Opinião

Artigo: A vida é mesmo um sopro

"Cada minuto na companhia de quem amamos tem valor"

Ana Dubeux
postado em 18/10/2020 09:09
 (crédito: Cristiano Gomes/CB/D.A Press)
(crédito: Cristiano Gomes/CB/D.A Press)

A mãe de uma grande amiga achava que o estudo era a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento. Ele é o fio condutor da vida, aquilo que dignifica a nossa experiência terrena. Desde que saí do isolamento, tenho provas diárias da importância das relações humanas, do importar-se com o outro, da relevância de estarmos juntos nessa caminhada. O tempo passa muito rápido e a vida nos reserva momentos singulares de afeto. Hoje, queria te dizer que cada minuto na companhia de quem amamos tem valor. Porque a ausência do outro é daqueles sentimentos dificílimos de administrar. Distância e luto, até virar só saudade e lembrança boa, são dores extremas.

No pós-covid, com a segurança recuperada e os exames em dia, me apressei em me reconectar com os meus e com aqueles que me importam. Voltar a conviver com minha neta, Liz, foi um sopro tão fresco e vivo que me emociona. Em sete meses, minha bonequinha falante já conversa como uma mocinha, um crescimento impressionante. Penso: o que será que perdi? No íntimo, sei que nada de tão importante que não possa reviver porque estaremos sempre conectadas. Mas, certamente, a ausência poupou risadas, abraços, histórias para o meu repertório de avó. Hei de catá-las na imaginação e de pescar aqui e ali nas suas falas e gestos.

Agradeço por essa oportunidade, sobretudo quando as notícias da pandemia não são tão boas como a cura e a chance de um renascer. Hoje, meu coração está com Vanda Célia, jornalista amiga, que passou mais de 80 dias em compasso de espera, rezando pelo marido, Alberto Mendonça Coura, lutando para manter a esperança enquanto ele estava na UTI. Beto se foi. E não posso querer imaginar a dor de perder o amor da vida dela. Ninguém se prepara para isso. Não há jeito, nem caminho possível.

Não o conheci, mas passei a admirá-lo de tanto ler referências bonitas sobre ele. E também sobre um amor que atravessou décadas. Anos e anos de companheirismo. Duas almas que, ao se encontrarem, tornaram-se uma só. Cúmplices. Convivências assim são raras e pródigas. Beto vai ao encontro de sua paz e seguirá nas lembranças da família e dos amigos. Mas Vanda viverá o luto da ausência. Rezo por ela e por todos aqueles que viram, nestes tempos, a chama da vida se apagar. Restam o exemplo de vida em comum, as lições de um casamento que prosperou com amor e respeito, a admiração de todos que puderam partilhar de sua convivência. Força, querida Vanda! A você, o meu mais puro e sincero sentimento.

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