Opinião

Reféns do mundo on-line

''Aqui o debate não é necessariamente privacidade ou publicidade. É a mudança dos nossos hábitos. Que, sem dúvidas, poderão nos custar caro. Estamos reféns das máquinas e do mundo conectado, mais do que nunca, principalmente, na pandemia''

Adriana Izel
postado em 20/10/2020 06:00 / atualizado em 20/10/2020 08:55
 (crédito: Breno Esaki)
(crédito: Breno Esaki)

Você talvez não saiba. Mas anos atrás fizemos um pacto com a tecnologia. Que nos levou nossa memória e nosso cuidado com o que é nosso. Há anos não decoro mais números de telefones. Só me lembro dos antigos. Quem mudou quando eu já estava adepta do celular, nunca ganhou espaço na minha mente.

As enciclopédias na minha casa estão todas acumuladas no quarto dos fundos. As pesquisas que fazia na infância e parte da adolescência migraram, em geral, para a internet. Hoje, então, nem se fala. As fotografias, simplesmente, parei de revelar. Elas estão a salvo, mesmo que o celular pife, graças a uma nuvem que pago num plano um tanto salgado para não perder registros que não podem ser recuperados, para além da minha memória visual.

O meu e-mail é um acervo da minha vida. Recebo minhas contas, guardo conteúdos usados desde a graduação até as especializações, mantenho documentos (nunca se sabe quando você vai precisar de um comprovante de endereço ou renda, ou a cópia do passaporte), e incluo tudo relacionado ao trabalho. É uma mina de ouro sem a qual não vivo sem.

Um dia desses vivi um apagamento digital. Não foi hacker, nem vírus. Foi a presença desavisada da minha mãe na minha caixa de e-mail. Diferente de mim, ela gosta da caixa de e-mail zerada. Como um aspirador de pó, em minutos, ela apagou e depois deletou da lixeira dezenas de e-mails.

Perdi tanta coisa que não conseguia nem dimensionar o estrago. Meu dia foi por água abaixo, por mais fútil que isso pareça ser. Na hora do aperto, que depois foi resolvido graças ao próprio Google — que me devolveu tudo que apaguei nos últimos 30 dias deixando minha caixa de entrada digna de outro desespero —, percebi o quanto nossa vida depende do modo on-line.

Isso vai além das discussões mais complexas do documentário sensação da Netflix O dilema das redes. Aqui o debate não é necessariamente privacidade ou publicidade. É a mudança dos nossos hábitos. Que, sem dúvidas, poderão nos custar caro. Estamos reféns das máquinas e do mundo conectado, mais do que nunca, principalmente, na pandemia.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação