos profissionais mais valorizados. Herança contundente da escravidão, mulheres negras são corpos sem mente, destituídos de sentimento e discriminados. A elas são atribuídas a procriação, a nutrição dos filhos alheios e a satisfação sexual à lascívia dos senhores.

O contrato social estabelecido, que é sobretudo de raça e gênero, de forma nem sempre velada reserva às negras os degraus inferiores da sociedade. Só lhes é permitido ocupar espaços de servidão, evidenciando uma divisão racial do trabalho (vide dados do emprego doméstico no Brasil).

Nessa divisão, mulheres negras definitivamente não são acadêmicas e, quando conseguem romper as barreiras raciais, com frequência, são lembradas de que estão fora do lugar. Seus currículos são conferidos, averiguados e questionados por descrentes negros e brancos, homens e mulheres. E a indignação é, perversamente, verbalizada na expressão “um currículo respeitável”.

Desde o pós-escravidão no Brasil, as discriminações raciais têm atuado como eixos estruturantes dos padrões de exclusão social e relegaram a população negra à marginalidade do projeto de estruturação social, produziram abismo socioeducacional e, por consequência, reflexos no universo acadêmico.

A educação, um dos direitos fundamentais da humanidade, compreende uma das mais importantes áreas de mobilidade social. No entanto, é de difícil acesso à população negra, com reflexos na preparação de mulheres. Mas não sem resistência.

Ao longo do século 20, os movimentos negros organizados surgiram em contextos específicos e acumularam experiências educacionais para elevar política, moral e culturalmente a comunidade negra. Paulatinamente, a mobilização coletiva vem consolidando importantes pautas para inserção de negros nos programas educacionais, sobretudo por meio das políticas afirmativas como proposição à educação superior, registrando avanços consideráveis.

Em 2019, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), fundação vinculada ao Ministério da Educação, registrou 210.163 pesquisadoras matriculadas nos cursos de pós-graduacão no país. Do total, 12,9% são mulheres negras, entre as quais apenas 2,9% declararam-se pretas.

A partir desse resultado, pode-se inferir que, quanto mais escuro o tom da pele, menor a presença das mulheres negras na academia, ou seja, no Brasil, 132 anos depois de assinada a Lei Áurea, ainda é notória a ausência de mulheres negras no ensino superior.

Como reflexo, no mercado acadêmico, quando examinamos o perfil racial das docentes nas principais universidades, por exemplo — Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e Universidade de Brasília (UnB), a representação de professoras negras não ultrapassa os 2%. Situação semelhante é relatada por alunas e professoras de outras universidades.

Somos poucas e nossos passos vêm de longe. A construção de um currículo respeitável se faz com abnegação, estudo, reflexão, investimento financeiro, noites sem dormir, isolamento social, publicações e vivências práticas. As conquistas são graças ao esforço pessoal e ao ativismo das que vieram antes. Para chegar até aqui, foi preciso ocupar espaços nas rachaduras da estrutura.

Não é apenas um currículo respeitável. Também, há que considerar a trajetória. Isso não cabe no Lattes! Aceitar um currículo respeitável, principalmente de uma negra em posição de destaque, sem julgamentos e incômodos, é grande desafio para a nossa sociedade, é quebra de paradigmas. Exige exercício diário para rever valores, conceitos e crenças.

O caminho para implodir o pilar do racismo estrutural é romper com o padrão estigmatizado e promover a ascensão das mulheres negras a outros patamares da escolarização. É preciso avançar rumo a outra estrutura, mais plural e diversa, com representatividade e empoderamento de meninas, jovens e mulheres negras nas diversas áreas acadêmicas.

Em caso de febre, mudar o termômetro

 

A continuar a trajetória dos gastos obrigatórios, crescendo acima da inflação, a sobrevivência do teto dos gastos, a nossa última âncora fiscal — as demais, como a Lei de Responsabilidade Fiscal já foram “flexibilizadas” — tende a não durar muito. O principal dos gastos, a previdência, mesmo com a reforma, absorverá no próximo ano R$ 704,4 bilhões, segundo a proposta orçamentária para 2021 que o governo encaminhou ao Congresso. Em seguida, a conta de pessoal e encargos precisará de R$ 337,3 bilhões, de modo que os gastos com funcionários públicos e aposentadorias consumirão mais de dois terços do Orçamento.

Somando os R$ 101,9 bilhões da assistência social — que incluem, além dos R$ 34,9 bilhões do Bolsa Família, muitos programas sociais que são pouco eficientes no apoio aos pobres —, às emendas impositivas do Congresso e os subsídios, sobra muito pouco para gastos não obrigatórios, que podem ser gerenciados. Deles, a maior parte ainda vai para a manutenção da máquina pública, e a menor parte, R$ 28 bilhões, para investimentos.

Já está claro que o robusto pacote de apoio aos mais necessitados e à economia em função da pandemia está levando a forte crescimento da dívida pública, que deverá chegar próxima aos 100% do PIB ainda em 2020. Nas últimas décadas, todavia, mais do que o nível da dívida, o que mais atrapalhou o país foi o elevado custo de rolagem. Felizmente, estamos hoje com a taxa de juros mais baixa da série histórica, o que é uma ajuda e tanto.

Mas, como bem alerta o ex-secretário do Tesouro Nacional Mansueto Almeida, as previsões indicam um período de três a quatro anos de juros reais muito baixos, uma janela que deve ser aproveitada para avançar nas reformas estruturais. Se isso não acontecer, ou se não preservarmos o teto dos gastos, segundo Mansueto, os juros subirão, o que será desastre para as contas públicas e exigiria ajuste fiscal radical. De qualquer forma, afirma, a forte pressão sobre o teto, que virá em 2022, vai exigir redução das despesas obrigatórias. Um caminho é aprovar emenda constitucional que autorize acionar gatilhos de controle de despesas obrigatórias quando atingirem ponto de inflexão necessária. Já existe proposta para isso no Congresso.

Não há dúvida de que muitos projetos meritórios acabam sacrificados pela falta de espaço fiscal, principalmente na infraestrutura. Mas, furar o teto para implantá-los certamente traria mais prejuízos do que benefícios para a sociedade. E, já que há limites, o foco deve mudar de gastar mais para gastar melhor. É o que, infelizmente, acontece com pouca frequência, a exemplo do novo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Básico (Fundeb), recém-aprovado no Congresso, aumentando a participação da União de 12% para 23% nos próximos seis anos, com 70% obrigatoriamente destinados ao pagamento do magistério e dos funcionários da educação.

É uma despesa, agora incluída na Constituição, que eleva os gastos obrigatórios no Orçamento público e fará os salários subirem ininterruptamente, independentemente de mudanças nas necessidades futuras ou de melhorias na qualidade do ensino. Gastar melhor em educação, num país que já despende a elevada quantia de 6,5% do PIB, seria, por exemplo, rever o ultrapassado modelo de universidade pública gratuita para as camadas mais abastadas da população. Em vez de cortar privilégios, o Congresso optou por pressionar novamente o teto dos gastos.

Para reduzir o risco fiscal, é necessário aplicar ao Estado a receita que conhecemos: diminuir a obesidade e desenvolver massa muscular. Transformar algo inchado e ineficiente em uma instituição forte, capaz de efetivamente cumprir o papel do Estado moderno, que possa impulsionar e não frear o país, em vez de capturar quase toda a riqueza produzida pela sociedade para cobrir os custos da máquina pública, estimule a economia.

A realização das reformas estruturais, especialmente a administrativa e a tributária, é passo necessário para esse avanço. Furar o teto dos gastos, por seu lado, seria perder boa parte da caminhada já feita. E, somado ao custo da pandemia, seria jogar o país no escuro. Como bem alerta Adolfo Sachsida, secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, o teto não precisa ter adaptação porque é apenas o termômetro que mostra que o organismo está com febre. E não se combate febre alterando o termômetro. O problema não é o teto, mas os gastos obrigatórios, o excesso e a má qualidade das despesas. Está na hora de o país destravar o freio de mão.

Visto, lido e ouvido

Desde 1960

Um farol, antes que seja tarde

É em tempos confusos, como este que estamos experimentando agora, e que no calendário chinês corresponde ao ano do Rato de Metal (Gang-Zi), que figuras proeminentes do pensamento emergem como faróis, em noites de tempestade no mar, a iluminar o caminho para fora das rochas. Sem essa luz , atravessar momentos de pandemia e de incertezas quanto ao futuro torna ainda mais penosa a viajem que humanidade empreende, neste 2020, rumo ao desconhecido.

O filósofo francês Michel Serres (1930-2019), desponta como essa preciosa lanterna dos afogados. Sua condição de testemunha do que o século 20 teve de pior deu-lhe a bagagem e autoridade para entender o mundo sempre conturbado e que despreza tantas oportunidades e tantas vidas. Dos 6 aos 25 anos, presenciou o amontoado de cadáveres acumulados pela guerra civil espanhola, e pelas Blizkriegs alemãs em 1939, em Paris. Adolescente, assistiaà batalha da resistência contra os colaboracionistas. Viu, ainda, os deportados aos campos de concentração e os posteriores ajustes de contas entre compatriotas. Na juventude, veria, chocado, os Estados Unidos lançarem duas bombas atômicas contra a população civil do Japão, num esforço vil para deter a escalada do conflito mundial (1939-1945). Viriam outros morticínios, na União Soviética, na China, Coreia, Vietnã...

Mas, foram justamente estas bombas que levaram Serres a trilhar os caminhos da filosofia e da erudição em ciências, como a matemática, a física, a mecânica, a bioquímica e outras de seu interesse, na tentativa de decifrar o mundo violento, em busca de um universo ético possível. Talvez, essa trajetória por ciências diversas tenha imprimido em seu espírito a certeza de que a educação e a cultura são ferramentas fundamentais que podem afastar o homem dos conflitos e das guerras desnecessárias e infames. Esta parece ser a tese central de seu trabalho: o aprimoramento do ser humano. “Se você tem um pão e eu tenho um euro, e eu vou comprar seu pão, eu terei um pão e você, um euro, e haverá um equilíbrio nessa troca, isto é, A tem um euro e B tem um pão, e ao contrário, B tem pão e A, o euro. Este é, pois, um equilíbrio perfeito de mercado. Mas, se você tiver um soneto de Verlaine, ou o teorema de Pitágoras, e eu não tiver nada, e você me ensinar, no final dessa troca, eu terei o soneto e o teorema, mas você terá mantido ambos. No primeiro caso, há equilíbrio. Isso é mercadoria. No segundo, há crescimento. Isso é cultura”.

Não há muito a ser dito sobre esse aforismo, apenas que seu conteúdo não tem sido assimilado adequadamente por grande parte de nossos governantes ao longo das décadas e, talvez, esse seja o nosso nó górdio, que nos mantém atados a um passado de violência e atraso. O incremento ao uso de armamentos pela população, em substituição aos livros, os cortes drásticos em pastas fundamentais como a educação, o fechamento de bibliotecas e de livrarias, de museus, de galerias e de outros pontos de cultura e saber parecem apontar, mais uma vez, para um futuro sombrio em que os homens, tornados novamente brutos, só encontrarão no conflito sangrento um meio de seguir em frente. É esse tipo de farol que parece cada vez mais distante, que almejamos. Antes que seja tarde.

A frase que foi pronunciada

“Jamais morreria pelas minhas crenças, porque elas podem estar erradas”.

Bertrand Russell, matemático, filósofo, ensaísta e historiador

Sem punição
Senador Ângelo Coronel defende, nas redes sociais, a legalização dos jogos de azar. Uma das justificativas é que o jogo ilegal movimenta cerca de R$ 60 bilhões. Diz o senador que a legalização traria 1,3 milhão de empregos e R$ 20 bilhões de impostos. O maior problema seria a fiscalização contra a lavagem de dinheiro. Não há efetividade de qualquer instância de poder com essa prerrogativa.

Vista grossa
Por falar em fiscalização, parece que ninguém mais leva a covid a sério. Em muitas lojas, não há controle de entrada, nem álcool, nem termômetro. Nas feiras, também. No Paranoá, com duas entradas, só uma cumpria o protocolo. Nem vamos mais falar em Piscinão do Lago Norte.

Agilidade
Zélio Maia, diretor do Detran, está confiante na retomada de coleta biométrica para o encaminhamento da expedição de carteira de habilitação. Trata-se de uma forma mais rápida e eficiente de acelerar o atendimento.

Humanizar
A chefe da Coordenação Regional de Ensino do Gama, Cássia Nunes, comemora o destaque de algumas escolas cidade no ranking de notas. A grande diferença é saber ouvir e dividir responsabilidades. Além disso, o envolvimento e o comprometimento do corpo docente aumentam quando tomam para si parte da responsabilidade pela melhora.

Senac
Veja no Blog do Ari Cunha tudo sobre os cursos gratuitos oferecidos pelo Senac. São 1,6 mil vagas no DF. As inscrições para os 45 cursos técnicos e de formação inicial ou continuada abriram ontem.

Residual
Quer se livrar de eletrônicos, embalagens de vidro ou óleo de cozinha? É só ligar para 9 8323-7372. Veja mais detalhes no Blog do Ari Cunha.

História de Brasília
Sabe-se que a urbanização é obrigação da Novacap, mas o ajardinamento, também como a sua manutenção, torna-se um encargo muito pesado para a Construtora da Cidade. Mas, se houver má vontade dos Institutos, que a prefeitura dê, também, o exemplo, ajardinando as superquadras.(Publicado em 17/1/1962)

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