Racismo na política: o caso gaúcho

Antônio Carlos Côrtes*
postado em 24/10/2020 08:30 / atualizado em 24/10/2020 08:35

No livro Rota 66, o jornalista Caco Barcelos denunciava o assassinato de negros. É apenas véu que desnuda a realidade brasileira. Negros são mortos por diferentes maneiras — fisicamente, mas também pela forma de impedir seu acesso ao poder, mesmo que no Mensalão e Lava-jato não se constate presença de negros. Ao contrário, o magistrado Joaquim Barbosa foi exemplo de combate firme à corrupção.

Por que não negros têm medo de negros, os quais são a maioria da população brasileira? Respondo: Porque têm medo de serem superados. No meu livro Bailarina do Sinal Fechado, transcrevi, na crônica Brasil reconhece direito aos negros, o pensamento de Joaquim Nabuco: “Não basta acabar com a escravidão. É preciso destruir sua obra”.

Acessando dados no trabalho do professor Irapuã Santana, vê-se que nas eleições gerais de 2014, 45,63 % dos candidatos a deputados estaduais no país eram não negros; dos candidatos a federais, 41,06%; ao Senado, 30,81% e a governador, 31,25%. Já em 2016, inexistiram candidatos negros nas eleições para prefeito em 2.512 dos 5.568 municípios brasileiros.

Há provérbio latino tão antigo quanto verdadeiro e, por isso mesmo, espeitado: In claris cessian interpretatio, ou seja, quando as coisas são claras, não precisam de interpretação. Não se trata de vitimismo ou dramatização do articulista. É realidade nua e crua.

Alguns dirão: mas, no Rio Grande do Sul, tivemos os deputados Carlos Santos e Alceu Collares como governadores. E não esqueçamos o senador Paulo Paim. Ora, nomeiam pela exceção, o que confirma a regra.

Hoje, no interior do estado e na capital, Porto Alegre, candidatos negros tanto na campanha majoritária quanto na proporcional sofrem boicote de alguns “donos de partidos”. Este apartheid sulriograndense beneficia quem mesmo?

Já em outra obra que minha pena assinou, Rua da Praia 40º, no texto Genocídio dos Negros Sulriograndense, aponto o crescimento de 34,47% no número de assassinatos de jovens negros. Vejam se os negros estão representados, de modo proporcional, nas câmaras de vereadores, assembléias legislativas, Câmara Federal e Senado, ou nos Poderes Executivo municipal, estadual e federal. Nem falo do Judiciário e Ministério Público, diplomacia, alto escalão das Forças Armadas e nos melhores cargos da iniciativa privada. A Brigada Militar jamais teve um comandante-geral negro.

Em tempos de mais de 150 mil mortes decorrentes do coronavírus, observo que houve, por parte de alguns governantes, banalização da morte, principalmente dos moradores das periferias das grandes cidades, compostas por negros em sua maioria.

Aduzo que mesmo que os negros se adaptem, com alguma facilidade, às adversidades, em face do descaso do poder público, nesta pandemia, sua imunidade é quartel general de soldados-células, que os protegem ao longo da vida. Há ação consciente e autônoma. O medo compõe esta última. Somos portadores de células físicas e espirituais. Quando fraquejamos em amor próprio, nos tornamos sensíveis e vulneráveis. Surgem doentes e não doenças. Dá para compreender a vacina do amor? Precisamos transformar o medo em caridade, bondade e carinho. Isto nos deixa leves como planadores, em paz com a vida.

Os medos são buracos feitos no casco do nosso “navio-corpo”, cujo cais de chegada é o mesmo da partida. Parafraseando Fernando Brant: “o medo é angústia gerada do desconhecido, é irmão gêmeo do perigo que projeta. O mito da caverna de Platão.

Todos têm medo, no entanto, para alguns, senti-lo é algo devastador e sem controle. É normal a autopreservação. Ruptura de laços emocionais e neurose. Medo da morte, da qual que desejamos distância, ainda que realidade inevitável ao fim do ciclo vivencial. Medo de ser tornado eunuco, abandonado pelo superego anjo da guarda.

Em meu mais recente livro Degraus da Vida, deixo claro que faltam políticas públicas para a concretização da democracia racial no país, até porque, até agora, tem prevalecido o amedrontamento e o comodismo.

País de dimensão continental, o Brasil não pode desperdiçar o enorme potencial de criatividade, inteligência e talento dos negros. Freud, em II disagio Della civiltã (1929), admitiu ter se servido dos métodos americanos. Aduzo que na classe média negra está o crescimento do Brasil, pois a maioria da população é afrodescendente.

Aliás, o pai da psicanálise disse que os poetas e filósofos descobriram o inconsciente, ele apenas descobriu o método de estudar. Está na hora de a casa-grande estudar e ver que a raiz está nos negros.

*Advogado, escritor e psicanalista 

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