Visto, lido e ouvido

Circe Cunha (interina)
postado em 24/09/2020 21:43

“Concertación” em torno do fim da Lava-Jato, em um festim diabólico

Fosse uma espécie de “concertación” para se chegar a um acordo suprapartidário e político em benefício do Brasil, tal qual havido em países distintos como Chile em 1988; em El Salvador, em 1961 e em outros mundos afora, visando uma guinada de rumo, sem dúvida alguma a Operação Lava-Jato, mereceria, por seus efeitos revolucionários e pedagógicos, servir como bandeira de uma causa que é também defendida por grande parcela de nossa nação.

O que parecia ser um vento fresco, em quinhentos anos de história brasileira, vai, aos poucos, sendo corroído pelas beiradas, seguindo o mesmo destino de sua congênere italiana “Mani pulite” que, entre 1992 e 1996, buscou sanear a vida política naquele país, encontrando, como aqui, forte oposição dos políticos, principalmente daqueles implicados em rumorosos episódios de corrupção e outros crimes. Durante esses seis anos em que vem atuando, a Lava-Jato tem levantado pilhas de dossiês que desnudam, de forma visceral, o modus operandi praticado, há décadas, por partidos políticos, empresários, juízes e outras lideranças de destaque para, em síntese, conforme vem sendo continuamente demonstrado, saquear o erário público à exaustão.

Assim como o movimento Diretas Já, de 1983, a Lava-Jato, iniciada em 2014, conseguiu a rara proeza de unir brasileiros de muitos credos políticos em prol de um objetivo acalentado por séculos, que era pôr um fim aos privilégios e poderes que detinham a classe política e que lhes franqueava o acesso escancarado aos cofres públicos.

Nesse sentido, a Lava-Jato pode ser comparada a uma “concertación” à moda brasileira. Mas, como tudo que é bom e correto parece não ter vida longa neste país, a Lava Jato, forçada a se postar na alça de mira daqueles que investiga, vai levando chumbo grosso por todos os lados, conseguindo um tipo de unanimidade cúmplice entre os poderosos de todos os partidos e posições, que agem para pôr um ponto final nessas faxinas éticas.

Este movimento unânime do primeiro escalão político de nosso país, para assassinar a reputação da Lava-Jato e dos seus membros, é reforçado, ainda, pela atuação vergonhosa daqueles de quem mais se esperavam apoio irrestrito ao trabalho das forças-tarefas. O Ministério Público Federal, seguindo orientações do tipo inconfessáveis, age, também, na linha de frente para debelar esta Operação, a qual classifica como “lavajatismo” ou o que quer que isso signifique no jargão dessa gente.

Mas, é no Supremo, de onde a população já aprendeu nada esperar de positivo para o país, que estão, incompreensivelmente, colocadas as baterias pesadas que agem para dizimar a Lava-Jato. É essa “concertación” de réus e de outros ao seu serviço, que estão, agora, unindo as forças da contrarreforma para o restabelecimento do antigo status quo, numa unanimidade poucas vezes vistas entre esse pessoal.

Os brasileiros de bem, a essa altura, já perceberam este movimento oficial pelo restauração da impunidade geral e secular, mesmo daqueles que, em frente das câmeras e sob o olhar afiado da opinião pública, juram defendê-la. Neste movimento em prol da corrupção e a favor da volta ao passado, agrupam-se, ainda, os mais refinados e caros escritórios de advocacia do país, todos unidos e de olho nos honorários gordos, venham de onde vierem.

As quase 80 operações já realizadas até agora pela Lava-Jato, e que preenchem centenas de milhares de páginas com relatos de crimes de todo o tipo praticados pela elite política de nosso país, formam, apenas, uma pequena parte de nossa história de perfídias e ainda há muito o que ser trazido à luz.

Talvez, mais do que já sabemos ou supomos saber. Para um desses personagens de ponta nesta história, e que teve atuação exemplar nesses episódios, o desembargador João Pedro Gebran Neto do TRF-4 afirma que “se a esquerda e a direita estão reclamando, significa que a operação Lava-Jato está no caminho certo e não tem ideologia, é isenta e imparcial e não cometeu excessos e sempre esteve dentro da legalidade.”


A frase que foi pronunciada

“Sem virtudes cívicas não pode haver governo democrático.”

Montesquieu, político, filósofo e escritor francês


Feirão

Liberado feirão de automóveis em áreas públicas do DF. De um lado, a Câmara Legisltiva do DF aprova o decreto legislativo do deputado Daniel Donizet, de outro, o GDF proibia o evento. Segundo o deputado, sustar o efeito do decreto do governo basta para ter segurança jurídica.


Suspeitas

Nada de “chinofobia”. Mas gente com sotaque está comprando bastante terras no DF. Diz sempre que dinheiro não é problema.


Micro: contribuições da antropologia

Obra organizada pela professora Soraya Fleischer, do Departamento de Antropologia da UnB, e pela jornalista da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Flávia Lima, trata de uma pesquisa etnográfica sobre o impacto da epidemia do vírus zika no Brasil, entre 2016 e 2019. O dia a dia das mães, que foram afetadas com o estranho vírus, encrustado, em grande parte, na pobreza.


História de Brasília

A UPI distribuiu, ontem, um telegrama segundo o qual a Pan-American está seriamente incriminada num processo na Corte Americana por “monopolizar ilegalmente o tráfego aéreo entre os Estado Unidos e a América do Sul”. (Publicado em 17/01/1962)

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