Tudo por um semiaberto

Ana Dubeux
postado em 03/10/2020 22:45 / atualizado em 04/10/2020 09:28
 (crédito: Alfredo ESTRELLA/AFP)
(crédito: Alfredo ESTRELLA/AFP)

Você já tentou dar ordens a si próprio? A coisa mais fácil do mundo é desobedecer às regras que definimos e às imposições que fazemos a nós mesmos. Porque, ainda que a culpa seja um mal da humanidade, o perdão ao próprio ego é concedido sem grandes dramas. Ainda mais quando as circunstâncias não ajudam. Mas, com uma semana de isolamento imposto pela covid-19, já entendi que seguir o script que defini para mim é garantia de sanidade mental e conforto físico. Logo, eu me obedeço.

Decidi que em meus dias de isolamento no quarto, nesta rotina de prisão em regime fechado, vou olhar a vida pela janela, ler, assistir a filmes, fazer exercícios funcionais e me alimentar de forma saudável. Desde o diagnóstico e o início do isolamento, impus minhas regras e condições. Cumpro com rigor as orientações médicas e as minhas próprias.

Estou bem. Não sinto solidão. Uma maratona de flashbacks na tevê e as mensagens dos amigos são uma companhia maravilhosa. Quase como uma progressão para o semiaberto. Vivo um dia de cada vez. Pois sei que, em um lapso de segundo, tudo pode mudar. Aqui e no resto do mundo. Está aí o surpreendente exemplo de Trump, às vésperas da eleição para o posto de pessoa mais poderosa do mundo.

Isolada, em casa, entendo minha condição de privilégio, mas não perco de vista o que se passa lá fora, como o drama de quem aguarda um leito numa UPA ou numa UTI de hospital. O coronavírus não foi, não é e nunca terá sido uma “gripezinha”. A pandemia não passou, não é passado. É presente e será futuro. Com os filtros necessários, as redes sociais e as notícias me dão a dimensão do caos que ainda vamos viver por um bom tempo. Mostram a ambiguidade de um planeta que sofre e luta para ter e demonstrar prazer. Entre as frivolidades e as insanidades diárias, escapam as fotos, os registros do dia a dia, das coisas prosaicas, do pé na areia, do prato e comida... Ah! Os meus ipês... Isso é viver e celebrar um dia de cada vez.

Sinto falta de movimento, do vento quente batendo na cara, de caminhar pelas quadras, de liberdade. Mas não posso, nem quero reclamar. Até porque o confinamento me deu a oportunidade de um encontro único. Sabe aquele encontro sempre adiado? Pois é. Estamos eu e eu mesma. Sozinhas.

Será que aguento uma conversa íntima de 14 dias aqui com meus botões? Em algum momento da vida, precisamos nos ver novamente sozinhos, pois assim nascemos e assim morreremos. Ter essa chance em vida, de se escutar sem nenhum outro ruído, é uma oportunidade única. Esta doença vai me reapresentar a mim mesma. É daqueles momentos em que você se investiga, se reconhece e decide como será daqui em diante. Levarei esse ensinamento ou talvez esse direcionamento. Agradeço a todos vocês pela companhia e pelas preces! Se tudo der certo, já volto. Bom domingo!

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