A tecnologia social e a alimentação dos mais pobres

CARLOS ARTEXES
postado em 15/10/2020 07:42 / atualizado em 15/10/2020 08:02

As cenas de toneladas de alimentos sendo descartadas ao lado de comunidades em situação de insegurança alimentar não fazem parte apenas do arquivo de imagens das nossas tevês e jornais. No Brasil, duas realidades ainda convivem entre si: o aumento da fome e os altos índices de desperdício de alimentos. Lado a lado, tais registros são inaceitáveis, sobretudo em meio à atual crise econômica e de saúde pública.

Dados recentes da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Agricultura e Alimentação (FAO) mostram que a fome aumentou no Brasil entre 2017 e 2019. No ano passado, ainda antes da pandemia, 43,1 milhões de brasileiros precisavam de apoio para se alimentar. Situação que certamente se agravou no atual cenário. Mas, nas comemorações de 16 de outubro, data do Dia Mundial da Alimentação, encontramos motivos para confiar que este quadro pode ser revertido.

A crescente consciência social, o trabalho das redes de proteção social e o aumento de ações de solidariedade nos fazem seguir confiantes. A concessão do Prêmio Nobel da Paz ao Programa de Alimentos da ONU certamente vai ajudar, também, a ampliar a mobilização mundial em torno desse problema tão urgente.

O Mesa Brasil Sesc, a maior rede de bancos de alimentos da América Latina, foi criado há 26 anos para minimizar o problema histórico do desperdício e combater a insuficiência nutricional dos brasileiros. O desafio era (e ainda é) destinar às pessoas em risco social alimentos que ainda estão próprios para o consumo, mas não para a comercialização, como aqueles com embalagem fora do padrão ou frutas, legumes e hortaliças descartados nas feiras ou grandes redes de supermercados por não chamarem a atenção do consumidor.

Para levar esse propósito adiante, foi criada grande rede de solidariedade que conta, por um lado, com parceiros doadores e, por outro, com entidades que atendem diariamente pessoas em situação de vulnerabilidade. Entre as duas pontas, está o Mesa Brasil Sesc, que, por meio de logística própria, garante a qualidade das doações desde a coleta até a distribuição. O programa atende a mais de 6 mil instituições e ONGs cadastradas em todo o país.

Na pandemia, essa sólida engrenagem social foi fundamental para dar vazão ao grande movimento de solidariedade que se formou no país. Foram muitos os novos parceiros que encontraram no programa um meio de ajudar os que se viram ainda mais fragilizados com o isolamento social ou o desemprego. Cada um, a seu modo, contribuiu como pode, seja nas lives culturais, que arrecadaram recursos, seja na mobilização de funcionários e clientes, como vimos em grandes redes varejistas.

Rapidamente, o programa se adaptou ao novo fluxo. Entre janeiro e agosto deste ano, as doações cresceram 29% se comparado com o mesmo período do ano passado. Comunidades de norte a sul do país, incluindo ciganos, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, caiçaras, coletores de materiais recicláveis receberam os alimentos como complementação ou, em muitos casos, até como a principal refeição do dia. O Mesa Brasil Sesc conquistou o reconhecimento da FAO. Seu propósito de defesa da vida merece o reconhecimento de todos.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação