Feminismo negro: em prol de um projeto de nação

JEANICE DIAS RAMOS
postado em 03/10/2020 08:26
 (crédito: Caio Gomez/CB/D.A Press)
(crédito: Caio Gomez/CB/D.A Press)

Chega de apenas sustentarmos a velha bandeira dos anos 70: “Nós, mulheres negras, somos duplamente discriminadas”. O tempo passou e novas mensagens foram incorporadas à luta do feminismo negro. Alguém de nossa família, no passado, já foi açoitado, para que, hoje, a violência contra a mulher negra seja ainda motivo de debate.

Temos motivos de orgulho nessa trajetória. Homens e mulheres negras chegaram ao Brasil, transportados em péssimas condições, procedentes de tribos diferentes, famílias desfeitas, sem nenhum registro geográfico. Sim, somos vencedores. Após esse período, sem direito à terra e à dignidade, sobreviveram.

Chegamos aos tempos atuais. Ainda são inúmeras as dificuldades, mas, agora, existe certa solidariedade, um companheirismo. Entre as mulheres negras, isso tem sido notório. Aderiram direto à campanha “uma puxa a outra”.

O cenário brasileiro, marcado por disparidades sociais e econômicas, se transforma num desafio não só para negros. Tem que ser enfrentado por meio de políticas públicas e privadas de promoção de igualdade racial e combate ao racismo, envolvendo estratégias para eliminar a mortalidade, como também o encarceramento da juventude negra.

Neste momento de crise, precisa haver maior diálogo entre poder público e sociedade. A comunidade negra precisa ser ouvida. Sua voz tem de ser levada em conta. Enquanto permanecermos apartados, não se terá um projeto de nação. A indiferença quanto à luta pela igualdade racial faz que a sociedade como um todo não progrida.

Sabemos que as cotas implantadas são importantes para alavancar jovens negros nas universidades, mas logo após a formatura se deparam com um mercado de trabalho adverso e discriminatório. A meritocracia de araque impera, atravancando espaços que poderiam ser ocupados pelo jovem negro egresso da universidade.

Na área da segurança pública, por exemplo, teríamos que contar com uma política de combate às drogas, que seduzem a juventude, às vezes, por um boné de grife ou um tênis de marca importado. Negros da periferia têm sido recrutados pela ilusão do consumismo.

Suas mães são diaristas, manicures, garçonetes, cozinheiras, ambulantes, dando conta do trabalho e dos filhos. Não têm condições de acompanhar a trajetória imediatista do adolescente.

As mulheres negras são segmento da sociedade que mais sofre a discriminação. Historicamente falando, a abolição é algo recente, e nas muitas transformações que ocorreram no país as negras têm sido tratadas com desprezo, desdém, não com dignidade.

Violentadas, em meio a famílias desestruturadas, com salário ínfimo, sem poder estudar, tendo que trabalhar muito jovem, num mercado de trabalho que as rejeita, enfim uma série de fatores que não contribuem para uma vida com saúde física e mental.

Só mais recentemente são vistos estudos acadêmicos sobre o adoecimento da população negra, a exemplo da depressão e da ansiedade, nem sempre tratadas ou mesmo diagnosticadas, em função do desconhecimento e da falta de acesso ao tratamento. Com a entrada no mercado de trabalho de médicos, psicólogos, enfermeiros negros, que entendem o problema, ficou mais fácil enxergar as causas dessas doenças.

Existe ainda o mito de que negros são mais resistentes à dor. É corriqueiro o relato de violência obstétrica entre as negras. Sem falar nas moradias precárias, com dificuldade de acesso à água potável e esgoto, e saúde pública deficiente.

Mas, a mulher negra é aguerrida. Ao longo dos anos, vem estruturando uma rede de contatos e solidariedade. As mulheres se mexem e furam a bolha que as mantém afastadas do conforto, da serenidade, como se estivessem em constante guerra.

Nessa trajetória de luta, as negras tiveram alguns espelhos. Como Angela Davi e bell hooks, feministas negras dos EUA. Mas uma grande mentora nacional foi Lélia Gonzalez, motivadora do feminismo negro. Evoluímos mais um pouco e já temos duas filósofas negras brasileiras reconhecidas: Sueli Carneiro e Djamila Ribeiro, a última muito aplaudida pelos jovens.

Temos de elaborar um projeto de nação plural e abrangente que contemple periferias e favelas, que dialogue com a vida real do povo negro. Que a população negra saia do lugar subalterno e protagonize, em conjunto, as mudanças que se fazem necessárias para reduzir a vulnerabilidade da juventude negra, que diminua a violência racial, a taxa de homicídios e o encarceramento da juventude negra.

*Jeanice Dias Ramos é jornalista, especialista em gestão em políticas públicas, com ênfase em igualdade racial e de gênero



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